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Full text of "LAMPIAO DA ESQUINA - Brazilian Gay/Trans News paper produced during the military government"

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ANO 


Rio  de  Janeiro,  junho  de  1980  —  Cr$  30,00 


Leitura  para 
maiores  de  18  anos 


da  esquina 


r  três  crimes 
abalam  a  , 

comunidade 
i  guei 


O  aborto 
segundo 

Pasolini 


O  racha  no 
Somos 

paulista 


•  •  •  Negros  contra  o  1 3  de  Meio 


**** 

APPAD  * 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


I  OPINIÃO  \ 


O  Aborto  Segundo  Pasolini 


Eu  sou  pelo  referendo  em  oito  pontos  do  Par¬ 
tido  Radical  (pela  liberação  do  aborto)  e  estarei 
disposto  a  colaborar  numa  campanha,  mesmo 
imediata,  a  seu  favor.  Partilho  com  este  partido  a 
pressa  de  que  seja  ratificado  rapidamente:  este  é  o 
primeiro  principio  da  democracia. 

Contudo,  sinto-me  imumatnado  pefa  legis¬ 
lação  que  diz  respeito  ao  aborto,  porque  a  con¬ 
sidero,  como  muitos,  uma  legislação  de  homi- 
cidio.  Nos  meus  sonhos  e  no  meu  comportamento 
cotidiano  —  e  isto  é  comum  a  todos  os  homens  — 
eu  vivo  a  minha  vida  pré- natal,  aquela  feliz  imer¬ 
são  nas  águas  maternas:  sei  que  já  existia  lá. 
Limito-me  a  dizer  isto,  porque,  a  propósito  do 
aborto,  tmho  coisas  mais  urgentes  a  dizer.  Que  a 
vida  é  sagrada,  é  óbvio;  é  um  principio  ainda  mais 
forte  que  qualquer  principio  da  democracia  e  é 
inútil  repeti-lo. 

Contudo,  a  primeira  coisa  que  quero  dizer  é  a 
seguinte:  o  aborto  é  o  primeiro  e  único  assunto 
acerca  do  qual  os  radicais  e  todos  os  outros  de¬ 
mocratas  seus  defensores,  os  mais  puros  e  ri¬ 
gorosos,  fazem  apelo  ao  casuismo,  recorrendo  a 
perversão  cínica  dos  dados  e  do  bom  senso. 

Eles,  que  sempre  colocaram  antes  de  tudo  a 
questão  de  saber  quais  são  os  verdadeiros  prin¬ 
cipias  a  defender,  desta  vez  não  o  fizeram. 

Ora,  como  eles  sabem  perfeitamente,  não  há 
um  único  caso  em  que  esses  verdadeiros  prin¬ 
cípios  coincidam  com  aquilo  que  a  maioria  con¬ 
sidera  propriamente  direitos.  No  contexto  de¬ 
mocrático,  luta-se,  é  certo,  pela  maioria,  ou  seja, 
peto  consenso  de  todos  os  cidadãos,  mas  acontece 
que  a  maioria,  na  sua  santidade,  nunca  tem 
razão,  porque  o  seu  conformismo  é  por  natureza 
brutalmente  repressivo. 

Por  que  considero  não -verdadeiros  os  prin¬ 
cípios  pelos  quais  os  *  radicais  e  progressistas  cm 
geral  baseiam,  por  conformismo,  a  sua  luta  pela 
legalização  do  aborto? 


Por  uma  série  caótica,  tulmutuosa  e  emotiva 
de  razões.  Eu  sei  contudo,  que  a  maioria  já  está 
toda,  desde  já,  a  favor  da  legalização.  O  aborto 
ftgal  é  de  fato  de  uma  enorme  comodidade  para  a 
maioria  das  pessoas.  Sobretudo  porque  torna  ain¬ 
da  mais  fácil  o  coito  —  a  cópula  heterossexual  — 
para  a  qual  não  haveriam  mais  obstáculos.  Mas 
esta  liberdade  de  cópula  para  o  casal  —  essa 
maravilhosa  permissividade  —  quem  é  que  ta¬ 
citamente  a  desejou,  tacitamente  a  promulgou  e 
tacitamente  a  fez  entrar  de  forma  irreversível,  nos 
nossos  hábitos?  A  sociedade  de  consumo,  o  novo 
fasdsmo.  Apoderou-se  das  exigências  de  liber¬ 
dade  liberais  e  progressistas,  e,  fazendo-as  suas, 
esvaziou -as  e  mudou  sua  natureza. 

Hoje  a  liberdade  sexual  da  maioria  é,  na 
realidade,  uma  convenção,  uma  obrigação,  um 
dever  social,  uma  característica  da  qualidade  de 
vida  a  que  o  consumidor  não  pode  renunciar.  Em 
suma,  a  falsa  liberalização  do  bem-estar  criou 
uma  situação  tanto  e  talvez  mais  absurda  que 
nos  templos  da  pobreza:  Vejamos. 

I  —  O  resultado  de  uma  liberdade  sexual 
oferecida  pelo  Poder  é  uma  verdadeira  neurose 
geral.  A  facilidade  criou  a  obsessão,  porque  se 
trata  de  uma  facilidade  imposta.  Protege  uni¬ 
camente  o  casal,  e  o  casal  acabou  assim  por  se 
tornar  uma  condição  imperativa,  em  lugar  de  um 
sinal  de  felicidade  e  liberdade,  segundo  as  es¬ 
peranças  democráticas. 

II  —  Pdo  contrário,  tudo  que  é  sexualmente 
diferente  é  repelido,  com  uma  violência  só  com¬ 
parável  à  dos  nazistas  nos  campos  de  concen¬ 
tração.  Em  palavras,  é  verdade,  o  novo  Poder  es¬ 
tende  sua  falsa  tolerância  até  as  minorias  (mais 
cedo  ou  mais  tarde  as  deixarão  entrar  na  TV).  De 
resto,  as  elites  são  muito  mais  tolerantes  do  que 
outrora  para  com  as  minorias  sexuais.  Em  com¬ 
pensação,  a  massa  tomou* sede  uma  «ítdertttiOB  tão 
rasteira,  violenta  e  infame,  como  jamais  acon¬ 
teceu  na  história  deste  país.  O  povo  parece  querer 
esquecer,  com  a  pobreza,  a  sua  autêntica  tolerân¬ 


cia.  São  essas  massas,  prontas  à  chantagem,  ao 
opancamaiio,  ao  linchamento,  que  —  por  decisão 
do  Poder  —  ultrapassam  o  antigo  tabu  clerical  — 
fascista  e  estão  dispostas  a  aceitar  a  legalização 
do  aborto  e  daí  a  abolição  de  qualquer  obstáculo 
às  relações  do  casal. 

Todos,  quando  falam  do  aborto,  abstêm-se  de 
falar  daquilo  que  o  precede,  ou  seja,  o  coito. 
Omissão  extremamente  significativa.  Não  se  pode 
falar  concreta  e  politicamente  do  aborto,  sem 
considerar  o  coito  político.  Não  é  possível  ver  no 
aborto  sinais  de  uma  determinada  situação  social 
e  política,  sem  v-r  os  mesmos  sinais  no  seu 
precedente  imediato  —  o  coito. 

O  contexto  em  que  deve  inserir -se  o  problema 
do  aborto  é  bem  mais  amplo  e  ultrapassa  a 
ideologia  dos  partidos.  O  contexto  em  que  o  abor¬ 
to  se  insere  é  precisamente  ecológico:  é  a  tragédia 
demográfica  que  se  apresenta  como  a  mais  grave 
ameaça  à  sobrevivência  da  humanidade.  Neste 
contexto,  a  figura  ética  e  legal  do  aborto  muda  de 
forma  e  natureza  e  em  certa  medida  pode  até  jus¬ 
tificar -se  uma  forma  de  legalização.  Qual  o  ver¬ 
dadeiro  quadro  que  deveria  inserir -se  essa  nova 
forma  do  crime  de  eutanásia? 

Ei-lo:  antigamente  o  casal  era  bendito,  hoje  é 
maldito.  O  motivo  de  todas  estas  coisas  horríveis 
que  estou  dizendo  é  claro:  amigamente  a  espécie 
tinha  de  lutar  para  sobreviver  e  por  isso  os  nas¬ 
cimentos  tinham  de  ser  mais  numerosos  do  que  as 
mortes.  Hoje,  pelo  contrário,  tem  de  fazer  com 
que  o  número  dos  que  nascem  não  ultrapassem  os 
óbitos,  se  quer  sobreviver.  Antigamente,  cada 
criança  que  nascia,  sendo  garantia  de  vida,  era 
bendita.  Hoje,  cada  uma  que  nasce,  contribuindo 
para  a  destruição  da  humanidade,  é  maldita. 
Chegamos  assim  ao  paradoxo  de  que  antes  o  que 
era  antinatural  é  hoje  considerado  natural ,  e  vice- 
versa.  Lembro-me  de  um  crhico  declarando  que 

as  relações  homossexuais  eram  inadmissíveis  por¬ 
que  erani  iqúteis  para  a  sobrevivência  da  raça; 


ora,  devia  dizer  na  verdade  o  contrário:  as  re¬ 
lações  heterossexuais  è  que  representam  um 
perigo  para  a  espécie. 


Conclusão:  antes  do  universo  do  parto  e  do 
aborto,  existe  o  universo  do  coito,  e  é  este  que 
condiciona  aqueles.  O  pior  é  que  nesses  últimos 
dez  anos  apareceu  a  sociedade  de  consumo,  novo 
Poder  falsamcme  tolerante.  Mas  esse  Poder  não 
está  interessado  num  casal  gerador  de  prole 
proletária,  mas  de  um  casal  consumidor  e  pe¬ 
queno  burguês  —dai  a  idéia  da  legalização.  Não 
me  parece  que  os  defensores  do  aborto  tenham 
posto  isso  em  discussão. 


A  minha  opinião,  extremamente  razoável,  é  a 
seguinte:  em  vez  de  lutar  contra  a  sociedade  do 
plano  do  aborto,  é  preciso  lutar  no  plano  de  sua 
causa,  ou  seja,  no  plano  do  coito.  Trata-se  de 
duas  lutas  a  longo  prazo,  mas  ao  menos  a  segun¬ 
da  tem  uma  potencialidade  infinitamente  maior 
de  implicações. 

Ê  preciso  lutar,  ames  de  mais  nada,  contra  a 
falsa  iGÉoãncia  com  a  indignação  que  merece.  E 
depois,  é  necessário  impor  à  facção  mais  rea¬ 
cionária  deste  pais  toda  uma  série  de  liberali¬ 
zações  autênticas  no  plano  do  coito.  Bastava  que 
tudo  isso  fosse  democraticamente  difundido  pela, 
imprensa  c  sobretudo  pela  TV,  para  que  o 
problema  do  aborto  se  tornasse  essencialmente 
irrelevante,  embora  permanecendo  um  crinje,  e 
portanto,  um  dever  de  consciência.  Será  isto 
utópico?  Será  loucura  esperar  que  uma  'Auto¬ 
ridade"  apareça  nas  telas  de  TV  a  fazer  publi¬ 
cidade  de  técnicas  amorosas  "diferentes’?  Muita 
gente  acusará  meu  artigo  de  ser  pessoal,  parti¬ 
cular  e  minoritário.  E  depois?  (Pler  Pado  Pi- 
sdinl ) 

» 

(Resumo  por  João  Carlos  Rodrigues  do  artigo 
publicado  no  Corrlere  delia  Sera  em  janeiro  de 

1975) 


A  palavra  das  mulheres 


O  aborto  esta  na  ordem  do  dia.  E  não  é  para 
menos,  com  as  ameaças  as  mais  variadas  e  disfar¬ 
çadas  do  Poder  de  assumir  como  programa  ofiãal 
o  controle  da  natalidade  e  o  planejamento  fa¬ 
miliar.  assuntos  tio  delicados  quanto  o  aberto. 
Por  isso  é  importante  que  as  mulheres  discutam  e 
apresentem  suas  idéias  em  todas  as  oport uni¬ 
dades  possíveis.  Com  a  finalidade  de  contribuir 
para  esse  debate  a  nível  nacional,  transcrevemos 
abaixo  trechos  de  uma  conferência  pronunciada 
recentemente  no  teatro  Casa  Grande.  Rio.  por 
Mary  (Jarda  Castro.  doColctiwde  Mulheres,  in¬ 
titulada  “Controle  da  Natalidade.  Legaliiaçãodo 
Aborto  c  Feminismo”: 

“O  femini:.mo  postula  o  direito  da  mulher  de 
decidir  sobre  o  processo  de  reprodução,  o  que  ev 


tara  tão  mais  de  acordo  com  os  desejos  de  seu 
companheiro  quanto  mais  livre  e  afetiva  for  a 
relação  entre  ambos.  O  feminismo  è  contra  o 
poder  das  instituições  do  Estado,  da  Igreja,  do 
saber  constituído,  isto  é,  da  medicina,  sobre  o 
m>sso  a»rpo.  nossa  sexualidade.  Reivindica,  friso, 
a  separação  entre  sexualidade  e  reprodução.  Sen¬ 
do  o  feminismo  um  movimento  que  visa  a  trans¬ 
formação  social,  ele  tem  uma  série  de  reivindi¬ 
cações  imediatas,  como  a  legalização  do  aborto, 
que  são  constituintes  do  movimento  e  que  não  se 
esgotam  ai 

“  Defende-se  o  direito  ao  aborto  dentro  de 
uma  linha  de  conscientização  e  pelo  exerdcio  de 
outros  direitos:  ao  prazer,  ao  questionamento  do 
papel  da  mulher  nas  sociedades  de  cunho  patriar* 
calista,  contra  o  caráter  classista  das  leis  e  dos 


poderes.  Sabemos  bem  que  com  a  legalização  do 
aborto  continuaremos,  por  outras  formas,  a  ser¬ 
mos  manipuladas  pelos  poderes.  Maior  será  esta 
manipulação  quanto  mais  baixo  for  o  nosso  nível 
de  conscientização  desta  dinâmica,  quanto  mais 
pressionadas  formos  por  condições  objetivas  de 
adversidade  e  pobreza. 

“  O  Coletivo  de  Mulheres  do  Rio  de  Janeiro  é  a 
favor  da  legalização  do  aborto,  mas  considera  a 
aprovação  de  uma  lei  num  ponto  de  um  processo 
de  luta.  Preocupa-nos.  neste  sentido,  a  cam¬ 
panha.  antes  e  depois  da  legalização  do  aborto,  a 
tomada  dc  consciência  pda  mulher  de  sua  opres¬ 
são.  a  sua  participação  nesse  processo.  Para  um 
projeto  novo  são  necessárias  novas  formas  dc  luta: 
pela  reflexão  coletiva  das  experiências  individuais 
gera-se  impulso  e  ação.  A  melhor  lei  sobre  dirdto 


.  à  concepção,  contracepção  e  aborto  será  aquela 
discutida,  exigida  e  votada  pelas  mulheres. 

*“  Para  terminar,  frisamos  que  nós.  mu  lho- es 
feministas,  somos  a  favor  da  lqgalizaçào  do  abor¬ 
to.  do  acesso  á  contracepção,  do  direito  de  termos 
os  filhos  que  desejarmos,  na  perspectiva  não  da 
realização  de  melas  polí  tico-  econômicas,  de 
defesa  de  determinados  interesses  de  grupos  no 
poder,  ou  de  um  bem-estar  de  uma  população  em 
abstrato,  mas  tendo  como  prindpio  que.  a  cada 
mulher  deve  ser  dado  o  direito  de  decidir  sobre 
sua  vida.  Contudo,  constata-se  que  a  luta  pelo 
exercício  desse  direito  exige  o  reconhecimento  das 
formas  que  assume  nossa  opressão  e  a  perspectiva 
de  que  é  no  dia-a-dia  que  &e  vai  gastando  o  fu¬ 
turo.  o  projeto  da  sociedade  nova  que  se  quer  " 


Conselho  Editorial  —  Adio  Acosta, 
Aguinaldo  Silva,  Antônio  Oirysóstomo, 
Clôvis  Marques.  Darcy  Penteado,  Francisco 
Bittencourt,  (iasparino  Damata.  Jran- 
Gaude  Bernadet,  Joio  Sllvérlo  Trevban  e 
Br  ler  Fry. 

Coordenador  de  Edição  —  Aguinaldo 
Silva 

Colaboradores  —  lella  MIccoUs,  Rubem 
Confete.  Antônio  Carlos  Moreira.  Joio 
Carlos  Rodrigues,  Luiz  Carlos  lacerda 
Agi  Ido  Guimarães,  Frederico  Jorge  Dantas. 
Alcrste  Pinheiro,  Paulo  Sérgio  Pestana,  José 
Fernando  Bastos,  Henrique  Neiva,  Mima 
Grzich,  Joio  Carneiro  e  Aristóteles  Ro¬ 
drigues  (Rio);  José  Hres  Barroso  Filho  e 
Carlos  Alberto  Miranda  (Niterói);  Mariza, 
Fdward  MacRae  (Campinas);  Glauco  Mal- 
toso,  Celso  Cúri,  Kdélclo  Mostaço,  Paulo 
Augusto,  Cynthia  Sarti,  Francisco  Fuku- 


shima  (Sio  Paulo);  Eduardo  Dantas  (Cam¬ 
po  Grande);  Amylton  de  Almeida  (Vitória); 
Zé  Al  bur  quer  que  (Recife);  Luiz  Mott  (Sal¬ 
vador);  Gilmar  de  Carvalho  (Fortaleza); 
Alexandre  Ribondi  (Braslla);  Políbio  Alves 
(Joio  Pessoa);  Franklin  Jorge  (Natal);  Paulo 
Hecker  Filho  (Porto  Alegre);  Wilson  Bueno 
(Curitiba);  Edvaldo  Ribeiro  de  Oliveira 
(Jacareí);. 

Correspondentes  —  Fran  Tornahene 
(San  Francisco);  Àllen  Young  (Nova  York); 
Armando  de  Fuhia  (Barcelona);  Ricardo  e 
Hector  (Madri);  Addy  (Londres);  Celestino 
I Parts);  Anton  Lelcht  e  Nestor  Perkal 
(Frankfurt). 

Fotos  -  Billy  AcloMy,  Dimitri  Ribeiro, 
Cyntia  Martins  (Rio);  Ok  CalIxeFanny, 
Dimas  Schltni  (Sio  Paulo)  e  Arquivo. 

Arte  —  Dimltrl  Ribeiro  (coordenador), 
Nelson  Souto  (Diagramaçio),  Mem  de  Sá 
(capa),  Patrício  Bisso,  Hildebrando  de  Cas¬ 
tro,  José  Carlos  Mendes,  Hartur  e  Lrvi. 


Arte  Final  —  Antônio  Carlos  Moreira 

Publicidade  —  César  Augusto  de  Al¬ 
meida  Campos 

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caçio  da  Faquina _ Editora  de  livros.  Jor¬ 

nais  e  Revistas  Ltda.;  CGC  (MF) 
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c'  BI  • 


LAMPlAO  da  Esquina 

wv  OaiS 


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associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


I  REPORTAGEM] 


Um  roteiro  turístico: 
os  buracos  do  Rio 


Mulheres  e  Bichas 
Gaúchas  Invadem  o 
Movimento  Estudantil 


Desde  o  Império,  o  Rio  de  Janeiro  sempre  foi 
considerado  como  um  dos  centros  da  badalaçâo 
homossexual  do  Brasil.  Talvez  pela  grande  quan¬ 
tidade  de  lugares  ao  ar  livre,  os  ditos  buracos,  on¬ 
de  as  bichas  mais  audaciosas  sempre  procuraram 
saciar  seus  desejos  carnais.  A  busca  do  prazer 
nunca  foi  relegada  a  segundo  plano,  mesmo  que 
isso  custasse  umas  boas  cacetadas  ou  uma  prisão 
por  vadiagem  —isto  se  alguns  contos  de  réis  nlo 
resolvessem  o  problema.  Fazer  pegaçâo  nas  terras 
de  Slo  Sebastião  do  Rio  de  Jáneiro  é  algo  mais 
velho  do  que  ser  chamado  de  viado. 

No  inldo  do  século,  a  Praça  da  Republica, 
mais  conhecida  como  Campo  de  Santana,  com¬ 
preendia  uma  área  trés  vezes  maior  do  que  a  atual 
demarcação,  incluindo  em  seus  jardins  o  Minis¬ 
tério  da  Guerra.  Os  extensos  jardins  ornados  de 
lagos  e  de  grutas  artificiais,  ladeados  de  bancos  e 
de  lampiões  a  querosene,  eram  frequentados  ao 
entardecer  por  galantes  e  nobres  senhores  e  por 
senhores  nem  tio  galantes,  e  muito  menos  no¬ 
bres,  que  tinham  em  mente  os  mesmos  propó¬ 
sitos:  esperar  a  salda  dos  recrutas  e.  quem  sabe. 
conquistar  um  ou  alguns  para  assim  esquecer 
seus  problemas  provincianos  e  ter  alguns  momen¬ 
tos  de  prazer. 

Tais  paragens  eram  intensamente  frequen¬ 
tadas  todos  os  dias,  ao  mesmo  entardecer.  Os 
senhores  que  moravam  com  suas  famílias  e  nio 
possuíam  lugares  para  levar  os  apetitosos  man¬ 
cebos,  dirigiam-se  a  um  famoso  beco  das  redon¬ 
dezas,  conhecido  pelo  nome  de  Rua  da  Pouca 
Vergonha,  atualmente  Rua  20  de  abril,  ou  a  nào 
menos  conhecida  gruta  do  lugar,  e  lá  realizavam 
seus  sonhas  eróticos.  Certo  dia  porém,  vendo  tan¬ 
ta  sacanagem,  um  certo  oficial  do  Ministério, 
encarregado  de  policiar  as  redondezas  do  Campo 
de  Santana,  resolveu  acabar  de  vez  com  tais  atos 
pecaminosos  e  ordenou  aos  soldados  de  serviço 
que  prendessem  iodos  os  pederastas  que  por  ven¬ 
tura  se  encontrassem  na  regifto.  Ao  final  de  uma 
semana,  para  espanto  deste  mesmo  oficial,  obser¬ 
vou  que  ninguém  havia  sido  preso,  e  pelo  con¬ 
trário,  continuavam  a  esperar  os  jovens  e  a  trepar 
com  eles  pelas  redondezas.  Indignado,  chamou  a 
equipe  de  serviço  e  indagou  o  porquê  de  nào  ter 
sido  feita  nenhuma  prisão.  Um  dos  soldados, 
muito  nervosamente,  responde  que  era  impossível 
prendê-los,  pois  no  que  ameaçavam  agarrá-los, 
des  saiam  correndo,  e  segundo  o  mesmo  soldado, 
corriam  mais  do  que  veados.  A  partir  daí  passou  a 
constar  da  ordem  do  dia  que  todos  os  veados  fos¬ 
sem  perseguidos  e  presos. 

Com  o  progresso,  a  cidade  foi  sendo  am¬ 
pliada.  novas  ruas  construídas  c  a  paisagem 
mudando  rapidamente.  O  que  resta  hoje  do 
saudoso  Campo  de  Santana  sáo  as  pegaçôes  Â 
tarde  feita  pelos  moleques  que  ainda  frequentam 
tais  paragens.  Em  compensação,  muitas  opções 
surgiram  em  seu  lugar,  desde  a  conhecidissima 
Via  Apia,  até  o  mais  recente  buraco  da  rua  da 
Quitanda. 

Situada  na  confluência  das  ruas  Santa  Luzia, 
Av.  Marechal  Câmara,  Av.  Gal.  Justo  entre  a 
Santa  Casa  da  Misericórdia,  a  Secretaria  da 
Receita  Federal,  o  Museu  Histórico  e  a  Agência 
Castelo  do  INAMPS,  situa-se  talvez  um  dos 
maiores  buracos  de  pegaçâo  que  o  Rio  de  Janeiro 
já  tes*.  a  Via  Apla.  Surgida  por  volta  dos  anos  50 
e  numa  área  estritamente  comercial  e  militar,  a 
Via  Apia  ou  Pfcópttfs,  para  os  mais  antigos,  tal 
como  Roma,  teve  seu  grande  auge  e  encontra-se 
atualmente  na  fase  de  total  decadência. 

No  período  das  vacas  gordas,  as  várias  regiões 
deste  complexo  buraco  encontravam-se  sempre 
superlotadas,  e  apesar  das  constantes  investidas 
da  Tia  Mlqulta  (patrulinha)  ou  da  Tia  Qeide 
(camburão)  muitas  orgias  aconteceram.  No  nâo 
menos  conhecido  Oirral  das  Éguas,  em  frente  a 
Aeronáutica,  coberto  antigamente  por  enormes 
cartazes  publicitários,  todos  trepavam  as  mil 
maravilhas.  Freqüentado  basicamente  por  bichas 
novas  e  com  grande  disposiçfio,  propiciava  festas 
que  só  terminavam  por  volta  das  seis  da  manhã. 
Para  os  que  c uniam  emoções  mais  fortes,  nada 
melhor  do  que  arriscar  uma  ida  até  o  Beco  do 
Chupa-Oiupa,  que  ficava  nas  colunas  do  prédio 
do  INAMPS.  Lá  a  frequência  era  de  bichas  nin- 
fomaniacas,  que  nâo  se  contentando  com  um  só 
parceiro,  faziam  rodinhas  e  pediam  bis.  Para  os 
mais  recatados  o  programa  era  dar  umas  volti¬ 
nhas  pelas  travessas  que  ligavam  o  largo  da 
Misericórdia  com  o  Museu  Histórico.  O  resultado 
normalmente  era  uma  saída  de  carro.  Mas  a 
grande  atração  era  uma  cena  calçada  em  frente 
á  Avenida  General  Justo,  onde  um  bando  de 


LAMPIÃO  da  Esquina 


bichas,  entre  15  e  18  anos,  faziam  seu  encontro 
diário  para  curtir  um  bom  papo  e  marcar  pro¬ 
gramas  para  o  fim  de  semana.  Era  um  bando 
frenético,  que  nos  períodos  negros  da  década  de 
70,  exorcizava  a  alienação  promovendo  desfiles  e 
brincadeiras,  tal  qual  a  molecada  de  rua.  Para 
eles,  ser  homossexual  nâo  passava  de  uma  festa,  e 
na  grande  maioria  das  vezes  dispensavam  altas 
transações  para  poderem  participar  das  festi¬ 
vidades  juvenis  e  curtir  uma  saudável  bichice. 
Nào  era  raro  um  ou  outro  soldado  de  plantio  ali 
perto  convidar  um  dos  garotos  para  dar  uma 
trepadinha. 

Tempos  bons  aqueles,  que  segundo  alguns 
jamais  voltarão.  Hoje  resta  da  Via  Apia,  ruas 
vazias  e  bastante  iluminadas  e  poucos  sáo  os  que 
se  arriscam  andar  por  estas  bandas,  pois  a  cres¬ 
cente  onda  de  assaltos  faz  qualquer  um  perder  o 
tesão. 

Considerado  como  uma  das  maiores  atrações 
turísticas  do  Rio  de  Janeiro,  o  Buraco  da  Mais» 
permanece  incólume  apesar  de  sua  longa  existên¬ 
cia.  Espremido  entre  enormes  edifícios  situado 
entre  as  Av.  Nilo  Peçanha,  Almirante  Barroso  e 
Rua  México,  de  dia  abriga  dezenas  de  carros  de 
grandes  executivos  e  ao  anoitecer  transforma-se, 
como  por  mágica,  num  recanto  de  amores  e 
prazeres. 

Seus  frequentadores,  em  busca  de  emoções 
mais  fones,  costumam  ffeqUentá-lo  durante  toda 
a  semana  e  quase  sempre  encontram  o  que 
procuram,  salvo  quando  sâo  presos  pela 
policia  que,  num  trabalho  de  anos  e  anos  a  fio, 
oerca  as  trés  saídas  do  recanto,  distribui  porradas 
a  trés  por  quatro  e  fatura  alto. 

Muitas  histórias  rondam  os  vários  cantos  es¬ 
curos  do  Buraco  da  Maba.  Nâo  se  sabe  ao  certo 
qual  a  origem  do  seu  nome,  mas  tudo  leva  a  crer 
que  haja  uma  profunda  ligação  com  o  sentimento 
de  fossa,  que  Malsa  muito  bem  transmitia  em 
suas  canções.  Nâo  é  á  toa  que  as  pessoas  clas¬ 
sificam  as  pegaçôes  do  Buraco  da  Maba  de  "fins 
de  noite",  quando  nâo  há  mais  nada  a  perder 
depds  de  uma  noite  de  freqüentes  insucessos. 

O  espirito  feliniano  sempre  presente  é  refor¬ 
çado  nos  quatro  dias  de  carnaval,  quando  uma 
multidão  fantasiada  e  muito  louca,  invade  as 
terras  do  prazer  e  compactua  com  as  mais  exó¬ 
ticas  orgias  carnavalescas.  Outrora,  ainda  era 
possível  buscar  esta  mesma  forma  de  prazer  nas 
•aragens  do  Buraco  do  Cauby,  situado  entre  a  Av. 
Nilo  Peçanha  e  a  Erasmo  Braga.  Mas  por  motivos 
alheios  aos  seus  frequentadores,  o  buraco  foi 
fechado  com  enormes  grades,  restando  aos  mes¬ 
mos  as  pilastras  situadas  à  sua  entrada. 

Como  na  natureza,  os  buracos  do  Rio  também 
usam  c  abusam  da  lei  da  compensação.  Apesar  da 
decadência  da  Via  Apia  e  da  extinção  do  Buraco 
do  Cauby,  surge  um  novo  espaço:  O  Buraco  da 
Rua  da  Quitanda.  Compreendendo  as  Ruas  da 
Quitanda,  Carmo,  Ouvidor,  Rosário,  Buenos 
Aires,  Alfândega,  Candelária  eTrav.  do  Ouvidor, 
no  quadrante  entre  Sete  de  Setembro,  Pres.  Var¬ 
gas,  Rio  Branco  e  l.°  de  Março,  este  novo  buraco 
pode  ser  considerado  como  sendo  o  segundo 
grande  lugar  de  pegaçâo  do  Rio  de  Janeiro,  após  a 
Via  Apia.  Surgido  há  aproximadamente  três  anos, 
sua  frequência  após  as  22h  é  a  das  mais  intensas 
possíveis .  Possuindo  uma  variedade  de  espaços  e 
de  tipos  físicos,  segundo  estimativas,  deverá  se 
transformar  num  dos  maiores  pólos  de  pegaçâo 
de  rua  de  nossa  tena. 

Devido  sua  extensão  e  as  várias  saídas,  correr 
da  policia  se  torna  mais  fácil.  Ainda  não  se  notou 
nenhuma  grande  operação  por  aquelas  bandas, 
mas  é  bom  ficar  á  espreita,  pois  como  dizem  al- 
)guns:  "a  justa  tarda  mais  nâo  falta".  Nâo  é  raro 
ver -se  marinheiros  vigilantes,  jornaleiros  (que  se 
Teúnem  ao  lado  da  Igreja  da  Candelária),  pes¬ 
cadores,  porteiros  e  faxineiros  noturnos  fazendo 
uma  e  outra  pegaçãozinha.  Tal  um  bom  pro¬ 
grama  para  quem  curte  o  proletariado. 

Não  se  tem  notícias  de  assaltos  e  curras  pelas 
bandas  da  Rua  da  Quitanda,  mas  não  se  deve 
arriscar  muito,  pois  quando  menos  se  espera  al¬ 
guma  coisa  pode  acontecer. 

Não  é  á  toa  que  a  cidade  do  Rio  de  Janeiro  é 
chamada  de  Cidade  Maravilhosa !!!  Nâo  fosse  a 
bichice  do  Santo  padroeiro  e  o  grande  contingente 
homossexual,  poder  ia-se  dizer  que  o  slogan  ao 
ser  criado  nâo  passava  de  um  mero  apelo  pu¬ 
blicitário.  (António  Carlos  Moreira) 


O  que  os  estudantes  da  Universidade  Federal 
do  Rio  Grande  do  Sul  queriam  era  muito  pouco:  a 
livre  entrada  feminina  na  CEU  (Casa  do  Estu¬ 
dante  Universitário)  de  Porto  Alegre.  Esse  sim¬ 
ples  desejo  (que  se  realizou  finalmente  no  dia  2$ 
de  abril,  com  uma  festa  de  confraternização e  um 
debate  sobre  vários  temas  dizendo  respeito  di¬ 
retamente  aos  moradores  da  casa)  despertou  no 
entanto  a  ira  e  a  truculência  do  reitor  Homero  Sá 
Jobim,  homem  acostumado  aos  velhos  tempos  do 
autoritarismo.  O  reitor  nâo  só  ameaçou  os  es¬ 
tudantes  com  a  polícia  militar  e  seus  cães,  como 
também  com  intervenção  de  tropas  federais,  ex¬ 
pulsão  de  líderes  do  movimento  (que  não  tinha 
líderes:  todas  as  decisões  eram  tomadas  por  con¬ 
senso  e  a  luta  foi  travada  por  quase  todos  os 
moradores)  e,  no  melhor  estilo  caudilhesco,  o 
professor  Jobim  chegou  a  dizer  que  se  os  estudan¬ 
tes  queriam  fornicar  com  suas  colegas  que  fossem 
para  a  praça  em  frente. 

Tudo  começou  quando  uma  turma  de  moças 
universitárias  (transformado  a  seguir  em  Grupo 
de  Mulheres  Estudantes)  resolveu  saber  por  que 
estavam  impedidas  de  passar  da  cantina  da  CEU 
para  os  andares  superiores.  Os  rapazes  lhes  ex¬ 
plicaram  que  um  regulamento,  de  1971,  vetava  a 
entrada  feminina  na  casa,  inclusive  de  mães  ou 
irmãs.  As  únicas  mulheres  com  acesso  eram  as 
faxineiras  e  uma  assistente  social,  assim  mesmo 
observadas  de  perto  pelos  guardas.  Conta  Rua, 
um  estudante  de  Geologia: 

—  Nós  nâo  podemos  sequer  sentar  nas  camas 
durante  o  dia,  para  nâo  desarrumá-las.  Nossas 
assembléias  nunca  tinham  mais  de  oito  mora¬ 
dores.  O  clima  era  de  tensão.  Todo  o  regulamento 
visa  a  reprimir  ao  máximo,  principalmente  no 
terreno  sexual.  O  que  estava  acontecendo  ali  era 
uma  verdadeira  deformação  social . 

Dunga,  estudante  de  teatro,  interfere: 

—  A  rapaziada  vivendo  na  CEU  desaprende  a 
conviver  com  mulher.  Eu  sou  um  dos  moradores 
mais  antigos,  mas  sempre  me  defendi  como  pude. 
Transo  quase  todo  o  tempo  fora  da  casa,  tenho 
muitas  amigas,  e  lá  dentro  impus  minha  condição 
de  homossexual  e  ninguém  se  mete  comigo.  Ao 
contrário,  eles  querem  até  me  protejer,  coisa  que 
eu  dispenso,  né? 

—  O  Dunga  é  o  único  certo  aqui  —  diz  Dinah , 
estudante  de  Matemática. 

Esta  conversa  se  passou  no  dia  26  de  abril,  an¬ 
tes  portanto  da  tomada  da  casa,  na  Livraria  Com¬ 
bate,  no  centro  de  Porto  Alegre.  A  cantina 
da  CEU,  ponto  de  reunião  de  estudantes  de  todas 
as  faculdades,  transformou-se  de  repente  num 
centro  de  ativismo  feminista  quando  as  moças  se 
deram  conta  de  que  estavam  não  só  vivendo  como 
colaborando  para  a  manutenção  de  um  regime  al¬ 
tamente  repressor  e  machista.  Muitas  delas  sâo 
namoradas  dos  rapazes  da  casa  e,  através  de  um 
trabalho  lento  e  persuasivo,  acabaram  por  trazer 
para  a  sua  causa  o  conjunto  dos  moradores. 

—  Quando  começamos  a  fazer  as  nossas  as¬ 
sembléias  conjuntas  para  tratar  da  invasão  da 
casa  pelas  mulheres,  os  homens  ficaram  ansiosos 
e  inseguros,  conta  Dinah.  Eles  pensavam  que  nâo 
sabiam  tratar  direito  as  mulheres.  Faltava-lhes 
naturalmente  uma  estrutura  de  relacionamento 
feminino  e  achavam  que  nós  nos  sentiríamos  in¬ 
sultadas  se  nâo  fôssemos  tratadas  como  senho¬ 
ritas. 

O  grupo  de  bichas  que  mora  na  casa  foi  o  que 
mais  se  entusiasmou  com  a  revolução  que  estava 
se  armando.  Dunga  liderou  seu  grupo  como  pon¬ 


ta  de  lança  do  movimento,  ora  ajudando  as 
mulheres,  ora  ensinando  os  homens  a  não  perder 
as  estribeiras  diante  da  invasão.  Isso  levou  alguns 
heteros  impedem  idos  a  se  perguntarem  qual  era  o 
proveito  que  as  bichas  iram  tirar  dessa  invasão. 
Dunga  é  sem  dúvida  a  figura  mais  popular  da 
casa  e  enquanto  as  feministas  o  aceitam  com  a 
maior  naturalidade,  os  rapazes  têm  as  mais 
variadas  reações. 

—  Os  reacionários  isolam  os  homossexuais  e 
nâo  querem  a  presença  de  mulher  na  CEU  —ex¬ 
plica  Rua,  que  é  namorado  de  Dinah  (é  uma 
graça).  —  Sâo  eles  que  ficaram  mais  perplexos 
com  a  atitude  entusiasmada  das  bichas  com  a 
nova  situação. 


—  As  pessoas  se  preocupam  muito  mais 
comigo  do  que  eu  mesmo  —  afirma  Dunga.  Nos 
murais  da  casa  estão  sempre  falando  em  mim.  Eu 
sou  homossexual  por  todos  os  outros.  Todas  as 
notas  falam  em  mira.  Quando  estflo  sem  inspi¬ 
ração  ou  não  têm  o  que  dizer,  lá  venho  eu:  **E  o 
Dunga  vai  bem,  obrigado". 

Quando  Dunga  resolveu  aparecer  na  CEU 
com  um  casinho  a  tira-colo,  abateu-se  sobre  de 
uma  verdadeira  tempestade  de  ciúme.  "Esse 
ciúme  chegou  a  níveis  insuportáveis,  como  se  eu 
fosse  propriedade  deles.**  Ainda  no  que  toca  ás 
bichas,  quando  começou  a  campanha  feminista 
pela  invasão  da  casa,  uma  das  primeiras  palavras 
Je  ordem  surgida  no  mural  foi  "Abertura  para  os 
homossexuais."  Quer  dizer,  já  eram  todos  os 
pequenos  grupos  e  as  mais  variadas  tendências 
que  começavam  a  falar. 

Dinah  conta  que  um  dos  trabalhos  realizado 
pelo  grupo  misto  que  lutou  pela  "feminizaçâo"  da 
Casa  do  Estudante  foi  uma  estatística  sobre 
sexualidade  entre  os  moradores.  Resultado:  90 
por  cento  deles  já  tinham  praticado  o  homose- 
xualismo.  Infelizmente  a  estatística  não  entrou 
em  maiores  detalhes  para  saber  onde,  como  c 
quando.  Com  o  correr  da  campanha,  conta 
Dinah,  a  sexualidade  foi  assumindo  um  papel 
cada  vez  mais  importante.  Numa  das  últimas  as¬ 
sembléias  os  participantes  chegâram  à  conclusão 
unânime  de  que  'Ioda  a  relação  que  se  aprofunda 
acaba  sempre  na  cama.”  Com  isso  já  se  pode  ver 
que  os  rapazes  estavam  bem  menos  tímidos. 

—  Mas  tímidos  eles  «une a  foram,  apenas 
enrustidos  —  diz  o  venenoso  Dunga.  —  Nos 
bailes  masculinos  que  nós  fazemos  dentro  da  casa 
tem  sempre  tama  gente  que  temos  de  sair  dos 
quartos  para  o  corredor.  E  a  coisa  foi  felizmente 
tão  longe  que  a  nossa  comunidade  passou  a  dan¬ 
çar  entre  si  também  fora  da  casa,  onde  há  mu¬ 
lheres. 

—  Ê,  eles  dançam  bastante  com  a  gente,  in¬ 
tervém  Dinah,  mas  acabam  sempre  entre  eles. 
Tem  de  tudo,  até  beijo  na  boca. 

Foi  por  isso  que.  após  a  invasão,  pacifica, 
diga-se  de  passagem,  os  temas  debatidos  pela 
primeira  assembléia  mista  da  Casa  do  Estudante 
Universitário  da  UFRGS  foram:  1)  homose- 
xualismo,  2)  prostituição,  3)  questão  da  família  c 
4)  questão  da  mulher. 

Depois  dos  debates,  com  muito  chimarrâo  e 
caipirinha,  chegou-se  ao  ponto  crucial  de  toda 
aquela  luta,  ou  seja,  os  quartos  dos  moradores, 
como  observou  muito  bem  o  jornal  "Zero  Hora". 
Eles  foram  abertos  e  as  visitantes  entraram. 
(Francisco  Bittencourt) 

Página  3 


★★ 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


★ 

★ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


PORTO  ALE6RE 


IVIOLENCIAt 


* 


A  morte  de  “Luisa  Felpuda 


99 


surpreender,  se  esle  garotáo  for  absolvido? 


“Espero  que  alguém  faça  uma 
matéria  sobre  o  brutal  crime  de  que  foi 
vítima  “Luisa  Felpuda”,  pessoa 
querida  nesta  cidade.  Os  jornais  en¬ 
cheram  manchetes  com  o  “assasinato 
dos  irmãos  homossexuais”,  sabendo-se 
que  o  irmão  de  Luís  era  um  excepcional 
de  vida  semivegetativa  que  só  sabia 
obedecer  ordem ,  como  um  robô. 

Volto  a  frisar  que  urge  uma  matéria 
sobre  o  assassinato  da  “Luisa  Felpu¬ 
da”,  pois  a  imprensa  daqui  está  fazen¬ 
do  um  escândalo  e  envolvendo  todos  os 
que  puderem,  já  citou  nomes  de  ho¬ 
mossexuais  importantes.  Um  detalhe: 
não  se  trata  da  velha  história  que  só 
depois  de  morrer  o  sujeito  era  bom.  A 
“Luisa  Felpuda”,  realmente,  era  uma 
boa  pessoa  e  uma  prova  é  que  tratava 
do  seu  irmão  com  extremo  carinho,  dis¬ 
pensando-lhe  atenção,  brincando  com 
ele,  enquanto  tantas  outras  pessoas,  — 
às  vezes  pais  — ,  o  internariam  numa 
clínica  e  ponto  final.  IVfárdo  André 
Peierson”  —  Porto  Alegre  (07.05.80). 


Um  mlché,  ex -soldado  do  Exército,  chamado 
Jairo  Teixeira  Rodrigues,  de  19  anos,  teria  assas¬ 
sinado  na  madrugada  de  30  de  abril,  em  Porto 
Alegre,  o  homossexual  Lu  is  Luz  ardo  Corrêa,  de 
58  anos,  e  seu  irmfto  Luidoro  Luzardo  Corrêa,  de 
60  anos.  Com  uma  rapidez  pouco  habitual  em 
sememelhantes  casos,  a  policia  (2.*  DP)  gaúcha 
demorou  apenas  ce^ca  de  48  horas,  para  des¬ 
cobrir  e  prender  o  presumível  assassino.  Por  coin¬ 
cidência... as  vitimas  eram  sobrinhos  do  Em¬ 
baixador  Batista  Luzardo. 

Em  confissão,  Jairo  declarou  sua  intenção  de 
roubar;  apanhando  em  flagrante,  matara  os  dois 
irmãos  com  requintes  de  sadismo,  castrara  o  Luís 
e  tentara  incendiar  a  casa. 

PROFISSIONAL  DO  SEXO 

Jairo,  mlché  de  profissão  e  biscateiro,  fre¬ 
quentava  a  casa  de  Luls,  para  transar  com  clien¬ 
tes  homossexuais,  aos  quais  cobrava  alto. 

Quando,  na  noite  de  29  para  30  de  abril, 
chegou  para  trabalhar,  teria  levado  uma  cantada 
de  Luis.  Aceitando,  fez  seu  preço e  transaram. 

Mais  tarde,  aproveitando  uma  ida  de  Luls  ao 
banheiro,  Jairo  teria  começado  o  saque:  anel, 
relógio,  dinheiro.  Foi  flagrado.  Abateu  os  dois  ir¬ 
mãos  com  golpes  de  uma  enxada,  castrou  o 
quase -cl  tente,  fez  a  casa  pegar  fogo,  frigiu. 

LOCAL  DO  CRI  ME 


O  velho  casarão  fica  no  número  525  da  Rua 
Barros  Cassai,  em  Independência,  Porto  Alegre. 
Laba  Felpuda,  nome  artístico  do  Luis,  vivia  com 
seu  irmão,  e  cinco  cachorros  de  guarda.  Era  im¬ 
possível  entrar  sem  ser  notado 

A  casa  funcionva  como  rendez-vous  de  bichas, 
que  pagavam  oitenta  cruzeiros  por  quarto,  para 
uma  trepada  mais  segura  e  discreta.  Entre  os 
frequentadores  habituais,  estavam  conhecidos 
nomes  de  empresários  gaúchos,  políticos  locais, 
turistas  do  Prata.  Muita  gente  colunàvel  e  “res- 
peitável”,  que  tremeu  com  o  crime  e  terá  pres¬ 
sionado  para  a  imediata  descoberta  e  prisão  do 
presumível  assassino. 


Lu»  Luzardo  Corrêa,  a  “Luisa  Felpuda 

Segundo  alguns,  Luis,  que  era  fiel  aposentado 
do  Porto  de  Porto  Alegre,  repartia  a  casa  para 
completar  sua  reduzida  renda;  segundo  outros, 
era  rico,  tinha  vários  apartamentos,  emprestava 
dinheiro. 

Poucos  viados  famosos  nunca  terão  ido  à 
Mansão  da  Tia  Velha,  por  cuja  porta,  noutros 
tempos,  passava  o  bonde  da  Carris.  De  qualquer 
modo,  curiosamente,  sumiu  a  famosa  agenda  de 
trabalho  do  angariador:  muitos  são  os  enrustidos 
que  podem  dormir  mais  tranquilos. 

TELEFONEMA  ANÓNIMO 

Durante  as  investigações  policiais,  foi  rece¬ 
bido  um  telefonema  anônimo,  afirmando  que  o 
anel  roubado  era  falso:  o  verdadeiro,  de  brilhan¬ 
tes,  estaria  penhorado  na  Caixa  Econômica 
Federal.  Parece  claro  que  outras  pessoas  estão 
metidas  neste  rebu. 

AFINAL,  A  HERANÇA 


Apenas  alguns  dias  depois  do  crime,  apareceu 
um  tal  senhor  Manuel  Bento  Luzardo,  de  52 
anos,  tio  da  ‘Telpuda",  reclamando  a  fortuna 
deixada  pelo  sobrinho.  Justificando  seu  tardio 
aparecimento,  afirmou  que  todos  condenavam  o 
comportamento  da  bicha  e  por  Isso  não  ligaram 
para  a  noticia  de  seu  assassínio. 


SUSPEITOS  E  TRAVESTIS 


o  fruto  de  seu  roubo  (um  and  de  fantasia,  um 

relogio  e  cerca  de  dois  mil  cruzeiros  em  dinheiro). 

\ 

UMA  VELHA  ESTÓRIA 

Acompanhado  de  seu  ad>ogado.  Nei  Soares 
de  Oliveira,  o  criminoso  confesso  passou  a  se 
comportar  fnamente.  sem  emoçào.  desapaixo- 
nadamente.  Profissionalmente??? 

Para  Nei.  a  morte  foi  bomlddlo  e  não  la- 
trodnkx  não  houve  agiotagem,  nem  uso  de  faca, 
nem  empalamenfo.  Apenas  la  Iro  matou  em  um 
momento  de  forte  emoção.  Ele  nem  mesmo  testa 
negar  o  crime.  E  um  rapaz  calmo,  dòcfl,  delicado. 
Temos  de  redis  t  riba  ir  a  culpa  com  a  sociedade  O 
doutor  vai  defender  a  tese  de  pressões  familiares  e 
desequilíbrio  mental,  em  juri  popular. 

Jairo,  que  se  diz  vitima  do  ambiente  familiar, 
afirma  que  até  tentou  o  suiòdio.  após  seu  preten¬ 
so  crime.  Teria  conhecido  "Luisa  Fdpuda" 
durante  o  serviço  militar,  na  Praça  da  Alfândega 
e  no  cinema  Imperial.  Depois  disso  passara  a 
trabalhar  no  rcudez-vom.  como  prostituto, 
cobrando  de  duzentos  a  quinhentos  cruzeiros  por 
trepada. 

Imediataraente  antes  do  crime,  transando 
oom  o  patrão,  Jairo  teria  se  mostrado  impotente, 
causando  com  isso  a  briga  que  levaria  ao  duplo 
assassinato. 

Disciplinadamente,  o  jovem  nidie  só  fala 
após  consultar  seu  advogado.  Tudo  muito  oer- 
tinho.  muito  amimadinho.  Muito  preparadt- 

nho??? 

VERDADEIRO  MACHO 


"SÔ  ENFERMEIRO" 

Assustado  oom  o  boato  de  que  o  assassino 
seria  um  travesti.  Joel  Borges  da  Silva,  enfermeiro 
e  travesti  que  usa  o  nome  de  Jnelma.  apresentou- 
se  dia  2  na  Delegacia  de  Homicídios,  acompa¬ 
nhado  de  seu  advogado.  Cláudio  Brito.  Disse 
nada  ter  a  ver  oom  o  duplo  assassinato,  e  que.  no 
dia  do  crime,  deixara  o  bordel  às  sete  e  mda  da 
noite,  como  sempre  fazia,  após  seu  trabalho 
diário  como  enfermeiro  de  Luidoro.  que  sofro>a 
derrame  e  enfarte  e  de  quem  cuidava  desde  1976. 

O  jornal  "Folha  da  Tarde"  porém,  logo  in¬ 
formava  que  Joelma  administrava  os  bens  de 
"Luisa  Felpuda"  (cujo  dinheiro  seria  guardado 
em  casa)  e  gerenciava  o  rende- vou z 

Simultaneamente,  a  policia  desmentia  ter 
havido  castração  ou  empalamento,  no  crime,  en¬ 
quanto  o  Instituo  Médico  Legal  anunciava  que  am¬ 
bas  as  mortes  foram  devidas  a  hemorragia  ce¬ 
rebral  consecutiva  a  múltiplas  fraturas  dos  ossos 
do  crânio. 

DINHEIRO  E  APÓLICES 

Dia  7  de  maio.  o  jornal  "Zero  Hora"  publi¬ 
cava  várias  denúncias  de  Jodma:  que  o  anel 
devolvido  não  era  o  que  Luis  usava  no  dia  do 
crime:  que  o  morto  tinha  mais  de  dois  milhões  de 
cruzeiros  em  apólices  de  seguro  de  vida.  salvas  do 
fogo;  que  a  "Felpuda"  emprestava  dinheiro  a 
juros  a  base  de  dez  por  cento.  Simultaneamente, 
o  delegado  Valnei.  encarregado  do  inquérito, 
deixava  transparecer  que  não  acreditava  que  só 
tivesse  um  matador,  nem  que  Luidoro.  doente, 
ftv esse  reagido,  como  afirma  Jairo. 

Valnei.  que  negou  o  propalado  uso  de  uma 
enxada  como  arma  do  crime,  não  escondeu  estar 
pensando  em  solicitar  a  prisão  preventiva  do 
niichê.  ainda  em  Uberdade. 

TERCEIROS 

Segundo  Joelma,  nenhum  cliente  estaria  na 
Casa  de  Luís.  no  começo  da  noite  do  crime.  De 
acordo  com  a  versão  do  presumível  assassino, 
porém,  lá  estavam  três  homens,  um  dos  quais 
seria  uma  bicha  conhecida  por  Júlio.  A  acreditar 
em  Joelma,  Jairo  e  Júlio  seriam  bons  amigos,  sen¬ 
do  que  este  último  tinha  o  hábito  de  dar  dinheiro 
ao  bofe. 

O  travesti-enfermeiro  já  revelou  alguns  fre¬ 
quentadores  famosos  do  bordel;  entre  outros, 
segundo  a  "Zero  Hora",  estariam  um  ator  c  um 
carnavalesco. 

O  PAPO  DE  SEMPRE 

Dia  8  de  maio,  ao  mesmo  tempo  que  a  policia 
tornava  público  que  o  relógio  não  tinha  sido 
apenas  roubado,  mas  violentamente  arrancado  do 
pulso  de  Luls,  o  doutor  Nei  gritava:  Jairo  é  mi 
das  vitimas  da  sida  depravada  de  ‘Usa  Fel¬ 
puda'',  que  mantinha  um  bordel  de  vido,  e 
corrupção,  arruinando  a  vida  texual  de  centenas 
de  jovens,  levando-os  à  depravação.  Estava  final- 
mente  montado  o  cenário  habitual:  o  culpado  do 
crime  teria  sido  o  morto.  Uma  tentativa  de  re¬ 
petição  do  escandaloso  julgamento  que  absolveu 
Doca  Street?  Tudo  leva  a  crer  que  sim. 

VERGONHA  OU  HIPOCRISIA? 

Só  na  tarde  do  dia  7,  acompanhado  de  um  ad¬ 
vogado,  apareceu  na  DH  um  parente  dos  assas¬ 
sinados,  Manuel  Bento  Luzardo,  para  receber  os 
pertences  dos  mortos.  Recusou  falar  à  imprensa  e 
disse  ser  representante  de  todos  os  parentes,  fun¬ 
ção  atribuída  por  conselho  de  família. 


GENTE  FINA... 

"Luisa  Felpuda"  fornecia  o  mlché.  quando 
necessário,  e  alugava  os  quartos  aos  viados 
gaúchos.  Para  os  mais  afortunados,  mediante 
uma  grana  mais  alta,  havia  quarto  com  geladeira, 
música,  refrigeração  e  lençóis  coloridos.  E  bebida 
à  vontade,  por  conta  da  casa,  enquanto  se  es¬ 
perava  vaga . 

Todos  os  hóspedes  eram  recebidos  pessoal- 
mente  pelo  proprietário,  a  quem  a  bicharada 
dedicava  um  carinho  especial  e  chamava  de  Ha 

Vdha.  _ 

Página  4 


Fernando  Lacerda  Noronha,  vizinho  dos  ir¬ 
mãos,  teria  sido  a  primeira  pessoa  a  se  aperceber 
do  fogo,  que  tentou  apagar  com  um  extintor  que 
transportava;  auxiliando-o  nesse  tarefa,  um  rapaz 
não  identi  ficado:  Jairo??? 

Mas.  no  dia  seguinte  ao  crime,  a  policia  afir¬ 
mava  que  o  principal  suspeito  era  um  travesti.  No 
día2  de  maio.  porem,  a  Delegacia  deHomiddios 
informava  que  apontava  para  Antônio  Carlos 
Vorlar.  vizinho  das  vitimas,  que  chegara  a  ser 
detido. 

Na  manhã  do  dia  2  de  maio.  Jairo  se  apresen¬ 
tava  na  2?  DP.  confessando  o  crime  e  devolvendo 


Jairo  enfatiza,  em  todas  as  suas  declarações, 
que  e  homem  e  macho.  Que  o  ambiente  de  tra¬ 
balho  era  bom.  na  Mansão  da  TU  Vdha.  Que 
sempre  sentia  nojo.  quando  trysavu  com  viados. 
Que  nunca  deu  e  sempre  comeu.  Por  outras 
palavras,  está  muito  preocupado  em  provar  que 
não  é  bicha.  Um  papo  furado  que  só  poderá  en¬ 
ganar  os  que  não  conhecem  o  mundo  dos  putos. 

Dai  a  acusar  os  outros  homossexuais,  de 
serem  responsáveis  pôr  tudo  de  mau  que  lhe 
aconteceu  na  vida.  todos  sabemos  por  experièn- 
cia,  vai  um  passo  bem  pequeno.  Alguém  vai  se 

i»  .1*»  .  v.  vs  ^ .*vi  doh * •  vi  xdxjjfr* •  yi.t> 


O  tio  envergonhado  não  deixou  de  acusar 

Luls :  Eu  quase  nunca  o  via,  nem  o  vfeltava,  pouco 
posso  falar  sobre  ele.  Mas  adianto,  que  não 
aprovava  seu  modo  de  vida... 

Além  de  Manuel  Bento  e  do  Embaixador 
Batista  Luzardo,  foram  divulgados  os  nomes  dos 
outros  parentes  ausentes  por  vergonha:  Mário 
Luzardo,  Zélia  Luzardo  Masia,  Hermes  Bento 
Luzardo,  Brigido  c  Aristóteles  Luzardo,  e  João 
Batista  Luzardo. 


LAMPIÃO  da  Esquina 

,  ... 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  divcrsidadr 


★ 

★ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


A  QUESTÀO  DOS  TÓXICOS 

O  defensor  de  Jairo,  doutor  Nei,  acabou 
desencadeando  uma  campanha  difamatória, 
anunciando  que  o  consumo  de  tóxicos  era  ha¬ 
bitual  no  bordel.  Porém,  anteriormente,  o 
próprio  assassino  presumível  declarara  que  ja¬ 
mais  se  drogara  e  que  isso  não  acontecia  nunca  no 
rendez-vous;  reforçando  e  confirmando  decla¬ 
rações  de  Jodma,  o  miché  informara  que  o  Lub 
não  bebia,  nâo  fumava  e  nio  se  dopava. 

Aliás,  essa  é  uma  constante,  entre  quanto  se 
diz  e  escuta  no  meio  homossexual  de  Porto 
Alegre:  nfto  havia  drogas  na  casa  da  ‘Telpuda”. 


CAÇA  AOS  HOMOSSEXUAIS 

Misturando  tudo,  o  doutor  Nei  passou  a 
pregar,  de  fato,  uma  caça  ás  bichas,  cujos  resul¬ 
tados  nio  devem  se  fazer  esperar.  Vejamos  um 
pouco  da  prosa  arrasoada  do  ilustre  advogado:  A 

vida  p regre»*  da  vitima  tinha  etapa*  que  vio 
desde  a  Iniciaçfto  de  menores  no  homossexualis¬ 
mo  até  as  festas  de  embalo  onde  os  tóxicos  eram 
uma  constante. 

Num  caso  desta  natureza,  será  preciso  saber 
quem  era  a  vitima  e  quem  é  o  autor.  De  um  lado, 
a  vitima  se  constituía  uma  sacerdoüza  que  ini¬ 
ciava  seus  servidores  na  prática  de  aberrações 
sexuais.  E  nio  se  pense  que  o  homossexual  é  nm 
demento  delicado  e  avesso  á  violênds.  Ele  pode 
aparentar  dodlidade,  mas  é  violento.  Basta  dtar 
a  quantidade  ftacrtvel  de  ocorrências  envolvendo 
travestis,  que  se  munem  de  facas,  giletes,  na¬ 
valhas  e  séo  violentos  até  na  hora  da  prisão.  O  seu 
Lais  Luz  ardo  Corrêa,  a  ‘Lulsa  Fdpuda”,  é  de 
dominlo  púbico  que  mantinha  uma  casa  que  era 
considerada  um  templo  sagrado,  onde  a  de¬ 
pravação,  a  corrupção  e  as  aberrações  sexuais 
eram  permaneate  tônica  doa  relacionamentos. 
“Lulsa  Felpuda”,  na  sua  vida  depravada,  deve  ter 
arruinado  a  vida  sexual  de  centenas  de  jovens, 
menores,  cujs  formação  não  era  férrea.  Portanto, 
qoem  semeia  vento,  colhe  tempestade:  aquele 
que,  ao  longo  de  vários  anos,  espargia  violências, 
corrupção,  angústia,  depravação,  teve  um  fim 
trágico  mas  nio  surpreendente. 

feiro  é  uma  das  multas  vitimas  de  'liilsi  Fel¬ 
puda”,  pelos  danos  morais  causados  peio  sado- 
masoquista  á  sociedade  atual. 

Quis  o  destino  que  a  purificação  da  sociedade 
se  fizesse  através  de  um  menor,  religioso  e  exmcer- 
badnmente  responsável,  poés  sua  conduta  se  jus¬ 
tifica  quando  'Loba  Felpuda”,  após  o  uso  de 
tóxicos,  tentou  inverter  o  relacionamento  sexual. 
Se  Jairo  aceitasse,  mediante  pagamento,  seria 
mais  um  praadtuido  pelo  desespero  que  esta 
sociedade  Injusta  oferece  a  uma  geração.  Se  for¬ 
mos  buscar  as  causas  remotas  da  morte  de  “Luiza 
Felpuda”,  há  de  se  reconhecer  que  seus  j 
tão  justificados. 


AS  TESES  CIENTIFICAS  DO  DOUTOR  NEI 

O  jovem  advogado,  aliás  muito  bem  apes¬ 
soado  e  de  excelente  visual,  continua  em  sua 
cruzada  anti-freudeana,  em  vcrborréias  como  es¬ 
ta:  Quanto  no  ambiente  nio  há  dúvidas:  eram 
festas  de  embalos,  frequentados  por  aleijões 
sexaak  que  buscavam  aquele  ambiente  para 
Hbernr  sua  depravação,  deformações,  sua  miséria 
de  seres  humanos. 

Aquilo  lá  servia  para  a  prática  de  toda  a  es¬ 
pécie  de  vicio.  Era  um  pequeno  boapido  dotnl- 


fle safes,  prostitutas  e  toxicómanos.  Estes  eram  oa 
fieqhrnt adores  do  local,  um  peraéctoso  bordel. 
AM,  muitos  menores  eram  iniciados  na  prática 
homossexual  e  esta  i 
tem  que  cobrar  do  passado  < 
embora  esteja  morto. 


ALGUMAS  CONCLUSÕES 

Perante  este  espantoso  quadro,  aterrador,  mil 
e  uma  conclusões  podem  e  devem  ser  tiradas  des¬ 
de  já.  Tentemos  algumas. 

Tudo  se  prepara  para  que  Jairo,  assassino 
oficialmente  confesso,  seja  julgado  por  um  Júri 
Popular  c,  apelando  para  o  mais  piegas  sentimen¬ 
talismo,  seja  absolvido:  isto  se,  entretanto,  ele 
não  for  dado  como  doente  mental . 

Se  houve  mais  envolvidos  no  assassínio, 
parece  que  ninguém  vai  se  preocupar  em  os  des¬ 
cobrir.  E  a  herança,  como  fica? 

“Luisa  Felpuda”,  assassinado,  acabará  sendo 
apontado  como  culpado  de  sua  própria  morte.  E 
os  parentes  hipocritamente  envergonhados,  vão 
calar? 

Os  travestis,  pelo  simples  fato  de  serem 
trávèsfis,  são  mais  úma  vez  apontados  como  os 


pre  fld  à  sua  modéstia  e  simplicidade,  qualidade 
•Más  da  sua  melhor  fé  e  formação  cristãs  (Lem¬ 
bro-me  vagam  cate  da  estampa  de  um  Sagrado 
Coração  numa  das  paredes). 

Conheci-a  então  e  á  sua  casa  de  encontros  mas¬ 
culinos  há  oito  anos  atris,  por  Indicação  de  um 
caro  amigo  de  Porto  Alegre.  Quando  entrei  no  seu 
living,  ela  estava  com  outros  dois  senhores  (pos¬ 
sivelmente  um  deles  fosse  o  seu  Irmão,  também 
assassinado):  todos  de  olhos  grudados  a  televisão, 
novela  das  dez.  Senti-me  Imediatamente  um  Im¬ 
portuno  naquele  ambiente  de  recolhimento,  mas 
mesmo  assim  apresentei -me,  citando  o  nome  des¬ 
se  amigo  (um  nome  que  abre  todas  as  portas  de 
Porto  Alegre!)  e,  como  resposta  recebi  um  sorriso 
e  um  gesto  em  direção  a  uma  cadeira.  “Sente-se 
por  favor.  No  próximo  comercial  conversare¬ 
mos.”  Ot  outros  mal  me  olharam,  preferindo  • 
loná  Magalhães.  Logo  após  durante  os  comer¬ 
ciais: 

_ O  Senhor  velo  só? 

_ Sim,  mas  o  meu  amigo  disse  que  o  senhor 

teria  aqui... 

_ Tenho  sfem.  Mas  agora  é  tarde,  todos  foram 

embora.  O  senhor  compreende:  alguns  dos  ra¬ 
pazes  moram  longe  e  acordam  cedo;  e  outros, 
quando  nio  chega  logo  nm  cliente,  vio  encontrar 


as  namoradas.  Querendo,  providencio  para 
amanhã. 

Voltei  na  noite  seguinte,  pruden temente  mais 
cedo  (durante  a  novela  das  oito)  e  encontrei,  con¬ 
forme  o  combinado,  vários  rapazes  Igualmente 
concentrados  á  volta  da  tevé.  Escolhi  e  aconteceu 
o  normalmente  previsto.  Mas  o  ambiente,  os 
odores,  ot  móveis,  os  ângulos  misteriosos  do 
quarto  iluminado  por  uma  luz  vermelha,  e  a 
própria  situação  que  deveria  ser  constrangedora, 
reconheço  que  foram  muito  excitantes,  apesar  dos 
diálogos  da  novela,  que  vinham  da  sala  ao  lado, 
fizerem  o  possível  para  cortar  toda  a  onda  de 
erotismo. 

Na  segunda  vez  que  visitei  Luiza  Felpuda  (às 
oito  da  noite)  ela  me  cumprimentou  peia  entrevis¬ 
ta  Inteligente  que  a  Tanta  Carvalho  havia  fefco 
comigo  naquela  tarde.  Agradeci  em  meu  nome  e 
da  Tânia,  escolhi  a  pessoa,  tomos  levados  pura  • 
mesmo  quarto  contíguo  à  sala  (deveria  ser  o  das 
personalidades...)  e,  como  da  vei  anterior,  foi 
como  se  o  elenco  danovda  estivesse  dehado 
'comigo  na  cama,  tão  ako  eu  ouvia  suas  vozes.  A 
no  v  dl  a  evldent  emente  era  outra  porque  haviam  se 
passado  dob  anos.  E  Luiza  Felpuda  progredira 
na  vidas  a  teve  era  a  cores,  creio  até  que  com  con¬ 
trole  remoto.  (Darcy  Penteado) 


Jairo,  miché  e  assanho  confesso 

primeiros  suspeitos. 

Joelma,  enfermeiro  de  Luidoro,  não  recusou 
dedurar  os  nomes  de  vários  frequentadores  fa¬ 
mosos  dorendz-vous. 

A  grande  imprensa,  o  rádio  e  a  TV  gaúchos, 
além  de  darem  honras  de  herói  ao  miché  Jáiro, 
tiveram  um  comportamento  sensacionalista, 
difamatório e  profundamente  lamentável. 

Os  homossexuais,  todos  os  homossexuais, 
foram  apontados  tomo  criminosos  potenciais,  de 
altíssima  pcriculosidade  social,  merecendo  prisão  . 
e/ou  tratamento  psiquiátrico. 

Travestis,  prostituição,  tóxicos  e  homosse¬ 
xualismo  foram  metidos  num  mesmo  saco  de 
anormalidade  e  criminalidade,  a  exigir  feroz 
repressão  médico-policial . 

As  bichas  de  Porto  Alegre  vão  passar  um  mau 
bocado.  Já  reagiram,  realizaram  alguma  gestão 
em  defesa  de  quantos  fizeram,  fazem  ou  farão  a 
opção  homossexual?  Que  estão  esperando? 

A  guerra  foi  desencadeada,  contra  nós. 
.Vamos  nos  preparar  para  a  luta.  (João  Carneiro) 


RECIFE: 

“Bamba” 

assassinado 


“Esse  quadro  estarrecedor,  mais 
uma  vez,  acontecido  com  um  de  nossos 
irmãos.  Fruto  puro,  para  náo  dizer 
pútrido,  do  nosso  sistema  criativamente 
machista,  onde  bicha  tem  mais  é  que 


Réq\ 


juiem  para 
Luiza  Felpuda , 
depois  dos 
nossos  comerciais 


PWo  Alegre  perdeu  uma  das  figuras  mula 
curiosas  do  mu  folclore  homossexual :  Luiza  Fel¬ 
puda.  Couhed-a  (o)  peasouhucate.  Mal»  fui  duif 
vezes  d  lente  do  sen  bordel  masculino.  Não  cabe 
aqui,  aunt  elogio  fúnebre,  fazer  uma  aaàhse  da 
prostituição,  seja  feminina  ou  maacullua:  sem  ser 
necessária,  da  é  inútil  e  neste  momento  bmta. 
Cads  um  que  faça  o  seu  Julgamento. 

Não  me  constrange,  juro,  dizer  que  usei  as 
trabalhos  pruflmloaals  da  Lntza  Felpuda.  Um 
bordd  é  am  bordel  e  na  função  está  dito  tudo  e 
tudo  justificado.  Fui  ao  da  Luiza  à  procura  de 
emoções  diferentes  (?)  e  oh  tive -as,  de  um  certo 
modo,  utilizando  a  Imaginação  no  sentido  de  es- 
(ra vazar  o  lado  promiscuo  da  minha  Identidade 
sexual;  e  não  foi  má  a  experiência,  tanto  que  a 
repeti  uma  segunda  vez. 

Quase  trinta  anos  à  serviço  do  público,  fi¬ 
zeram  famosa  a  “miisou”  Fdpuda,  por  onde 
passou  também  multa  gente  famosa.  Dizem  os 
jornais  gaúchos  que  o  travesti  Jodma,  que  fun¬ 
cionava  como  gerente,  organizou  para  o  delegado 
de  policia  encarregado  do  assassinato,  um  carnet 
de  nomes:  personalidades  das  artes,  política, 
sociedade,  etc.  Um  listão!  E  este  resultou  tão 
4Mp”  que  além  de  fázer  inveja  á  agenda  de  en¬ 
dereços  do  G aspar otto,  já  existe  um  plano  para 
incluir  essa  Usta  na  próxima  edição  do  “WhoY 
*ho”.  Um  curioso  detslhe  é  que  apesar  de  ter 
sdo  ditada,  no  decorro’  desses  anos,  por  tantas 
pessoas  Ilustres,  Luiza  Felpuda  nunca  resultou 
vaidosa,  soberba  ou  “snob”  permanecendo  sem¬ 


'Os  assassinos  nada  iráo  sofrer. 
Vocês  vão  vct!  Há  pouco  mais  de  um 
mês,  um  medicozinho  de  boa  família 
matou  o  seu  amante  (dois  anos  de  cama 
e  mesa),  um  belo  jovem  bailarino.  Nada 
sofreu.  E  nem  vai  sofrer.  A  coisa  anda 
nesse  pé. 

“Precisamos  lutar  até  conseguirmos 
mudar  esta  porcaria." 

lota  EUe” 

Recife  (08.05.80) 

Músico  atuando  no  Grande  Hotel  e  no  Mi¬ 
ramar,  foi  assassinado  em  Redfe,  o  pianista  Evar 
Lemoine  Silva,  o  “Bamba”,  com  cerca  de  40 
anos.  O  crime  aconteceu  na  manhã  do  dia  6  de 
maio,  terça-feira,  em  seu  apartamento  (1.324)  do 
Edifício  Holliday,  no  elegante  bairro  da  Boa 
Viagem.  Além  de  uma  pancada  forte  na  cabeça,  o 
corpo  estava  cravado  de  facas,  garfos  e  chaves  de 
fenda,  em  verdadeira  orgia  de  sadismo.  O  prin¬ 
cipal  suspeito  começou  sendo  João  Batista  da  Sil¬ 
va  Neto,  filho  de  um  policial,  logo  preso,  seguido 
de  um  desconhecido  de  lm80cm  de  altura,  que 
habitual  mente  usa  roupa  branca  e  uma  touca 
preta. 

Segundo  os  vizinhos,  “Bamba”  e  João  seriam 
caso  há  vários  anos,  embora  não  morassem  jun¬ 
tos.  Cerca  de  um  mês  antes,  a  vitima  teria  se 
ligado  com  o  segundo  suspeito,  estando  disposto  a 
se  liberar  de  Joio.  Até  agora,  quando  escrevemos, 
o  terceiro  homem  ainda  nio  foi  preso  nem  sequer 
identificado. 

O  assassinato  foi  descoberto  de  noite,  quando 
um  dos  diretores  do  Hotel  Miramar  encontrou  o 
corpo.  A  vizinhança  afirma  nada  ter  visto  ou  es¬ 
cutado  de  anormal,  na  hora  presumível  do  crime, 
apesar  da  porta  ter  ficado  entreaberta  o  dia  todo. 

O  criminoso,  que  usou  luvas  para  matar, 
roubou  as  jóias,  os  perfumes  e  todo  o  dinheiro  do 
“Bamba”.  Novamente  falam  as  vizinhas:  Joio 
nio  tinha  emprego  fixo... 

PRISÃO  DE  JO AO 

O  chefe  da  portaria  do  Holliday,  Geraldo 
Rosa  e  Silva,  apontou  João  à  policia,  na  noite  do 
crime,  quando  ele  chegou  para  encontrar  o 
“Bamba”.  Segundo  Geraldo,  o  companheiro  do 
pianista  esteve  no  apartamento  na  manhã  do  as¬ 
sassinato  ,  mudou  de  roupa,  tomou  um  carro  e 


sumiu. 

Posteriormente,  a  polida  deteve  Fernando 
Ferrdra  dos  Santos,  para  averiguações,  mas 
acabou  libertando  o  homem,  que  dizia  ter  ido 
cobrar,  de  "Bamba”,  uma  divida  de  duzentos 
cruzeiros,  pela  venda  de  um  quadro. 

Sidnei  Granja  Pires,  moradora  do  Holliday, 
assegura  que  Joio  é  uma  pessoa  equilibrada, 
habitual  flreqüentador  do  apartamento,  qoc  nun¬ 
ca  demonstrou  ser  má  pessoa.  Mas,  acrescenta 
que  acredita  que  foi  João  quem  esteve  com  o 
pianista  na  manhã  da  morte,  e  que  também  cré 
que  o  matador  poderia  ser  de. 


EXCELENTE  PESSOA 

Para  Luls  José,  rnattre  do  grande  Hotel, 
4 "Bamba”  era  ama  excelente  pessoa.  Nio  porque 
morreu,  mas  pelo  que  representava  em  vida. 
Todos  adorávamos  de .  Jaraais  o  esquecerei. 

Segundo  Vanildo  PascoaJ ,  maltre  do  Mira¬ 
mar,  o  músico  era  ura  exedénte  profissional  c 
uma  criatura  humana  maravilhosa.  Só  fazia 
amizades,  com  o  pessoal  e  os  clientes.  Estamos 
todos  desapontados. 

Os  proprietários  do  Miramar  e  do  Grande 
Hotel,  confirmando  tais  versões,  providenciaram 
o  funeral,  que  teve  grande  acompanhamento,  ser¬ 
viço  rdigioso  e  a  presença  de  dois  irmãos  e  alguns 
sobrinhos  dó  morto. 

Ele  não  tinha  inimigos,  escreveu,  Alex,  co¬ 
lunista  sodal  do  “Jornal  do  Comércio”,  de  Re, 

dfe. 

SONO  DA  MORTE 

A  polida  diz  que  “Bamba”  foi  abatido  en¬ 
quanto  dormia  e  que  nâo  deve  nem  ter  se  aper¬ 
cebido  de  nada.  Maguérn  tinha  nadn  contra  de, 
nio  sd  como  ele  foi  assassinado  desta  maneira, 

lamentam  os  porteiros  Mendes  e  Edilson.  Mas,  se 
“Bamba”  tiver  sido  morto  dormindo,  como  ex¬ 
plicar  as  manchas  de  sangue  espalhadas  pelo 
apartamento? 

Parece  ser  geral,  no  Edifído  Holliday,  a  con¬ 
vicção  de  que  João,  que  vida  ás  custas  de  “Bam¬ 
ba”,  teria  sido  o  criminoso,  por  ciúme  do  novo 
namorado  do  músico. 

Para  Geraldo,  o  assassino  deve  ter  sido  um 
desses  desocupndos  que  vivem  às  custas  de  ho¬ 
mossexuais. 

FAMlLl  A  REPRESSORA 

íntimo  de  trés  vizinhas  (Maria  Barbosa,  Sid¬ 
nei  Pires  e  Kátia  de  Lima),  o  “Bamba"  sempre  se 
queixava  de  sua  familia,  que  não  lhe  perdoava 
sua  assumida  homossexualidade:  Eles  nio  me 
procuram  para  nada  e  isso  me  dói  muito.  Com 


LAMPlAO  da  Esquina 


Página  5 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


IviolênciaI - — — - 

«• 


Eámw  Umokme  SOrm<  o  “Bmmhm" 

excepção  de  wn  sobrinho,  o§  dcnils  cio  ligam 
para  mim  ,  porqae  sou  assamidaamate  lm. 

“Bamba”  tentava  preencher  o  vazio  deixado 
por  sua  família  Em  seu  apartamento,  almoçava 
diariamente  com  uma  mulher,  sua  amiga,  que 
seria  sua  maior  confidente  e  que  muito  ajudou  no 
desenvolvimento  do  inquérito  policial . 

Entretanto,  tudo  começou  ficando  mais  d  aro 
(ou  menos?),  quando  o  amante  de  “Bamba”, 
Jofto,  denunciou  o  suspeito  desaparecido,  oomo 
sendo  o  verdadeiro  criminoso. 

Resta  esperar  que,  desta  vez,  o  crime  nio 
fique  impune,  como  geralmente  acontece  quando 
a  vitima  é  um  homossexual. 

NA  HORA  DA  BRIGA 

Aproveitando  este  assassinato,  o  jornal 
“Diário  de  Pernambuco”,  pela  mio  do  senhor 
Marcos  Túlio,  em  sua  ediçio  de  12  de  maio, 
desencadeava  uma  virulenta  campanha  anti- 
homossexual,  uma  proposta  de  caça  àt  bichas,  tal 
qual  está  já  acontecendo  em  Porto  Alegre. 

Sob  a  manchete  No  homossexualismo  a 
paixão  libera  a  vtoêéncia  sádica,  foram  publicadas 
mentiras  e  agressões  como  estas:  O  médico 
psiquiatra  Lidemberg  Isac  de  Macedo  diz: 
'Inicialmente,  o  Ao  existe  o  homossexual  passivo 
ou  ativo.  O  que  existe  é  uma  unidade  sexual  dis¬ 
torcida,  ou  mesmo  pode-te  admitir  o  termo  per¬ 
vertido,  e  como  é  lógico,  se  nio  houvesse  os  dois 
componentes,  néo  havia  homossexualismo.  Par¬ 
tindo  dessa  premissa  de  que  ambos  sAo  porta¬ 
dores  de  distúrbios  psíquicos,  toda  a  teqüéncla  de 
açóes  pertinentes  á  vida  na  sociedade  obriga¬ 
toriamente  sáo  pervertidas.  O  homossexualismo  é 
realmente  um  crime  sexual,  parte  de  vigência 
psíquica  oriunda  de  distúrbios,  estando  dessa 
maneira,  propícios  em  casos  de  homlddlos 
ocorrerem  de  maneira  mais  violenta  e  mesmo  per¬ 
versa. 

Isto  é,  para  os  senhores  Túlio  e  doutor  Lidem - 
berg.  somos  seres  distorcidos  e  pervertidos,  por¬ 
tadores  de  distúrbios  psíquicos,  de  vivência  sodal 
obrigatoriamente  pervertida;  somos,  ainda, 
criminosos  sexuais  e  violentos.  Genti ficamente 
falsas,  tais  afirmações  denotam  uma  desones¬ 
tidade  e  uma  má  fé  que  merecem  um  belo  proces¬ 
so  por  calúnia  e  difamaçfio,  a  ser  assumido  pelos 
homossexuais  pernambucanos,  ou  outros,  com 
exigência  de  reparação  de  danos.  Quem  compra 
essa  briga? 

QUEM  ESTÁ  LOUCO? 


em  sua  paranóia  antibichas.  Um  deles,  o  major 
Manoel  Pimenta  (professor  de  Educação  Física  e 
Relações  Públicas  da  Policia  Militar  de  Pernam¬ 
buco),  não  hesita  em  inventar  coisas  assim:  Na 

realidade,  o  homossexualismo  é  uma  anomalia  e 
que  resulta  viverem  essas  pemoas  na  fronteira  da 
loucura.  Dal  a  razão  dos  crimes  dessa  natureza 
terem  praticados  com  tamanha  brutalidade. 
Quando  ocorre  o  homicídio,  o  Indivíduo  exte¬ 
rioriza  todos  os  seus  recalques  e  frustrações  com 
que  rinha  convivendo  e,  naquele  momento, 
levado  por  uma  verdadeira  crise  de  loucura, 
retorna  á  época  do  homem  da  caverna  e,  impul¬ 
sionado  por  uma  totalidade  de  sentimentos  bes¬ 
tiais,  pratica  uma  série  de  brutalidades. 

Quanto  a  nós,  no  Lampião,  fazemos  questão 
de  denunciar  todo  este  maquiavélico  plano  re¬ 
pressivo,  arquitetado  por  certos  médicos,  certos 
advogados  e  certos  policiais.  Esperamos  poder 
continuar  contando  com  a  preciosa  ajuda  dos 
leitores  que  nos  enviam  material  informativo, 
como  o  que  possibilitou  as  matérias  desta  seção. 

Sabemos  nos  defender.  Combateremos  quem 
quer  nos  esmagar  e  calar.  Sabemos  que  ser  ho¬ 
mossexual  não  é  ser  doente,  nem  anormal,  nem 
criminoso,  nem  violento,  nem  pre vertido,  nem 
aleijão.  Somos  homossexuais  e  nos  orgulhamos 
disso.  (JoioCnmslio  I 


O  médico 
e  o  bailarino: 
mistério? 


Na  adição  de  26  de  UMdo  (a.97f)  da  rrvfrta 
Tato a  A  Fotos  /  Gente”,  a  upéritr  Iracema 
Rodrigues  escrevia:  No  Recife,  há  algum  tempo 
que  os  homossexuais  estão  sendo  vitimas  de  uma 
bruxa,  no  mínimo,  preconceituosa.  Há  menos  de 
dois  meses,  o  bailarino  Tõni  Vieira  foi  assassi¬ 
nado  por  seu  ex -amante,  o  médico  Qôvis  Mar¬ 
ques  Filho.  Entretanto,  apesar  de  se  saber  o  nome 
do  assassino,  as  investigações  continuam  paradas 
e  nada  de  concreto  foi  descoberto. 

certeza  absoluta,  de  ser  Oóvts  o  criminoso; 
porém,  nosso  Mor  Jata  Ele  (ver  curta  nesta 
seção)  faz  a  mesma  afirmação.  Dal  dedsudmm 
que,  em  Recife,  essa  opinião  está  generalizada.  Ê 
predao  apontar  o  intiibo,  sem  dúvidas.  Julgar 
e,  te  for  o  caso,  punir.  Ninguém  pode  matar  em 
vão. 

A  propósito,  recordemos  o  acontecimento. 

VARIAS  HIPÓTESES 

Dia  9  de  março,  domingo,  no  número  352  da 
Rua  Améia.  Edtftcio  Sta.  Margarida,  Aflitos, 
Recife,  morreu  o  bailarino  Antonlo  Carlos  Qiuha 
Vidra,  o  Tony.  Saiu  ferido  o  médico  obstetra 
CJóvto  Marques  FBho,  em  cujo  apartamento 
ocorreu  u  tragédia.  O  morto  estava  com  duas 
balas  no  peito  e  uma  na  cabeça;  o  ferido  estava 
também  boleado. 

Ao  detetive  kmé  Edson  Borbota,  da  DH, 
colocava-te  três  hipóteses  principais:  tentativa  de 
homicídio,  seguida  de  sukUlo;  homicídio,  se¬ 
guido  de  tentativa  ou  simulação  de  suicídio;  ten¬ 
tativa  de  bomlctdlo  contra  Góris,  seguida  de 
suicídio,  de  Tony,  com  uma  ação  homicida  suces¬ 
siva  c  concorrente  de  terceiros . 

O  mais  importante,  hoje,  e  o  mais  grave,  é  que 
ninguém  está  preso,  como  suspeito.  E,  é  desse 
Impasse  que  precisamos  sair.  Ou  será  que  alguém 
consegue  se  suicidar  com  três  tiros?... 

EA  MATEMÁTICA? 

Para  Irene  Barbosa  da  Silva,  empregada  do 
médico,  oAcialmente  a  única  testemunha,  Tool 
tentara  abater  Qóvb  e  depois  se  suicidou,  dis¬ 
parando  dois  tiros  de  enda  vez.  Ora,  foi  encon¬ 
trado  um  revólver  Rossl,  calibre  31,  modelo  para 
cinco  projéteis;  a  arma  disparara  quatro  balas  e 
mantinha  uma  na  câmara:  de  onde  vdo  o  outro 
tiro? 

No  Hospital  Geral  de  Urgências,  para  onde 
fora  levado  no  dia  do  crime,  por  seu  pai,  Qóris 
entrou  em  pânico  na  quarta-feira,  dia  12  dizendo 
que  tinham  sido  feitos  dois  telefonemas  anóni¬ 
mos,  ameaçando  sequestrar  e  linchar  o  médico. 
Logo  foi  destacado  um  policial,  para  garantir  a 
sua  segurança. 

DEPOIMENTOS 

Tony,  que  dirigia  uma  Academia  de  Dança, 
tinha  um  filho  de  cinco  anos,  Ricardo,  frtre  mm 
amigas  mais  intimas,  estava  a  estudante  Maria 
Gorete  Alves  de  Souza,  de  19  anos,  sus  aluna; 
durante  janeiro,  ela  se  hospedou  na  casa  do  casal 


homossexual,  e  declara:  Brigavam  muito,  Tony 
tinha  ciúme,  sempre  se  insultavam  e  batiam, 
quando  Oôvis  chegava  tarde.  Tony  me  pediu, 
uma  vez,  que  se  acontecesse  “alguma  besteira”, 
tomasse  conta  das  suas  coisas  e  cuidasse  do 
Ricardo. 

E  prossegue:  quando  cheguei  no  apartamen¬ 
to,  depois  do  crime,  estavam  lá  pessoas  que  não 
conheço,  e  Irene  e  Agostinho.  Estava  tudo  fora 
dos  lugares  e  o  telefone  no  chão.  Havia  sangue  na 
sala,  na  cozinha  e  no  quarto. 

Logo  foi  desfeita  a  versão  que  dava  como 
motivadora  do  crime  a  difícil  situação  financeira 
do  bailarino;  além  de  ter  comprado  um  apar- 


No  dia  13  de  setembro  do  ano  passado,  a 
residência  de  Aírton  Burity  no  Parque  Fluminen¬ 
se,  Campos  Eliseos,  muni  dpi  o  de  Nova  Iguaçu,  fiai 
invadida  por  oito  homens  armados  que  diziam ‘-se 
da  polida.  Depois  de  ameaçar  a  família,  saquear 
e  destruir  tudo,  levaram  o  filho  do  proprietário 
José  Carlos,  ao  qual  fuzilaram. 

Em  13  de  outubro,  em  Vila  Paulina,  Belfòrt 
Roxo,  município  de  Nova  Iguaçu,  um  grupo  de 
oito  homens  fez  as  mesmas  atrocidades  na  casa  de 
Marli  fereira  Soares,  assassinando  o  irmão  desta, 
Paulo  Pereira  Soares  Filho.  Dias  depois,  um  tal 
de  Car linhos  Capeta,  amigo  de  Paulo  e  namorado 
de  Marli,  foi  morto  em  circunstâncias  semelhan¬ 
tes. 

No  dia  26  de  fevereiro  deste  ano,  oito  soldados 
da  PM  invadiram  a  casa  de  Latira  Maria  de  Souza 
em  Rosa  dos  Ventos,  Morro  Agudo,  Nova  Iguaçu 
e  sequestraram  o  filho  desta,  José  de  Souza,  e 
Adilson  da  Silva,  amigo  deste.  Ambos  estão  até  o 
momento  dados  como  desaparecidos. 

Todos  esses  crimes  foram  atribuídos  ao  fic¬ 
tício  Mão  Branca.  Todos  possuem  características 
comuns:  o  número  de  invasores,  o  saque  e  de¬ 
predação  da  residência  das  vitimas,  e  o  fuzila¬ 
mento  destas.  Todos  igualraentc  tenderiam  a  ser 
arquivados  como  “autoria  desconhecida”,  não 
fosse  Marli  Pereira  Soares,  a  irmã  da  segunda 
vitima.  Sua  coragem  e  personalidade  estão  sendo 
decisivas  para  o  desmascaramento  de  mais  uma 
policia  mineira,  um  esquadrão  da  morte. 

Durante  meses  ela  tentou  identificar  na 
Poliria  Militar  os  assassinos  do  irmão.  O  20? 
Batalhão  tudo  fez  para  desencorajá-la.  Finalmen- 
te,  há  um  mês  e  pouco  atrás,  a  juiza  Ana  Maria 
Faber  Barbalat  determinou  que  a  tropa  fosse  for¬ 
mada  para  ser  vista  por  Marli.  Ela  reconheceu 
então,  o  cabo  Adalvo  Oescéncio  (cumprindo 
pena  na  cozinha  do  batalhão  por  ter  assassinado 
um  operário  a  socos  e  pontapés)  e  o  soldado  Jorge 
Alves  dos  Santos. 

Foi  a  gota  d’água.  Policiais  civis  e  militares 
começaram  abertamente  a  tumultuar  o  caso.  O 
delegado  Amin  Chaim,  encarregado  do  inquérito, 
acusou  o  diretor  da  Policia  Metropolitana,  Heral- 
do  Gomes,  de  tentar  influir  no  curso  do  processo. 
Foi  imediatamente  substituído.  O  comércio  da 
cidade  fechou  as  portas  em  solidariedade  a  ele, 
mas  nada  adiantou. 

No  dia  08  de  maio,  um  violento  tiroteio  até 
agora  mal  esclarecido  entre  policiais  civis  e 
militares  e  até  membros  das  Forças  Armadas 
marcou  o  último  dia  de  Chaim  no  cargo.  No  dia 
seguinte,  empossado  o  delegado  Milton  da  Costa, 
a  34?  Delegaria  foi  literalmente  invadida  pelo 
capitão  AJípio  Bastos  da  PM.  Com  a  omissão  do 
novo  delegado  e  a  cumplicidade  do  promotor  da 
4?  Vara  de  Nova  Iguaçu  (José  Pires  Rodrigues), 
Marli,  sem  a  presença  d i  seu  advogado,  foi  então, 
coagida  a  reconhecer  quatro  acusados  confessos  e 
o  caso  foi  dado  por  encerrado.  Os  assassinos 
seriam  apenas  quatro  e  não  oito.  Há  entre  eles 
apenas  um  PM  (Jairo  dos  Santos  Filho).  Os  outros 
são  guardas  de  segurança  ou  coisa  parecida: 
Moisés  Luiz  da  Silva,  João  Batista  Gomes  e  João 
Gomes  Amorim.  Todos  acusaram  Marli  de  pros¬ 
tituta,  seu  irmão  de  assaltante  e  o  delegado 
Chaim  de  corrupto.  Até  uma  falsa  testemunha  foi 
apresentada  pelo  capitão. 

Desta  vez  o  escândalo  foi  tão  grande  que 
outros  setores  acabaram  mobilizando-se  a  favor 
de  Marli.  Na  imprensa,  foi  dada  grande  cober¬ 
tura  de  reportagem  e  o  assumo  chegou  até  a 
editoriais  no  Globo,  JB,  Folha  de  SP  e  Veja.  O 
Centro  da  Mulher  Brasileira,  entidade  feminista, 
decidiu  ajudà-la.  E  a  Ordem  dos  Advogados  do 
Brasil -seção  Rio',  requereu  ao  procurador  geral  da 
república  a  designação  de  um  promotor  especial 


lamento  recentemente,  Tony  tinha  um  bom  saldo 
bancário,  como  se  comprovou  pelo  levantamento 
policial. 

UM  DESAFIO 

Até  agora,  nada  ou  quase  nada,  de  novo,  foi 
apurado  pela  policia.  Tado  parece  ter  sido  es¬ 
quecido  ao  segredo  das  ‘boas  famílias  pernam¬ 
bucanas”,  como  aquela  a  qae  pertence  o  doutor 
aóvis.  E  Tony?  Quem  luta  por  sua  memória? 
Qae  esperam  as  bichas  e  os  sapatões  pernam¬ 
bucanos,  frangos  e  pitombas,  para  se  organizar  e 
lutar?  (João  Carneiro); 


para  companhar  o  caso,  colocando  em  suspeita  o 
de  Nova  Iguaçu . 

Apesar  do  Cápitão  Aiipio  Bastos,  *  o  caso 
Marli  nio  terminou  ai.  Dia  12,  familiares  do  PM 
Jairo  tomaram  a  delegacia.  Vinham  num  ônibus 
cedido  pela  Viação  Vera  Guz  (a  qual  Jhiro  vendia 
proteção)  e  decididos  a  provar  que  o  irmão  de 
Marli  era  mesmo  assaltante.  As  testemunhas 
apresentam  tantas  contradições  que  nada  ficou 
provado. 

Dia  13  de  maio,  os  parentes  de  José  Carlos 
Burity  e  Edson  Moita  reconheceram  pda  TV  João 
Batista  Gomes  e  João  Gomes  Amorim,  assassinos 
confessos  do  irmão  de  Marli,  como  dois  das  seus 
sequestradores.  Na  própria  delegaria  apontaram 
o  detetive  Benedito  Abel  e  denunciaram  um  tal  de 
Leléu.  Por  outro  lado,  dona  Laura  de  Souza  e 
dona  Dei  se  Rodrigues,  mães  dos  desaparecidos 
José  e  Adilson,  começam  a  tentar  repetir  a  via 
cniris  de  Marli  em  reconhecer  os  soldados  assas¬ 
sinos  (um  teria  o  sobrenome  Teixeira).  E  como  se 
não  bastasse,  a  mãe  de  José  Carlos  Adel,  dona 
Elionette,  denunciou  os  acusados  de  caso  Marli 
como  invasores  da  sua  casa,  ao  lado  de  outro  PM 
(Renato  Maia)  e  dois  alcagUetes.  A  Polida  Gvil 
tem  dificultado  o  andamento  desses  novos  proces¬ 
sos,  segundo  denunciaram  os  advogados. 

Nesta  confusão,  estão  acusadas  nada  menos 
de  13  pessoas,  das  quais  seis  pertencem  ao  20? 
Batalhão  da  PM,  três  são  da  Policia  Gvil  e  quatro 
paisanos.  Do  fato,  podemos  (e  devemos)  tirar  al¬ 
gumas  conclusões  políticas. 

I  —  Antes  de  mais  nada,  a  comunidade  deve 
sentir-se  grata  á  Marli  Teixeira  Soares,  sem  cuja 
coragem  nada  poderia  ter  acontecido.  Ela  prova 
como  uma  pessoa  triplamente  discriminada 
(como  mulher,  como  negra  e  como  pobre)  pode 
forçar  uma  tomada  de  posição  apenas  com  sua 
persistência. 

II  —  A  entrada  em  cena  da  OAB  e  do  Centro 
da  Mulher  Brasileira  é  importante  porque  pode 
marcar  o  inicio  de  uma  campanha  pelo  sanea¬ 
mento  da  justiça  e  pelo  preso  comum.  Não  pode, 
pçrtanto  restringir -se  apenas  á  Marli.  Tem  de  ser 
estendida  as  outras  mulheres  do  caso  —  e  a 
outras  regiões  do  pais.  Estranho  aqui  entretanto  a 
omissão  da  diocese  de  Nova  Iguaçu,  cujo  bispo 
dom  Adriano  Hipòlito  já  sofreu  mais  de  um  aten¬ 
tado  direitista  e  cujos  inquéritos  não  deram  em 
nada.  E  também  das  entidades  negras,  mais 
ocupadas  talvez  na  semana  da  Abolição  com 
showzinhos  e  conferências. 

III  —  A  imprensa  foi  importantíssima,  apesar 
das  declarações  do  comandante  da  PM,  coronel 
Aníbal  Mello.  Foi  através  de  focos  e  TV  que  as 
outras  mulheres  reconheceram  os  acusados.  Mas 
os  jornalistas  não  devem  esquecer  que  uma  das 
principais  causas  da  corrupção  nos  meios  poli¬ 
ciais  são  os  baixos  salários.  Recentemente,  os 
movimentos  reivindicatórios  da  classe  (tanto  civil 
quanto  iqilitar)  foram  reprimidos  energicamente 
pelo  governo  c  nio  encontraram  uma  linha  sequer 
de  simpatia  na  imprensa.  Antes  pelo  contrário. 

IV  —  A  Policia  Militar  deve  compreender  que 
formar  o  batalhão  para  que  possíveis  soldados 
criminosos  sejam  reconhecidos,  não  denigre  de 
forma  alguma  a  corporação.  O  que  pode  denegri- 
la,  isto  sim,  é  a  existência  de  criminosos  ocultos 
nas  suas  fileiras  (veja-se  as  cifras  de  expulsão 
anuais),  a  obstrução  da  justiça  e  atitudes  como  as 
do  capitão  Aiipio.  O  mesmo  se  aplica,  na  Policia 
Gvil,  aos  que  tentam  dificultar  o  andamento  dos 
processos.  Sâo  funcionários  públicos,  pagos  com 
o  dinheiro  dos  contribuintes  para  cumpir  a  lei,  e 
nâo  pra  violá-la  ou  emperrá-la. 

V  —  A  opinião  pública  deve  vigiar  o  decorrer 
do  processo.  O  caso  Marli  nâo  acabou.  Agora  é 
que  está  começando.  (Joio  Carlos  Rodrigues) 


E  o  senhor  Túlio  e  seus  amigos  prosseguem 

Página  6  LAMPIÃO  da  Esquina 


Lições  Políticas 
do  Caso  Marli 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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Página  7 


LAMPIÃO  da  Esquina 


Fotos:  Dimitri  Ribeiro 


a  Pura 


APPAD * 


a  s  s  o  c  i  a  ç  a  o  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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GRUPODIGNIDADE 


IATIVISM01 


O  racha  no  SOMOS/SP 


No  dia  17  de  maio  ocorreu  o  que  já  sc  operava 
há  alKum  tempo:  o  eslilhuçamento  do  grupo 
SOMOS,  de  São  Paulo.  A  situação  dentro  do 
grupo  vinha  »e  deteriorando  desde  o  «irgimenln  en¬ 
tre  seus  participantes  de  antagonismo*  aparen¬ 
temente  irreconciliáveis  durante  o*  debátes  do  I 
Encontro  Brasileiro  de  Homossexuais.  “Lam¬ 
pião"  passa  aos  seus  leitores  os  documentos  en¬ 
viados  pelas  f ac c<>es  em  conflito,  ao  mesmo  tempo 
que  publica  um  esclarecedor  depoimento  sobre  o 
assunto  de  Eduardo  Guimarães,  do  grupo  SO¬ 
MOS  carioca. 


DOCUMENTO  I 

Sàu  Paulo,  19  de  maio  de  1980. 

*‘Ao  Movimento  Horno  sexual:  Em  reunião 
geral  no  Mistura  Fina,  dia  17  de  maio,  o  grupo 
Lésbico-Feminista  separou-se  do  grupo  SOMOS. 
Assumimos  esta  posição  com  base  em  experiên¬ 
cias  concretas  de  um  ano  de  trabalho  e  através 
das  quais  acreditamos  hoje,  poder  afirmar  que: 


1)  a  participação  de  lésbicas  em  grupos  mis¬ 
tas  tem  impedido  o  desenvolvimento  de  uma  cons- 
sicéncia  leminista,  essencial,  a  nosso  ver,  para  o 
próprio  M.H  Dada  a  especificidade  da  discri¬ 
minação  que  sofremos,  enquanto  mulheres  e 
homossexuais,  consideramos  o  processo  de  afir¬ 
mação  somente  possivcl  em  reuniões  separadas 
das  dos  homens.  As  mulheres  nâo  podem  des¬ 
cobrir  o  que  têm  em  comum  a  nâo  ser  cm  grupos 
só  de  mulheres; 

2)  ê  falsa  a  idéia  dc  que  um  grupo  homos¬ 
sexual  precise  de  lésbicas  para  levar  a  questão 
feminista.  Sempre  nos  colocaram  a  necessidade 
dc  existirem  mulheres  no  grupo  para  ensinar 
feminismo  c  apontar  atitudes  machistas. 
Achamos  que  a  conscientização,  embora  cm 
níveis  diferentes  para  homens  c  mulheres,  se  dá 
da  mesma  forma,  isto  é,  por  meio  dc  leituras, 
pesquisas  c  da  reflexão  «onúnua  sobre  j  re 
produção  d dé  *pajV isTi ef êr õkiti (jai s  de  masculi¬ 
nidade  c  feminilidade.  Acreditamos  ainda  que 
qualquer  grupo  realmentc  interessado  em  fe¬ 
minismo  pode  iniciar  uma  discussão  sobre  o 
tema,  independente  da  participação  das  mu 
lheres.  Inclusive,  a  presença  de  lésbicas  nào  só 
nâo  implica  numa  postura  feminista,  como  tam¬ 
pouco  serve  como  uma  estratégia  dc  combate  ao 
machismo  que  todos  reprrxluzimos; 


3)  í*  grupos  lormados  exclusivamenic  por 
lésbicas  ou  bichas  nâo  dividem  o  M.H.,  pelocon 
trário,  podem  enriquecé-lo,  apontando  novas 
propostas  na  direção  de  um  verdadeiro  cresci¬ 
mento  da  consciência  homossexual.  A  nossa 
atuação  externa,  participações  em  congressos  e 
manifestações,  vem  desmonstrar  nào  haver  qual¬ 
quer  empecilho  no  sentido  de  uma  açâo conjunta, 
desde  que  sejam  preservados  nossos  objetivos  e 
autonomia. 


'Tema  a  oferecer,  para  troca  de  informa¬ 
ções.  uma  prática  de  atividades,  efetuadas  desde 
maio  de  79,  que  inclui  contatos  com  outros 
grupos  discriminados  (grupo  feminista)  e  um 
processo  efetivo  dc  aglutinação  dc  mulheres 
homossexuais . "  Grupo  Lésbico- Feminist a . 

DOCUMENTO  2 


“CONSIDERANDO  que  a  imagem  externa 
do  Grupo  Somos  está  irreversivelmente  associada 
ao  grupo  C  onvergência  Socialista; 

“CONSIDERANDO  que  a  autonomia  do 
Grupo  Somos  está  comprometida  pelo  caráter  da 
atuação  de  elementos  filiados  a  organizações 
político  partidárias; 

‘CONSIDERANDO  que  o  Grupo  Somos  foi 
desviado  de  sua  definição  como  grupo  de  homos¬ 
sexuais  interessados  basicamente  em  discutir  nos¬ 
sa  sexualidade  e  lutar  contra  a  discriminação 

sexual 

“NÓS,  abaixo  nomeados,  nos  declaramos 
DKMJGADOS  do  Grupo  Somos  a  partir  desta 
data,  c  passamos  a  construir  um  novo  grupo  que 
sc  propõe  a  afirmar  a  definição  de  grupo  homos¬ 
sexual  autônomo  e  interessado  prioritariamente 
na  questão  homossexual.  Sâo  Paulo,  17  de  maio 
dc  1980.“  Assinado:  Cacâ,  Celso  I,  Emanoel, 
Lv«*n*to,  Glauco,  RcynaJdo  I,  Ricardo  III,  Tosta, 
/cze . 


DOCUMENTO  3 


Página  8 

<?  «A'(yi*t 


“Desde  a  realização  do  l.°  EGHO,  evidenciou- 
se  uma  divergência  dentro  do  Somos-SP:  que  se 
discutia  política,  manobras  partidárias,  tudo  em 
detrimento  das  questões  específicas  homosse¬ 
xuais.  Essa  divergência  foi  radicalmente  demons¬ 
trada  na  6?  Reunião  Geral  deste  ano,  ocorrida  em 
1 7  de  maio,  quando  nove  elementos  apresentaram 
uma  denúncia  e  a  sua  renúncia  em  continuar  no 
Somos-SP. 

“A  radical  idade  a  que  nos  referimos  é  porque 
essas  pg^soüs  nfp  discutiram  a  denúncia  e  ner 
*sua  lenunciaTtlftd^^ioSfmitTva  a  nelirafla 
grupo.  Tal  denúncia,  entretanto,  nâo  foi  con¬ 
siderada  pelo  grupo,  tendo  a  reunião  prosseguido 
e  chegado  ao  consenso  que  a  continuidade  da  es¬ 
trutura  do  Somos-SP  nâo  sofreria,  de  imediato, 
qualquer  modificação.  O  objetivo  desta  carta  é 
aclarar  os  motivos  que  determinaram  essa  renún¬ 
cia. 

“O  grupo  Somos-SP,  que  mantém  a  definição 
que  a  homossexualidade  nào  sofre  restrições  pelas 
diferentes  formas  de  participação  dos  seus  ele¬ 
mentos  e  que  esta  participação  pode  até  mesmo 
ser  em  partidos  políticos,  a  nível  individual,  con¬ 
cluiu  que  as  acusações  sobre  a  filiação  partidária 
de  algumas  pessoas  nâo  interfiriria  em  seu  desen¬ 
volvimento.  Ao  contrário,  considerou  que  a 
homossexualidade  deveria  estar  refletida  também 
nas  demais  relações  sociais  como  trabalho,  re¬ 
ligião  e  educação.  Concluiu-se  que  a  disposição 
de  discutir  programas  partidários  deveria  ser 
iniciativa  individual  e  em  local  distanciado  das 
Reuniões  Gerais. 

“O  grupo  Somos-SP  nâo  abdicou  em  nenhum 
momento  da  discussão  da  questão  homossexual. 
A  não  ser  que  se  considere  desvio  a  discussão 
fomentada  pelos  rcnunciantes  quanto  á  possível 
influência  externa.  Ou  sobre  o  trabalhador 
homossexual  do  ABC.  Ou  sobre  o  negro  homos¬ 
sexual. 

“lamentamos  esta  denúncia  grupai  porque  a 
argumentação  foi,  no  mínimo,  irreal.  Acredi¬ 
tamos  porém,  na  sinceridade  dos  elementos  que 
se  retiraram;  eles  realmente  acreditam  no  que 
dizem. 

“O  que  demonstra  basicamente  essa  decisão 
que  marcou  a  retirada  dos  nove  elementos  foi  a 
realização  do  !.°  EGHO.  No  encontro,  a  cons¬ 
tatação  de  que  alguns  elementos  sc  colocavam 
como  apoliticos  e  exigiam  do  grupo  essa  defi¬ 
nição,  teve  como  contrapartida  a  opção  da 
maioria  pela  qualidade  política  do  grupo.  Após  o 
encontro,  a  entrada  de  novos  elementos  trouxe 
novamente  a  discussão  política  para  o  interior  do 
Somos-SP.  Isso  porque,  em  relação  com  a  nossa 
realidade  sócio-econômica,  os  integrantes  do 
grupo  passam  necessariamente  por  todas  as 
outras  manifestações  sociais.  Impossível,  portan¬ 
to,  estabelecer,  na  realidade  brasileira,  hoje,  um 
grupo  discriminado  por  todas  as  políticas  e  que  se 
defina  como  apolitico.  Por  isso  a  reiterada  afir¬ 
mação  de  que  o  grupo  Somos-SP  nâo  é  um  grupo 
de  filiação  partidária,  mas  é  um  grupo  político. 

“Admitimos  a  possibilidade  de  que  os  ele¬ 
mentos  que  se  afastaram  se  constituam  num 


grupo  que  atenda  às  suas  necessidades  parti¬ 
culares.  Entretanto,  refletimos  que  a  crítica  do 
processo  do  grupo  Somos-SP  por  estes  mesmos 
elementos,  seria  dc  inestimável  valia,  tanto  para 
nós,  como  a  finalidade  de  não  repetirmos  as  mes¬ 
mas  condições,  como  para  o  novo  grupo,  a  fim  de 
&ue  estabeleça  claramente  sua  posição  em  relação 
£  política  homossexual  frente  à  realidade  social, 
irisando  não  sofrer  mais  as  contradições  no  seu 
objetivo. "  Grupos  Somos  de  Afirmação  Homos¬ 
sexual. 

UM  DEPOIMENTO 

mairtL^auatrjh da  tarde, 
rde  umarfate  sobre  homos¬ 
sexualismo  na  PUC,  o  telefone  toca.  Eva,  uma 
repórter  de  Veja,  me  pede  declarações  sobre  as 
relações  do  Somos-RJ  com  os  partidos  políticos. 
Mão  preciso  dizer  que  tive  enorme  curiosidade  em 
saber  porque  ela  queria  saber  justamente  aquilo. 
Invertendo  as  posições,  passei  a  entrevistá-la,  e  já 
agora  queria  também  saber  como  ela  tinha  con¬ 
seguido  meu  telefone,  porque  nâo  sou  o  porta-voz 
do  grupo  Somos-RJ. 

“Se  sua  primeira  resposta  —  dizendo  que  o 
contato  tinha  sido  feito  através  de  amigas  do 
Coletivo  de  Mulheres  —  foi  tranquilizante,  a 
segunda  me  jogou  sentado  numa  cadeira  e  me 
devolveu  à  posição  definitiva  de  entrevistado.  Ela 
sabia  que  algo  se  passava  com  o  Somos-SP  e 
declarou  ter  conhecimento  que  partidos  políticos 
haviam  demonstrado  interesse  pelo  Somos  (c  que 
eventual  mente  teriam  até  mesmo  tomado  a  li¬ 
derança  do  grupo).  Eu  ficara  sabendo  no  sábado 
da  saida  de  14  rapazes  do  Somos-SP  e  da  sepa¬ 
ração  definitiva  da  facção  Lésbico-Feminista  do 
mesmo  grupo.  As  razões  alegadas:  a  atuação  de 
elementos  filiados  a  organizações  politico- 
partidárias  havia  distanciado  o  grupo  da  discus¬ 
são  primordial  —  a  da  sexualidade  — e  associara 
a  imagem  (do  grupo)  à  da  Convergência  Socialis¬ 
ta,  especificamente. 

“Embora  surpreso  com  a  rapidez  com  que  a 
noticia  chegara  à  redação  de  Veja,  assim  como 
com  o  súbito  interesse  da  revista  por  um  tema  tão 
debatido  durante  o  Encontro  de  São  Paulo,  resol¬ 
vi  simplesmente  acreditar  que  bichas  e  lésbicas 
haviam  finalmente  conquistado  um  espaço  físico 
e  político  neste  pais.  Assim,  falei  pra  ela  sobre  o 
nosso  tema  AUTONOMIA  —  tão  discutido  em 
abril.  Se  a  lição  entre  os  movimentos  e  a  política 
partidária  era  novidade  para  repórter,  pra  nós 
nâo  é.  O  grupo  Somos-SP  está  marcado  pela  luta 
politico-partidária.  A  presença  da  Convergência 
dentro  do  Somos  ficou  efetivamente  marcada  no 
Encontro.  O  fato  assume  importância  ainda 
maior  com  a  saida  dos  14  rapazes,  que  nâo  são 
absolutamente  o  que  se  poderia  chamar  de  bucha 
de  canhão.  Aliás,  se  algum  nome  tivesse  dc  ser 
dado  à  maioria  deles,  acredito  que  ornais  próprio 
seria  o  de  bichas  históricas  —  nâo  enquanto 
registro  morto,  mas  como  memória  viva,  atuante 
e  determinante  na  cena  dos  movimentos  brasi¬ 
leiros. 

‘Mão  preicndo  ser  imparcial  em  minhas  aona- 
deraçòes,  nem  me  distanciar  das  pessoas  que  nos 
trazem  tais  fatos  á  baila,  dai  a  pouca  precisão 
desta  análise.  Munido  de  toda  a  simpatia  pessoal 


e  teórica,  me  proponho  a  comentar  a  última  en¬ 
trevista  dada  pelo  Somos-SP  ao  jornal  Em  Tem¬ 
po,  antes  da  crise  atual.  Em  primeiro  lugar,  fica 
claro  que  tanto  o  grupo  de  São  Paulo  como  o  do 
Rio  —  independentes  um  do  outro  —  têm  um 
longo  caminho  a  percorrer  antes  de  ter  um  dis¬ 
curso  próprio,  em  contraposição  a  um  discurso 
pessoal  de  seus  membros.  (Impossível  saber  se  al¬ 
gum  dia  teremos  tal  discurso). 

“As  alianças  que  virão  fortalecer  nosso 
movimento  —  proclamadas  na  citada  entrevista 
por  um  dos  rapazes  que  não  saiu  do  Somos  e  que 
durante  o  Encontro  sc  identificou  como  membro 
da  Convergência  —  serão  obviamente  consequên¬ 
cia  das  características  próprias  do  movimento.  ‘ 
Ora,  se  tais  alianças  nâo  só  dificultam  como  im¬ 
pedem  o  pleno  andamento  do  Somos-SP,  ou  de 
outro  grupo  qualquer,  me  parece  que  tais  alian¬ 
ças  são  indesejáveis. 

“Finalmente,  me  pergunto  como  ficam  os 
demais  grupos  diante  de  tais  acontecimentos? 
Evidentemente  temos  aqui  material  para  longo 
debate.  Mas.  imediatamente,  como  ficam  as 
relações  dos  demais  grupos  com  o  Somos-SP? 
Pretensão  minha  ter  resposta  para  esta  pergunta. 
Como  membro  do  Somos-RJ  acho  recomendável 
uma  atitude  prudente,  de  escuta,  em  relação  a  es¬ 
te  Somos  Convergente.  As  idéias  dentro  de  qual¬ 
quer  movimento  tomam  corpo,  tornam-se  ação. 
Eu  me  vejo  aliado  a  este  novo  Somos  enquanto 
seus  atos  forem  marcados  pelo  timbre  da  luta 
homossexual.  Fica  aqui  meu  voto  para  que  o 
Somos-SP  não  reedite  entre  nós  o  papel  de  depar¬ 
tamentos  femininos  dos  diversos  partidos  e  sin¬ 
dicatos  dentro  docenário  feminista."  Eduardo 
Guimarães. 


Escolha 
Seu  Grupo 

TERCEIRO  ATO/BH  —  Çafra 
Postal,  1.720,  CEP  30.000,  Belo 
Horizonte,  MG. 

GRUPO  GAY  DA  BAHIA  — 
Caixa  Postal  2.552,  CEP  40.000, 
Salvador,  BA. 

Grupo  de  SANTO  ANDRÉ  — 
(em  formação)  Caixa  Postal  426, 
CEP  09.000,  Santo  André,  SP.  (a/c 
Carlos  Roberto). 

BEIJO  LIVRE/Brasília —  Caixa 
Postal  070.812,  CEP  70.000,  Bra¬ 
sília,  DF. 

SOMOS/RJ  —  Caixa  Postal 
3.356,  CEP  20.100,  Rio  de  Janeiro, 
RJ. 

AUÊ/RJ  —  Caixa  Postal 
16.218/25.029  ou  65.022,  CEP 
20.000,  Rio  de  Janeiro,  RJ. 

GRUPO  LÊS  B  ICO  -FE  M I  - 
NISTA/SP  —  Endereço  Provisório: 
Caixa  Postal  22.196,  CEP  01.000, 
São  Paulo,  SP.  (a/c  Teca) 

GRUPO  SOMOS  DE  AFIR¬ 
MAÇÃO  HOMOSSEXUAL/SP  - 

Caixa  Postal  22.196,  CEP  01.000; 
São  Paulo,  SP. 

EROS/SP  —  Caixa  Po6tal  5.140. 
CEP  1.000,  São  Paulo,  SP 

SOMOS/Sorocaba  —  Rua  Fuad 
Bachir  Abdala,  53/31,  CEP  18.100, 
Sorocaba,  São  Paulo. 

LIBERTOS/Guarulhos  —  Rua 
Cabo  António  P.  da  Silva,  481,  Jar¬ 
dim  Tranqüilidade,  CEP  07.000, 
Guarulhos,  São  Paulo  (a/c  Osvaldo 
Izidoro) 

Atenção  turma  de  Pernambuco: 
A  libertária  Irineide  está  organizan¬ 
do  um  grupo  por  estas  bandas.  Para 
entrar  em  contato  com  ela  basta  es¬ 
crever  para  Rua  Pedro  Melo,  591  - 
San  Martin  -  50.000  -  Recife. 


Ar.inti* 


»  riTviN.  j  i 'At:*  e  Jwr  .üví«,i' qinCw 

-■|Gi  tiiru1  St  \ rt/inb  azaor»  v 


3b  orno,  n:*,  vj.r.vuo*)  A>n*tp 


.  .  .......  «■  . . '  » 

;  LAMPIÃO  daEsqui  na 

wri  ofVA.VHrtwv.;- 


★  ★ 

APPAD* 


a  s  s  o  c i a  ç  a  o  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


|  ATIVISMO  \ 


\ 


Troca 

ajouja 


VOCÊ  irm  menos  de  30  anos,  é  introver¬ 
tido  e  quer  corresponder-se  para  relacionar- 
se,  etc.,  com  alguém  independente?  Entioes- 
creva-me.  Tenho  1,64m,  68  kg,  sou  moreno- 
daro,  43  anos.  Severino  G.  da  Silva.  Rua 
Conselheiro  Nébias,  361,  4.°  andar.  apto.  43. 
CEP  01203  Séo  Paulo,  SP. 

PROFESSORA,  nivel  universitário, 
cabelos  e  olhos  castanhos,  32  anos,  definida, 
procura  amigas  Inteligentes,  adultas  (de  idade 
ou  mente),  femininas.  A.C.  Caixa  Postal  352, 
Santa  Maria.  CEP  97100  RS. 

I  AM  traveling  to  Bogotá,  Quito,  lquitos. 
Lima,  Cuzco,  Santiago,  Buenos  Aires,  lguas- 
su  Falis  and  Rio  de  Jáneiro,  September  20  to 
October  11.  I  would  love  to  ha  ve  some  pen 
pais,  in  or  near  these  clties.  1  am  29  years,  5 
fcet  10  1/2  inches  tall,  153  pounds,  blonde 
hair,  blue  eyes.  I  only  speak  english  and  very 
Uttle  spanish.  BiU  Matthias,  5236  “A”  Cleon 
Avenue,  North  Hollywood,  Califórnia,  USA. 

SEMI-ALFABETIZADO  (curso  do 
Mobral)  de  50  anos.  relativamente  feio,  baixo 
e  mancando  de  uma  perna,  90  quilos,  amante 
em  músicas  de  tango  e  bolero,  e  na  literatura 
de  J» é  Mauro  de  Vasconcelos  (Meu  Pé  de 
Laranja  lima),  procura  companheiro  domes- 
mo  nivel  de  fealdade,  inclusive  de  cor  esver¬ 
deada  (que  na  carteira  de  identidade  chama- 
se  "parda”)  como  de.  Paulinho  Amarante. 
Caixa  Postal  2476,  Odade  de  Deus,  Rio. 

UNIVERSITÁRIO,  23  anos,  bonito, 
moreno-claro,  l,77m,  discreto,  deseja  trocar 
cartas  com  rapazes  de  18  a  30  anos  para 
amizade  sincera  e  algo  mais.  JMS.  Caixa  Pos¬ 
tal  572.  CEP  36. 100  Juiz  de  Fora,  MG. 

PARAIBANO,  desejo  fazer  amizade  com 
o  que  pintar,  independente  de  preconceitos  e 
outras  fri oleiras.  Me  escrevam,  gente.  Joio. 
Rua  Vigário  Virginio,  363,  Campina  Grande, 
ftrafca. 

DESEJO  corresponder-me  com  rapazes  e 
moças  entendidos  de  todo  o  Brasil,  espedal- 
mentc  do  Rio  e  Belò.  29  anos,  l,76m,  7<fcg, 
moreno,  nivel  universitário.  Prefiro  pessoas 
discretas,  até  40  anqs.  A.E.  Caixa  Postal 
1423,  30000 Belo  Horizonte,  MG. 

•  JOVEM  universitário,  mignon,  bonita, 
bissexual,  24  anos,  quer  corresponder -se  com 
outras  bissexuais.  Peço  carta  franca  c  desi¬ 
nibida  e  foto,  que  será  devolvida  com  a 
minha.  CVC.  Caixa  Postal  12055.  CEP  22020 
Rio. 

ACADÊMICO  de  engenharia,  21  anos, 
descendência  germânica,  l,82m.  quer  corres - 
ponder-se  com  jovens  de  toda  a  parte,  dos  20 
aos  40  anos.  Stefano  Koing,  Rua  7  de  Setem¬ 
bro,  1.535.  CEP  89. 100  Blumenau,  SC. 

ESTUDANTE,  21  anos,  l,77m,  70kg, 
olhos  verdes,  cabelos  claros,  apaixonado  por 
música  e  pintura.  Quero  me  corresponder 
com  gueis  de  todo  o  Brasil.  Beto.  Caixa  Postal 
221%.  CEP  0.  lOOOSâo  Paulo,  SP. 

GAÚCHO,  23  anos.  l,72m,  62  kg,  gosto 
de  política,  futebol  e  música  nadonal.  Desejo 
corresponder -me  com  pessoas  inteligentes  do 
mundo  gay.  Fradique.  Caixa  Postal  895. 
CEP  90.000 Porto  Alegre,  RS. 

ESTUDANTE  de  Adm.  de  Empresas,  25 
anos,  gordinho,  l,79m,  deseja  conhecer  gente 
e  amigos  com  desinteresse  ou  interesse  em 
transas  de  cuca  e  corpo.  Gordon  Rua  Braga, 
168,  Penha,  CEP  21.011  Rio  de  Janeiro. 

CARIOCA,  bancária,  procura  amizade 
sincera  através  de  suas  correspondentes. 
Aguardo  a  sua  cartinha,  se  possível.  Girl 
Mary.  Caixa  Postal  04269.  CEP  70.000 
BRASlUA,  DF. 

UTILIDADE 

A  partir  dette  número  LAMPIÃO  oferece 
um  novo  serviço  aos  seus  Idtoresi  em  UTI¬ 
LIDADE  publicaremos  anúndos  de  pessoas 
que  estejam  à  procura  de  emprego,  ou  ofe¬ 
recendo  empregos  a  homossexuais.  No  pri¬ 
meiro  caso,  o  anúncio  será  publicado  gra- 
tultamente.  No  segundo,  será  cobrada  uma 
taxa  mínimas  Ci4  120,00,  e  o  anúncio  nào 
poderá  ultrapassar  um  total  de  20  palavras. 
Sò  excepdonalmeate  é  que  oferecemos  a  caixa 
postal  de  LAMPIÃO  ao  primeiro  anundante 
(vide  abaixo).  Isso  nào  mais  se  repetirá. 

GARÇON  —  oferece» se.  Restaurante  ou 
resldènda.  Jovem,  boa  apartada,  experiência 
e  referências.  Cartas  com  propostas  para  a 
caixa  postai  dtatefomaL  , 


LAMPIÃO  da  Esquina 


Por  uma  política  menor:  bichas 
e  lésbicas  inauguram  a  utopia 


aos  seres  que  ousam,  ousaram  e  ousarão 

(com  Copyright  para  Ângela  Ro-Ro) 

Se  cu  for  pensar  em  termos  do  possível,  nós 
dos  chamados  movimentos  minoritários  temos 
nâo  apenas  condições  de  transformar  a  sociedade 
como  podemos  realizar  essa  transformação 
através  de  formas  políticas  alternativas  e  trans¬ 
gressoras,  por  nós  inauguradas.  Acredito  que  isso 
só  será  possivel  mediante  uma  profunda  crítica 
aos  partidos  políticos  tais  como  existem  em  nossas 
democracias  burguesas  e  cujos  modelos  são 
basicamente  copiados  pelos  grupos  socialistas  que 
disputam  o  poder. 

Existem  diferenças  básicas  entre  nós  e  os  par¬ 
tidos  políticos.  Estes  se  organizam  para  conquis¬ 
tar  o  poder,  falando,  inclusive  em  nome  de  outras 
classes,  como  ventríloquos.  Em  contrapartida, 
numa  práxis  política  homossexual  (parte  de  uma 
política  de  grupos  discriminados)  falaremos  em 
nome  de  nós  mesmos  do  nosso  quotidiano,  oom 
um  posicionamento  contra  o  poder.  Para  isso  nâo 
existem  receitas,  mas  apenas  sugestões,  já  que  as 
novas  formas  estão  apenas  sendo  inauguradas. 
Ora,  só  é  possivel  iniciar  o  novo  se  o  aceitarmos 
como  possivel.  Desse  nada  é  que  nascerá  nossa 
política  original:  da  crítica  permanente  ao  poder  e 
também  aos  críticos  institucionalizados  do  poder . 

Para  mim,  política  alternativa  é  forma  de 
práxis  fora  dos  quadros  partidários  e  para  além 
do  mero  jogo  de  disputa  de  poder.  Em  outras 
palavras,  um  movimento  homossexual  realmente 
autônomo  estaria  buscando  contrapor -se  ao  an¬ 
tiquado  estilo  de  agremiação  partidária  que  nos  é 
apresentado  como  única  alternativa  de  partici¬ 
pação  política  de  esquerda.  Seguindo  por  aí, 
acabaremos  por  rediscutir,  inclusive,  o  conceito 
oomonte  de  democracia,  criticando  esses  mecanis¬ 
mos  de  persuasão  que  levam  uma  determinada 
atitude  a  se  tornar  padrão  da  maioria.  Ou  seja, 
iremos  descobrir  que .  por  detrás  do  "aparato 
democrático"  existe  a  manipulação  nada  de¬ 
mocrática,  na  medida  que  os  donos  do  poder  sflo 
também  donos  do  aparato.  Além  disso,  parece- 
me  cada  vez  mais  inaceitável  uma  forma  de  con¬ 
senso  em  torno  d«  um  porgrama  partidário  que, 
por  ser  universal  e  definitivo,  passa  a  se  rotular  de 
“democrático".  Seria  preferível  optar  por  pe¬ 
quenos  consensos  em  torno  de  programas  de 


grupos  específicos,  onde  a  rede  política  se  teceria 
num  amplo  quadro  social  de  solidariedade  entre 
os  diversos  discriminados  —  resguardadas  todas 
as  diferenças  fundamentais  que  um  programa 
universal  tende  a  nivelar.  Assim  se  evitaria  um 
consenso  que  na  realidade  acaba  sendo  uma 
ditadura  da  suposta  maioria. 

CONTRA  O  PODER,  CONTRA  A  NORMA¬ 
LIDADE 

O  que  seria  estar  contra  o  poder?  Acho  que  é 
estar  mais  preocupado  com  a  forma  de  fazer 
política  do  que  propriamente  còm  rígidos  ob¬ 
jetivos  estabelecidos  a  partir  de  manuais  revo¬ 
lucionários.  Ou  seja:  as  novas  formas  de  práxis  e 
questionamento  começarão  pela  discussão  das 
velhas  formas  políticas  presentes  dentro  de  nossas 
cabeças,  tâo  velhas  quanto  as  de  nossos  pais,  an¬ 
cestrais.  Elas  sâo  formadas  dentro  dos  mesmos 
padrões  de  competição,  normalidade  e  conquista, 
típicos  de  uma  civilização  assentada  sobre  o  falo, 
o  Patriarca.  Nossa  politica  é  patriarcal,  vale 
dizer,  estruturada  sobre  o  culto  ao  Herói,  ao 
Líder,  ao  Santo,  à  Normalidade  — contrapondo- 
se  ao  que  seria  então  a  Mentira,  o  Demônio,  o 
Bandido,  o  Dissidente.  Em  nossa  práxis,  o  pa- 
triarcado  precisa  ser  mais  frequentemente  apon¬ 
tado  como  componente  básico  tanto  de  nossas 
culturas  quanto  de  nosso  ‘Tnilitantismo  socialis¬ 
ta."  É  isso  ai:  vivemos  afogados  na  militância, 
que  implica  num  fazer  militarizado,  através  do 
qual  procuramos  vender  nosso  peixe,  impor  nos¬ 
sas  idéias  “novas"  e  com  isso  chegar  aos  centros 
decisórios  do  poder.  Pois  é:  vivemos  como  sol¬ 
dados  que  lutam  em  favor  de  Causas  Santas,  de 
Verdades. 

Ora,  se  consideramos  que  somos  os  herejes  da 
ordem  consagrada,  conclui-se  que  dessa  maneira 
estamos  apenas  transformando  nossas  heresias 
em  novos  dogmas,  em  nova  ortodoxia,  e  utilizan¬ 
do  os  modelos  de  opressão  sofrida  por  nós,  para 
continuar  oprimindo.  Lembro  o  exemplo  ame¬ 
ricano:  as  bichas  de  San  Francisco  expulsaram  os 
negros  e  chicanos  dos  seus  bairros  que  se  tor¬ 
naram  chiques,  com  aluguéis  proibitivos.  Só 
evitaremos  reproduzir  o  gesto  do  opressor  se  nos¬ 
sa  práxis  deixar  de  lado  um  ativismo  que,  por  ser 
mecânico  e  compulsivo,  acaba  sendo  conformista. 
Quer  dizer  :  se  nossa  práxis  deixar  de  ser  uma  for¬ 


ma  de  sublimar  nossos  desejos.  E  se  deixar  o 
desejo  Homossexual  aflorar  com  seu  potencial 
subversor. 

Para  questionar  o  militantismo  sizudo,  temos 
nas  mãos,  ao  menos  potencialmente,  fatores 
inegáveis  como  a  cama  e  suas  variantes,  esse  es¬ 
paço  para  o  nosso  desejo.  E  entenda-se  por  cama 
tudo  o  que  esteja  relacionado  com  prazer,  corpo, 
sexualidade,  quotidiano,  nível  pessoal,  etc.  Por 
ser  lúdica,  gratuita,  irresponsável  e  farta  em  in¬ 
venções,  a  cama  pode  relativizar  o  poder.  É  ver¬ 
dade  que  frequentemente  o  poder  relativiza  a 
cama,  sempre  que  esquecemos  nossa  sexualidade 
em  favor  da  militância  sobre  sexualidade.  E  no 
entanto,  a  melhor  maneira  de  afirmar  nosso 
direito  ao  prazer  é  fazendo  boa  cama,  contra  a 
chatice  de  nossos  discursos  militantes.  Não 
poderia  ser  essa  uma  das  nossas  contribuições, 
em  termos  de  práxis  politica?  Uma  forma  subver- 
sora  e  herética,  na  medida  que  estaremos  mis¬ 
turando  elementos  desconcertantes  e  criando 
misturas  novas?  Subverter:  colocar  no  lugar 
“errado"  as  coisas  certas,  evitando  a  recuperação 
ideológica  da  cama.  Pois  a  cama  tem  um  mistério 
que  é  exatamente  aquela  característica  das  lin¬ 
guagens  nào-discursivas;  por  ser  imprevisível,  ela 


O  LAMPIÃO  não  estft  ligado  a 
nenhum  grupo  homossexual  es¬ 
pecialmente.  O  LAMPIÃO  não  tem 
qualquer  ligação  com  nenhum  grupo 
político.  O  LAMPIÃO  està  vital- 
mente  interessado  no  surgimento  de 
grupos  homossexuais  e,  como  tal, 
disposto  a  abrir  espaço,  em  suas 
páginas,  para  todos  eles.  Nestes 
casos,  no  entanto,  mais  que  o  ativis¬ 
mo,  o  jornal  se  preocupa  com  o  in¬ 
teresse  jornalístico  do  material  en¬ 
viado  por  estes  grupos.  O  LAMPIÃO 
fe,  acima  de  tudo,  um  jornal  de 
minorias  e  não  um  boletim  do  ativis¬ 
mo  homossexual. 


Página  9 


% 


★★ 

APPAD* 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade  ^ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


lATIVISMO  1 


fantasias  engolidas,  Estamos  misturando  in¬ 
gredientes  pouco  usuais.  Nossos. 

O  PARAÍSO  ACABOU.  VIVA  A  UTOPIA 

Direitas  e  esquerdas  do  sistema  estão  queren¬ 
do  tornar-nos  consumidores  de  homossexualismo, 
e  com  isso  recuperar-nos.  Trata-se  de  uma  forma 
de  nos  iludir  com  o  poder  e  neutralizar  o  potencial 
subversor.  A  única  maneira  de  garantir  nossa 
subversão  e  impossibilitar  essa  recuperação  é  ser 
cada  vez  mais  viado  c  sapatona,  portanto  mais 
malditos  e  menos  cobiçáveis  por  todas  as  formas 
de  poder  (ordem),  do  tipo  partidos,  publicidade, 
familia,  midia.  Quanto  mais  aprofundarmos  nos¬ 
sas  diferenças  com  a  normalidade  instituída  (a 
sociedade  heterossexual  compulsória),  tanto  mais 
difícil  será  nos  digerir.  E  tanto  maior  será  nossa 
capacidade  de  virar  a  mesa. 

“A  luta  contra  o  poder  é  a  luta  da  memória 
contra  o  esquecimento”.  Se  é  que  nestes  anos  80 
aprendemos  a  ter  memória,  que  se  mantenha  vivo 
nosso  desencanto  com  os  Ídolos.  Tentemos  nâo 
recriar  heróis,  nâo  copiar  modelos  ou  inaugurar 
outros  santes,  quer  sejam  o  Travesti  Mártir,  o 
Viado  Padrão  ou  a  Grande  Sacerdotisa  Lésbica. 
Evitar  o  equivoco  das  novas  promessas  em  cima 
de  objetivos  antigos;  desaprender  os  manuais  que 
dividem  o  mundo  em  bandidos(as)  e  mocinho- 
s(as).  Se  a  sociedade  de  classes  nos  enche  de  con¬ 
tradições,  nâo  é  em  nome  dela  que  manteremos 
promessas  de  paraíso.  O  paraíso  nâo  existe  por¬ 
que  nele  tudo  está  resolvido.  E  o  mundo  real  é 
delicioso  exatamente  por  ser  inesgotável  em 
desafiot^-wípífa  sempre  as  teorias  e  exige  que 
nossas  cabeças  inventem.  PARAÍSO  x  UTO¬ 
PIA.  Botar  a  cabeça  em  altissima  velocidade, 
para  inventar  ao  máximo  o  possível,  a  utopia. 

Se  for  preciso  terminar,  introduzo  o  desejo 
contundente:  Senhores  Juizes,  vossa  mediocri¬ 
dade  amaldiçoou  as  diferenças  e  arquitetou  a 
loucura.  Meu  delírio  é  que  sou  apenas  o  universo 
do  meu  eu,  minha  única  legítima  propriedade.  E 
vossa  condenação  não  chega  até  lá,  graças  às 
deusas.  (JoáoSilvério Trtvisan) 


>  I 


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I 


Página  10  ’•  •  ...  LAMPIÃO  da  Esquina 


Biblioteca  Universal  Guei 

- - - -  ■  ■■  . .  ,  A.  - —  -- 

Estes  livros  falam  de  você:  suas  paixões  e 
problemas,  suas  alegrias  e  tormentos.  Leia-os. 


O  DIGNO  DO  HOMEM 
Paulo  Hrcker  Filho 

72  páginas,  ai  1.000,00 
Um  livro rabelaisiano,  sem  igual  no  Brasil, 
na  sua  vertigem  erótico- quixotesca.  Publicado 
cm  1957,  é  uma  antevisão  das  viagens  psi- 
codélicas.  Edição  especial  do  autor,  em  papel 
de  luxo,  de  apenas  200  exemplares.  Estamos 
vendendo  os  últimos  exemplares. 

INTERNATO 
Paulo  Hecker  Filho 
72 páginas.  OS  200,00 
A  história  de  um  grande  amor  homos¬ 
sexual  adolescente.  A  novela,  publicada  em 
1951,  é  pioneira  no  tema,  na  Brasil,  Paulo 
Hecker  Filho,  escritor  gaúcho,  estreou  na 
literatura  aos  22 anos.  “Internato"  é  a  terceira 
obra  do  autor,  que  escandalizou  a  pacata  in- 
telligentsia  nacional  da  época. 

TEOREMAMBO 
Darcy  Penteado 

108  páginas,  Cr$  120,00 
Um  Papai  Nocl  muito  louco,  uma  bi¬ 
chinha  sorveteira,  uma  fada  madrinha  des¬ 
ligada.  a  história  do  bofe  a  prazo  fixa  muito 
humor  e  non  sense  no  novo  livro  do  autor  de  A 
Meta  e  Oescilda  e  Espartanos. 

A  META 
Darcy  Penteado 

99 páginas,  QJ  120,00 
"Darcy  Penteado  ilumina  detalhes  do 
gueto  que  a  maioria  gostaria  que  o  homos¬ 
sexual  fosse  circunscrito"  (Léo  Gi  son  Ri¬ 
beiro).  O  livro  de  estréia  de  um  escritor  que  é 
também  um  ativista  em  favor  dos  grupos  es¬ 
tigmatizados. 

CRESCILDA  E  ESPARTANOS 
Darcy  Penteado 

189páginas,  Q$  140,00 
"Como  este,  que  fafa  tudo  aberta  e  de¬ 
safiantemente,  possui  a  dignidade  bem  mais 
culturamente  verdadeira  de  resistir  aos  bár¬ 
baros  preconceitos”  (Paulo  Hecker  Filho)  — 
Duas  novelas  e  cinco  contos,  do  total  non  i«- 
se  ao  realismo  poético. 


MULHERES  DA  VIDA 
Vários  autores 

77  páginas,  CrS  100,00 
Norma  BengelI,  Leila  Míccolis,  Isabel 
Câmara.  Socorro  Trindad  e  outras  mulheres 
quentíssimas  mostram  neste  livro  a  nova 
poesia  das  mulheres  que  nào  se  conformam 
com  a  pressão  machista  e  tenta  inventar  sua 
própria  linguagem.  A  poesia  feita  nos  bares, 
calçadas,  ônibus,  boates,  prisões,  manicômios 
e  bordéis. 

O  CRIME  ANTES  DA  FESTA 
Agulnaldo  Silva 

136  páginas,  CrS  100,00 
Através  da  história  de  Ângela  Diniz  e  seus 
amigos,  que  ele  trata  como  se  fosse  ficção,  o 
autor  interpreta  e  esclarece  todas  as  cono¬ 
tações  de  um  instante  dramático  de  nossa  alta 
sociedade.  Um  libelo  contra  o  machismo  e  a 
opressão. 

PRIMEIRA  CARTA  AOS  ANDRÓ¬ 
GINOS 

Aguinaldo  Silva 

134páginas,  QJ  120,00 
“A  única  maneira  de  obter  a  igualdade  e  o 
progresso  nos  relacionamentos  humanos  e 
amorosos  consiste  na  expressão  franca  da 
batureza  bissexual  de  todo  homem  e  mulher." 

NO  PAlS  DAS  SOMBRAS 
Aguinaldo  Silva 

97  páginas,  QS  120,00 
Dois  soldados  portugueses  vivem  um  gran  - 
de  amor  em  pleno  Brasil  colonial,  envolvidos 
numa  conspiração  forjada,  acabam  na  forca. 
A  história  recontada  a  partir  de  19684  faz  um 
levantamento  de  quatro  séculos  de  repressão. 

REPÚBLICA  DOS  ASSASSINOS 
Agulnaldo  Silva 

157  páginas,  a$  150,00 
Bichas,  piranhas  e  pivetes  enfrentam  o  Es¬ 
quadrão  da  Morte  (e  vencem!).  A  incrível  his¬ 
tória  de  um  dos  períodos  mais  conturbados  da 
vida  brasileira,  de  1969  à  1975,  tendo  como 


pano  de  fundo,  os  cenários  do  submundo 
carioca. 

SHJKLEY 
Leopoldo  Se  mm 

95  páginas,  110,00 

A  história  de  amor  entre  um  travesti  da 
noite  paulista  e  um  operário  de  Cubatâo.  Wal- 
dir/Shirley  é  um  personagem  que  aceita  en¬ 
frentar  todas  as  humilhações  para  ser  fiel  ao 
seu  desejo.  Dois  seres  humanos,  coisificados 
pela  opressão,  brigam  pela  vida. 

COMPANHEIRO 
Walker  Luna 

100  páginas,  ai  150,00 
"Nào  é  bem  este  tipo  de  amor  que  atinge  a 
tantos."  Publicado  em  1979,  os  poemas  de 
Walker  Luna  traduzem  sua  vocação  de  poeta 
confessional,  que  tem  o  poder  de  dizer  o  que 
apenas  se  advinha  e  de  advinhar  o  que  nâo  se 
ousa  dizer  como  homem  e  como  amante . 

SEXO  A  PODER 
Vários  autores 
21 8  páginas,  ai  150,00 
Jean-Claude  Bernadet,  Aguinaldo  Silva, 
Maria  Rita  Kchl,  Guido  Mantega,  Flávio 
Aguiar  e  muitos  outros  discutem  as  relações 
entre  sexo  e  poder.  Dois  debates:  um  sobre 
homossexualidade  e  repressão,  com  o  grupo 
•SOMOS/SP. 

TESTAMENTO  DE  JÔNATAS  DEIXADO 
A  DAVI 

João  SUvério  Tre  visan 

139  páginas,  aS  120,00 
Uma  viagem  do  autor  em  busca  de  si  mes¬ 
mo.  Anos  de  estrada  de  solidão  e  fome  assu¬ 
midos  num  livro  escrito  com  suor  e  sangue:  nes¬ 
tes  contos,  a  história  de  uma  geração  cujos 
sonhos  foram  queimados  lentamente  em  praça 
pública. 

QUEDA  DE  BRAÇO 
Vários  autores 

302páginas,aS  150,00 
Uma  antologia  de  conto  marginal,  reunindo 
os  autores  que  os  editores  tém  medo  de  pu¬ 


blicar.  Gente  finíssima:  Benlcio  Medeiros,  Fer¬ 
nando  Tatagiba,  Glauco  Mattoso,  Júlio  Césarl 
Monteiro  Martins,  Nilton  Maciel,  Luiz  Fernan-I 
do  Emediato,  Paulo  Augustoe  Reinoldo  Atem,| 
entre  outros. 

OS  SOLTEIRÕES 
Gaspar!  no  Dam  ata 
21 3  páginas.  a$  140,00 
Um  livro  que  se  dispõe  a  esmiuçar  o  mundo  I 
dos  homossexuais  e  tudo  o  que  os  tolhe:  a  in¬ 
compreensão  que  os  cerca,  o  medo.  Escrito  sem 
meias  palavras,  ele  vai  buscar  a  linguagem  dos  ] 
seus  personagens  lá  onde  o  autor  os  encontrou. 

A  TRAGÉDIA  DA  MI  NHA  VIDA 
Oscar  Wilde 
194 páginas,  OS  85,00 
O  famoso  depoimento  de  Oscar  Wilde  sobre  I 
sua  vida  na  prisão,  onde  cumpriu  dois  anos  de 
pena,  condenado  pela  justiça  inglesa  pelo  crime 
de  HOMOSSEXUALISMO.  Um  livro  em  que 
Wilde  acusa  e  se  defende,  envolto  pela  solidão  | 
das  prisões  e  marcado  pelo  sofrimento. 

extra/lampiAó  N?  1 

Entre  vistas 

24  páginas,  a$  40,00 
As  mais  explosivas  entrevistas  sobre 
política  sexual  já  feitas  no  Brasil:  Fernando 
Gabeira,  Ney  Matogrosso,  Leci  Brandão  c 
Godovil  falam  do  sexo  e  política.  Abdias  Nas¬ 
cimento  fala  de  racismo,  discriminação  e 
ativismo  negro.  Anselmo  Vasconcelos  conta 
como  criou  “Eloina"  do  filme  "República  dos 
Assassinos".  Antônio  Calmon  explica  o  seu 
cinema  sado  —  masoquista  —  entendido,  e 
Dartene  Glória  fala  de  Deus  e  do  Diabo. 

Eacolha  os  que  você  quer  ler  e  faça  seu 

pedido  pelo  reembolso  postal  à  Esquina  _ 

Editora  de  Livros,  Jornais  e  Revistas  Lida - 

Caixa  Postal  41031,  CEP  20400,  Rio  de 
Janeiro,  RJ. 

Se  vocé  pedir  mais  de  trés  livros  receberá 
como  brinde,  inteiramente  grátis,  um  exem¬ 
plar  de  EXTRA /IAMP1ÁO  N.°  1 


Preferimos  o  menor, 
o  individual, 
o  infinitamente 
enpecifico:  só  atingiremos 
o  todo  se 
partirmos  da 
partícula  menor 


tem  uma  linguagem  nâo-codificável,  a  ser 
abraçada  mais  do  que  decifrada.  De  tal  modo  que 
os  manuais  de  política  dificilmente  conseguirão 
penetrar  esse  recanto  onde  as  individualidades  se 
cruzam  melhor,  sem  justificativas  nem  receitas. 

O  MAIS  ABRANGENTE  SERÁ 
O  MAIS  ESPECÍFICO 

At)  rclativizar  dessa  maneira  o  poder,  esta¬ 
remos  contribuindo  para  destruir  esquemas 
patriarcais  substanciados  na  busca  compulsiva  da 
disciplina,  da  normalidade,  do  científico.  E  como 
relativizar  o  poder?  Com  a  afirmação  de  nossa 
"anormalidade",  ambigüidade,  creatividade. 
Com  nosso  rechaço  aos  CENTROS  decisórios  on¬ 
de  se  concentra  o  poder.  É  que  nossa  significação 
se  encontra  mesmo  na  margem.  Por  isso,  nada  é 
maior  e  prioritário  para  nós.  Preferimos  o  menor, 
o  individual,  o  infmitamente  especifico:  só  atin¬ 
giremos  o  todo  se  partimos  da- partícula  menor,  a 
mais  individualizada,  onde  a  espécie  está  se 
refletindo,  criando  raizes  (não  é  mesmo, 
Emanoel?).  Isso  eu  chamo  de  POLÍTICA  ME¬ 
NOR. 

E  dir£o:  que  programa  pretensioso.  UTÓ¬ 
PICO.  Sim,  se  quiserem  saber,  somos  filhos  de 
ninguém,  enxotados  de  Cuba  e  dos  Estados 
Unidos.  E,  como  órfãos,  habitamos  a  UTOPIA, 
terra  dos  sonhos  possíveis.  Porque  nós  os  mi¬ 


nimizados  nâo  temos  outras  chances.  Ou  esco¬ 
lhemos  o  novo,  ou  morremos  no  mesmo  túmulo 
dos  conchavos  e  competições.  Tentar  outros 
parâmetros,  ali  onde  eles  são  inesperados  e  am¬ 
bíguos  —  uma  grande  surubg  para  solucionar 
uma  grande  briga.  Desconcertar  para  investir 
contra  p  poder  que  criou  essa  ÓRDEM.  Opor -se  a 
uma  política  manobrista,  baseada  em  hege¬ 
monias,  inclusive  da  classe  proletária.  Recado:  a 
classe  operária  é  sim  um  dos  agentes  de  transfor¬ 
mação  social  —  no  caso,  ela  impulsiona  a  trans¬ 
formação  econômica.  Mas  como  não  aceitamos  o 
pressuposto  de  que  a  transformação  econômica 
seja  a  única,  nâo  queremos  a  hegemonia  de  uma 
suposta  classe  revolucionária.  Porque  inclusive 
trata-se  ai  de  um  conceito  vago  que  os  intelec¬ 
tuais,  tecnocratas  e  cientistas  políticos  criaram 
para,  dizendo-se  representantes  da  sacralizada 
classe  operária,  legitimarem  o  seu  poder.  Não  foi 
o  que  aconteceu  na  Revolução  Soviética?  Um 
partido  se  apropriou  da  definição  de  proletariado 
e,  manipulando-a,  tomou  o  poder  e  se  apossou 
das  demais  definições;  então,  os  dirigentes  de¬ 
finem  como  louco  quem  divergir  deles.  Hoje,  seus 
sindicatos  sâo  apenas  novos  instrumentos  de  con¬ 
trole  social:  como  se  supõe  que  a  classe  proletária 
já  chegou  ao  paraíso,  operário  não  pode  recla¬ 
mar. 

Desmistificar  a  hegemonia  transformadora  do 
proletariado  significa  quebrar  os  limites  e  colocar 
como  agentes  de  transformação  também  os 
loucos,  os  velhos,  as  crianças,  a  luta  ecológica,  os 
índios,  os  negros,  os  homossexuais,  as  mulheres, 
as  pulas  —  enfim,  todos  aqueles  blocos  de  es¬ 
pecificidades  que  caminham  contra  a  corrente. 
Isso  irá  dificultar  as  formas  hegemônicas,  o  con¬ 
trole  do  poder  por  uns  poucos.  Pois  é  mais  fácil 
controlar  uma  classe  revolucionária  do  que  cen¬ 
tralizar  dezenas  de  blocos  de  transformação  e 
apossar-se  de  tantas  definições  divergentes.  Então 
quero  desafinar,  passar  os  parâmetros  da  política 
para  a  margem:  ficar  pelado  nas  reuniões  sérias, 
destampar  nossas  mais  recônditas  fantasias,  des- 
programar-nos  sexualmente  (a  promiscuidade 


como  elemento  subversor),  lutar  junto  com  as 
classes  proletárias  pelo  seu  direito  ao  prazer,  e 
não  apenas  ao  trabalho. 

oivÍdÍoRA  °  HERÔ1'  A  POES,A  00  ,N‘ 

Pensar  em  formas  subversoras  de  política  sig¬ 
nifica  subverter  a  própria  subversão,  aquela  que 
se  institucionalizou  dentro  e  fora  de  nós;  chega  de 
modernizar  o  discurso  das  esquerdas  patriarcais, 
que  buscam  recuperar  os  homossexuais,  às  causas 
partidárias.  Exercer  a  critica  aos  partidos  en¬ 
quanto  manipuladores  e  doutrinários,  agentes  de 
falsas  promessas  democrática' .  G>mo  crianças, 
balbuciar  de  novo  as  primeiras  palavras,  órfãos 
que  somos.  Não  há  salvação  no  herói /patrono, 
seja  ele  Lenin,  Trotsky,  Bakunin,  Papa  ou  Lula. 
Enquanto  transarmos  à  base  de  heróis,  haverá 
dogmas;  e  dogmas  exigem  militância,  cruzadas, 
guerras  pelo  poder. 

Contra  isso,  as  formas  de  realizar  UTOPIA 
talvez  se  encontrem  em  nós  mesmos:  desenvolver 
portanto  cada  um  de  nós,  com  nossas  mais 
profundas  especificidades  de  seres  únicos.  Partir 
de  nossas  individualidades  para  transformar  — 
porque  só  somos  verdadeiramente  proprietários 
de  nós  mesmos.  Dai,  ser  o  indivíduo  subversão  à 
vista:  nossa  infinita  variedade  impulsiona  uma 
invenção  contínua  e  exige  o  novo.  Então  esta¬ 
remos  colocando  imaginação,  mistério  e  ambi¬ 
guidade  na  política,  considerada  terreno  da  ciên¬ 
cia.  E  inseriremos  nosso  corpo,  cabeça,  conceitos, 
quotidiano,  a  loucura  de  cada  um  no  turbilhão 
das  transformações.  E  como  a  individualidade  é  o 
terreno  do  improvável,  estaremos  ãcJentrand*  o 
universo  da  poesia  onde,  ao  contrário  da  militân¬ 
cia,  tende-se  a  abolir  a  doutrina  e  a  normalidade. 
Resta  encontrar  nossa  perdida  poesia:  talvez  num 
vago  gesto  desmunhecado  ao  dobrar  a  esquina, 
no  bilhetinho  descabelado  de  paixão  abandônica, 
no  traje  cafona  da  bi chita  orgulhosa  de  estar 
falando  em  público,  na  peruca  velha  que  o  traves¬ 
ti  ganhou  (ou  roubou?)  da  patroa,  nos  fins  de 
semana  dormindo  em  grupo  como  as  lésbicas,  na 
fantasia  de  trepar  com  o  pai  ou  a  mãe,  nas  tantas 


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APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


|  FESTIM  f 


Homossexuais  de  toda  a  Europa  e  América  do 
Norte  participaram  em  Amsterdam,  entre  os  dias 
15  e  20  de  abril  passado,  do  ‘Mannen  Nietwaar" 
(Homem,  não  é  mesmo?),  um  festival  de  artes 
homossexuais  promovido  pelo  mais  antigo  grupo 
de  ativistas  da  Holanda,  o  Rode  Fllkken  (Bichas 
Vermelhas).  E  um  fato  curioso  que  envolveu  a 
realização  do  evento:  depois  de  muito  bate-pé  e 
choraj  ingos  os  organizadores  receberam  um 
auxilio  de  8. 500  dólares  do  governo  holandês  (17 
mil  florins). 

Durante  cinco  dias,  as  cinco  mil  pessoas  que 
tomaram  parte  da  vasta  programação  —  filmes, 
peças  teatrais,  recitais  de  poesia,  performances, 
shows  musicais  —  entre  homossexuais  e  heteros¬ 
sexuais,  colaboraram  conscientemente  ou  não, 
para  cumprir  com  o  objetivo  primeiro  pretendido 
pelos  Flikkers.  ou  seja,  a  desmistificação  do  ter¬ 
mo  ‘Ttomossexual”  sempre  ligado  a  idéia  de 
opressão. 

Mesmo  com  todo  o  alarde  feito  em  torno  do 
evento  —  alguns  jornais  holandeses,  como  o  do 
Partido  Comunista,  por  exemplo,  chegaram  a 
publicar  matérias  de  página  inteira  —  os  orga¬ 
nizadores  do  evento  não  se  deram  por  satisfeitos, 
já  que  algumas  das  metas  pretendidas  com  a 
realização  do  Mannen  Nietwaar  não  chegaram  a 
ser  concretizadas. 

Ruud  Plocgmakers,  da  comissão  organiza¬ 
dora  do  evento,  um  holandês  cortês,  como  todos 
os  seus  conterrâneos,  e  que  fala  fluentemente  o 
português  após  três  anos  de  estudos  de  nossa  lín¬ 
gua  na  Universidade  de  Amsterdam,  concordou 
em  receber  o  "Lampião"  logo  após  o  encerramen¬ 
to  do  evento,  e  falou  sobre  as  idéias  do  grupo  e  a 
questão  homossexual  em  seu  pais. 

Plogmakers  explicou  que  a  promoção  não  teve 
caráter  de  luta  política,  mas  sim,  foi  efetivada 
para  chamar  a  atenção  para  as  "nflo- verdades", 
que  têm  sido  responsáveis  pela  opressão  que 
acompanha  psicologicamente  indivíduos  do  mun¬ 
do  inteiro,  e  que  os  faz  assumir  a  posição  de 
‘Ttomossexual"  perante  a  sociedade. 

ARMA 


Para  isso,  os  Flíkkeri  se  utilizaram  da  síntese 
de  um  estudo,  considerado  "histórico",  e  que  vem 
sendo  desenvolvido  por  professores  c  alunos  da 
Universidade  de  Amsterdam,  a  pedido  da  revista 
Homotogle,  e  com  base  nas  idéias  de  Foucault: 
"A  homossexualidade  é  uma  viatura,  e  de  mais  a 
mais,  os  homens  rolam  rapidamente....'* 

"Ê  uma  teoria  relativista,  salientou  Ruud. 
através  da  qual  se  pretende  terminar  com  o  mito 
da  'homossexualidade  eterna,  comparando  os 
criadores  do  termo  "homossexualismo"  aos  en¬ 
genheiros  e  inventores  do  automóvel,  da  tampada 
elétrica  ou  do  avião." 

O  que  os  Roote  Fllkken  querem,  em  outras 
palavras,  após  realizarem  anos  de  estudos  e  pes¬ 
quisas  sobre  obras  de  autores  de  várias  nacio¬ 
nalidades  —  da  linha  de  Freud  á  Hirschfeld,  é 
mostrar  que  o  termo  'Tiomos sexual"  é  uma  in¬ 
venção  como  o  automóvel,  surgida  no  final  do 
século  passado,  e  cuja  tendência  com  o  decorrer 
dos  anos  é  de  "esvaziamento",  ou  desapareci¬ 
mento;  assim  como  aconteceu  com  o  uso  da 
"sodomia"  hoje  praticamente  esquecido  ao 
voc  a  bu  lário  cor  re  nt  e . 

O  tema  "A  Homossexualidade  e  a  Invenção 
do  Automóvel"  deveria  ter  se  constituído  como  a 
principal  atração  do  Mannen  Nietwaar.  En¬ 
tretanto,  as  dificuldades  financeiras  enfrentadas 
pelos  Fllkken  holandeses,  obrigaram-nos  a 
modificar  a  programação  original,  culminando 
com  a  suspensão  do  convite  a  ser  efetuado  À  vários 
escritores  e  estudiosos  europeus,  que  partici¬ 
pariam  de  um  painel  espositivo  sobre  o  assunto. 

Os  organizadores  do  evento  alegaram  que  a 
principal  causa  desse  insucesso  residiu  na  omis¬ 
são  do  governo  holandês  para  uma  promição  de 
tal  nível.  Há  um  ano,  desde  que  iniciaram  os 
preparativos,  os  Fllkken  vinham  pleiteando  uma 
considerável  verba  junto  ao  Tesouro  holandês,  da 
ordem  de  100.000  dólares  (200.000  florins). En¬ 
tretanto,  sempre  alegando  a  existência  de  uma 
crise  financeira,  o  governo  negou  e  auxilio,  cujo 
pedido  já  havia  sido  restringido  a  20  mil  dólares 
numa  segunda  tentativa.  Talvez  temendo  uipa 
desmoralização,  dois  dias  antes  do  inicio  do  Fes¬ 
tival,  um  alto  funcionário  do  Ministério  da  Fa¬ 
zenda  telefonou  aos  Fllkken,  confirmando  a  úl¬ 
tima  decisão  do  governo  —  dezessete  mil  florins 
(Cr  J  450  mil  aproximadamente). 

Nesta  luta,  os  FHkkeri  contaram  com  o  apoio 
do  parlamento  holandês,  especialmente  do  líder 
trabalhista  Voggd,  que  juntamente  com  outros 
deputados,  foi  um  dos  principais  incentivadores 
do  protesto  feito  pela  delegação  holandesa  junto  à 
Comissão  de  Direitos  Humanos  do  Parlamento 
Europeu  de  Strasbourg,  contra  a  discriminação 

LAMPIÃO  da  Esquina 


Amsterdã: 

Bichas 
Vermelhas 
Promovem 
a  Festa 


MÃO  HOUVE 
Re PttESSAO  DA 
PoUaA  NO 
PAVILHAO 

tfELKWBS. 

sAí 


da  legislação  da  América  do  Norte  ao  ingresso  de 
homossexuais  no  pais  como  imigrantes  O  fato  foi 
motivo  para  uma  manifestação  das  bichas  holan¬ 
desas  em  frente  à  Embaixada  Americana 
em  Amsterdam,  e  também  do  Parlamento  Eu¬ 
ropeu  junto  à  sede  das  Nações  Unidas  em  Ge¬ 
nebra. 

POSIÇÀO 


Os  Rooèe  Flikkers,  a  exemplo  de  outros 
grupos  de  homossexuais  holandeses,  possuem 
forte  influência  junto  ao  parlamento  holandês. 
Fundado  por  um  grupo  de  dez  dissidentes  do  an¬ 
tigo  CC  —  Culture  en  Anipannings  Centram 
(Shakespeare  Club,  fundado  em  1959),  era  con¬ 
siderado  até  há  pouco  como  um  dos  mais  radicais 
grupos  de  homossexuais  da  Holanda. 

Eles  foram  os  primeiros  a  levarem  as  bichas 
para  as  ruas  em  passeatas  de  protesto  contra  a 
repressão,  e  chegaram  a  ter  problemas  com  a 
política,  respondendo  com  êxito  a  um  processo 
judicial  numa  cidade  do  norte  do  pais.  Também 
foram  os  responsáveis,  durante  dois  anos;  pela 
publicação  de  um  jornal  intitulado  ‘Mletje  Plet- 
Je"  (tradução  equivalente  a  Pederastas  Traves- 
tidos,  nome  surgido  a  partir  da  forma  de  protesto 
público  que  promoviam,  e  termo  pejorativo 
utilizado  popularmente  para  os  homo  holan¬ 
deses). 

Segundo  Plogmakers,  hoje  os  homossexuais 
da  Holanda  estão  presentes  em  todos  os  setores  da 
sociedade,  e  todos  os  partidos  políticos,  incluin¬ 
do-se  o  Liberal,  que  é  o  partido  do  governo,  pos¬ 
suem  suas  facções  homossexuais  organizadas  .O 
O  Partido  Comunista  também  possui  o  seu  grupo 
homo. 


Para  a  divulgação  do  Mannen  Nietwaar,  por 
exemplo,  os  Flikkers  contaram  com  o  apoio  dos 
três  principais  jornais  do  pais,  incluindo-se  o  NR  - 
C-Handebblad  de  Rotterdam,  o  de  maior  cir¬ 
culação,  e  o  órgão  do  Partido  Comunista  Holan¬ 
dês. 

PROGRAMA 


Apesar  do  desfalque  na  programação,  o  Fes¬ 
tival  Mannen  Nietwaar  teve  atrativos  importan¬ 
tes,  como  a  apresentação  do  primeiro  filme  gay  do 
mundo,  rodado  em  1919,  sob  a  direção  de  Ri- 
chard  Oswald  e  a  participação,  como  ator,  do 
psiquiatra  e  autor  homossexual  Magnus  Hirs¬ 
chfeld.  O  empréstimo  desta  obra,  de  propriedade 
de  um  Museu  de  Berlim  Oriental,  foi  possível 
graças  ao  empenho  do  Ministério  dos  Assuntos 
Exteriores  da  Holanda  em  favor  dos  Flikkers. 

"Diferente  dos  Outros"  (Anders  Ais  Die  An¬ 
dem)  é  o  título  da  obra.  Foi  rodado  em  Berlim,  — 
considerado  o  laboratório  da  Europa  na  divul¬ 
gação  do  homossexualismo  no  início  do  século, 
com  o  objetivo  de  fazer  publicidade  em  torno  da 
questão,  e  para  mostrar  claramente  o  início  de 
um  processo  de  repressão  que  nasce  com  o  adven¬ 
to  das  idéias  nazis.  O  filme  é  mudo  e  tem  legen¬ 
das  em  ucraniano. 

Ele  conta  a  história  de  um  violinista  homo  que 
se  apaixona  por  um  aluno  e  acaba  por  suicidar-se, 
quando  sua  relação  é  descoberta  por  um  amigo 
que  passa  a  lhe  fazer  uma  série  de  chantagens. 
Seu  companheiro,  desolado,  tenta  igualmentc  o 
suicídio,  momento  em  que  entra  em  cena  o  doutor 
Hirschfeld  incentivando-o  a  usar  a  morte  de  seu 
companheiro  como  "bandeira  de  luta"  para 
divulgar  o  homossexualismo  e  colaborar  para  a 
sualibcçaçãç  pç  pais. 


Da  programação  de  filmes,  também  foi  «- 
presentada  uma  obra  de  Derek  Jarman  inti¬ 
tulada  Sebastianne,  com  narrativas  em  latim,  e 
que  tenta  provar  que  São  Sebastião  era  homos¬ 
sexual.  O  filme,  de  procedência  ngfcsa.  tc\e  ce> 
nas  rodadas  na  Sardenha  e  data  de  1976.  Jun¬ 
tamente  com  a  película  alemã  foi  um  dos  grandes 
sucessos  do  festival.  Apareceram  ainda  Nl- 
ghthawks,  de  Ron  Feck,  rodado  na  Inglaterra  em 
1978,  com  a  participação  de  Paul  Hallant;  Du  Er 
Ikke  AJene-Je  Bent  Niet  Allen,  obra  dinamar¬ 
quesa,  de  1978,  dirigida  por  Lasse  Nielsene  Ernst 
Johansen;  Tiergaerten,  •  de  Loihar  Lambert, 
rodado  em  Berlim  e  apresentado  em  avant- 
premiére,  e  Nous  fctions  Un  Seul  Homme,  de 
Philippc  Vai  lois,  rodado  na  França  em  1979. 

MÚSICA,  POESIA,  TEATRO  e  LITERA- 
TUA 

Na  área  musical,  ganharam  destaque  os  shows 
do  cantor  gay  francês  Laia,  que  já  participara  em 
1978  do  Festival  de  Filmes  Gays  "Gluren  in  Het 
Donker",  também  promovido  pelos  Fllkken  com 
a  apresentação  de  cerca  de  80  películas,  e  os  Sof- 
ties,  músicos  que  pertencem  ao  grupo  promotor 
do  evento,  e  que  apresentaram  um  musical  teatral 
intitulado  'Stad  Shock  Mannen". 

No  Teatro,  as  variedades  foram  muitas,  do 
sério  à  chanchada,  com  destaque  para  a  comédia 
do  escritor  belga  Conrad  de  Trez:  ‘Tante  Trouth 
uit  Bdhitc".  A  obra  de  Trez  é  bastante  conhecida 
na  Europa,  c  é  num  de  seus  livros  que  ele  conta  a 
descoberta  de  sua  homossexualidade  durante  um 
carnaval  no  Rio.  Robert  Paírick,  pivô  do  recente 
episódio  sobre  a  legislação  americana,  dirigiu  a 
peça  T-Shirts. 

Sobre  Patrick,  que  hoje  é  naturalizado  holan¬ 
dês.  sabe-se  que  foi  quem  protuoou  todo  o  protes¬ 
to  do  parlamento  europeu  junto  às  Nações 
Unidas,  já  citado  anteriormente.  Segundo  conta- 
se,  ele  dirigiu-se  a  Embaixada  Americana  na 
Holanda,  acompanhado  de  um  grande  número  de 
repórteres  dos  principais  jornais  do  pais,  e  exigiu 
um  visto  de  entrada  nos  Estados  Unidos  para 
visitar  familiares.  O  visto  foi  concedido  somente 
após  o  movimentado  protesto  que  envolveu  os 
políticos  holandeses.  . 

Voltando  ao  Mannen  Nietwaar,  bastante 
aplaudido?  ainda  pelo  público,  que  lotou  sempre 
as  salas  de  espetáculos,  o  étaw  de  Koos  Dalstra. 
holandês  que  relaciona  a  existência  dos  porcos  á 
dos  homens;  a  performance  do  israelense  Hezy 
t^Uu  fitar  Wairi..  onrlr  otiUca  o  &om  como 
símbolo  energético  numa  sala  totalmente  ás  es¬ 
curas,  e  o  trabalho  de  um  grupo  inglês,  que 
utilizando-se  do  público  como  cenário,  tenta 
mostrar  a  repressão  policial  em  Londres. 

Na  poesia  ganhou  destaque  a  obra  de  Kaváfis, 
declamada  por  homossexuais  holandeses.  Tam¬ 
bém  foi  promovida  una  noite  de  autógrafos,  com 
o  lançamento  da  primeira  coletânea  de  autores 
homossexuais  holandeses,  editada  pela  Uitgeverij 
Blaauw,  sob  a  coordenação  de  Gert  Hckma, 
membro  dos  Rooie  Flikkers.  A  obra  se  intitula 
Mannenmaat  —  Rekenboek  voor  jongens  zonder 
meis  jes  (Medida,  Homem  de  Um  Livro  de 
Matemática  para  moços  sem  moças),  e  reúne  18 
autores,  entre  contistas,  cronistas  e  poetas . 

Além  disso,  varias  Gayshopps  foram  insta¬ 
ladas  no  pavilhão  do  Melkweg,  onde  se  realizou  o 
evento,  com  a  venda  de  livros,  revistas,  decalcas, 
posters,  cartões  postais,  distintivos,  jornais, 
slides,  enfim,  todo  tipo  de  material  consumido 
pelos  participantes. 

Reduto  do  movimento underground  na  última 
década,  o  Melkweg  se  localiza  no  centro  de  Ams¬ 
terdam,  onde  antigameme  funcionava  uma  an¬ 
tiga  "usina  de  leite",  hoje  transformada  em  várias 
salas  de  espetáculos.  E  o  Mennen  Nietwaar,  ali 
realizado,  serviu  também  como  momento  de  con¬ 
fraternização  para  homossexuais  e  heterossexuais 
de  toda  a  Europa  c  América . 

No  recinto  desse  centro  de  artes  da  Praça 
Leidsplein,  onde  viu-se  todo  tipo  de  gente  —  do 
turista  alemão,  ao  hippei  decadente  ou  ás  bichas 
travestidas  —  muita  comida,  bebida,  dança  e 
frescura  rolou  nos  cinco  dias  de  festa  incessante. 
E  o  mais  importante  é  que  em  nenhum  momento 
se  notou  a  presença  de  repressão  policial,  mesmo 
considerando  que  a  Gentral  de  Polícia  da  capital 
holandesa  localiza-se  em  frente  ao  prédio  do 
teatro. 

Nem  mesmo  na  madrugada  de  segunda-feira, 
dia  21,  quando  após  ter  o  público  dançado  o  úl¬ 
timo  rock  do  evento,  um  grupo  de  punks  demolia 
e  pichava  um  automóvel  estacionado  à  porta 
principal  do  Melkweg,  em  protesto  pelo  final  da 
música.  (Renato  Schebela  —  Amsterdan  ) 

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|  ENSAIO  | - 

% 

Começam  a  nos  entender . 
Mas  é  isso  o  que  interessa? 


Algumas  noticias  chegam  ao  Lampião  por 
tabda.  Via  carta  de  um  amigo,  tomo  conheci¬ 
mento  de  um  fato  carioca  que  devidamente 
anotado,  volta  à  nossa  redação  situada  na  Lapa, 
portanto  no  coração  do  Rio  de  Janeira  dia  14  de 
abril,  o  Dr.  E.  Crístian  Gauderer,  especialista  em 
psiquiatria  do  adolescente,  com  doutoramentos 
nas  Universidades  de  Harvard,  Tennessce  e  na 
Clínica  Mayo,  realizou  palestra  na  Faculdade  de 
Comunicação  Estácio  de  Sá.  sobre  o  tema 
“Homossexualidade  masculina  e lesbianismó*.  O 
amigo,  que  assistiu  (e  gostou  da  conferência),  fez 
questào  de  resssaltar  na  carta,  a  imparcialidade 
do  conferencista  “apesar  de  ser  hetero”.  E  aqui 
começam  os  senões:  —  O  que  é  isso.  meu  querido 
amigo,  só  porque  uma  pessoa  é  hetero  deve  ser 
contrária  ao  homossexualismo?  Anexa  à  carta, 
recebo  uma  súmula  da  mesma  com  a  autorização 
ao  Lampião  para  transcrever  tudo  ou  parte. 

Outro  senão:  o  Lampião  não  se  vincula  ex- 
elusivamente  aos  homossexuais  e  demais  re- 
presentantes  das  outras  minorias,  mas  está  longe 
de  ser  um  vinculo  da  divulgação  cientifica  pura  e 
simples,  mesmo  que  o  tema  seja  o  nosso,  pre¬ 
ferindo  manter-se  como  um  jornal  de  atualização, 
participante  das  vivências,  fdéias  e  atividades 
minoritárias  e.  mais  particularmente,  um  ca¬ 
talisador  de  opiniões  e  vivências  homossexuais. 
Assim  senda  os  conceitos  cientificas  sobre  ho¬ 
mossexualismo.  mesmo  quando  imparciais,  bem 
documentados  e  devidamente  atualizados,  co¬ 
locam -se  de  tal  forma  dentro  de  uma  lógica 
habitual  de  laboratório  que  nós.  os  homo 
conscientizados,  nunca  os  podemos  aceitar  na 
totalidade  porque  possuímos  a  nosso  favor  (e  com 
um  acréscimo  indiscutível)  a  convivência  Intima 
com  o  assunta  com  a  qual  dialogamos  de  ma¬ 
neira  aberta,  coisa  que  nenhum  cientista  hetero. 
mesmo  o  mais  esforçado  entre  os  esforçados, 
jamais  conseguiu  até  hoje. 


Isto  quer  dizer  então  que  relutamos  os  latos 
que  a  tradição  científica  colheu  durante  anos  e 
anos  sobre  o  nosso  “problema*’?  Positivo:  re¬ 
futamos,  sim!  E  dai?  Nunca  pudemos  e  não 
podemos  ainda  hoje  impedir  que  nos  olhem  do 
outro  lado.  isto  é,  do  lado  de  fora  da  jaula;  e  que  à 
maneira  “deles"  nos  analisem.  Agora,  esperar 
que  apesar  disso  nós  nos  comportemos  segundo  as 
conclusões  que  eles  tirem  de  nós...  ah!,  isso  não! 

Este  desabafo,  uma  espéde  de  lavagem  intes¬ 
tinal  que  o  Dr.  Gaurderer  indiretamente  está 
recebendo  da  minha  pessoa  (sem  qualquer  culpa 
da  sua  parte  e  apesar  de  toda  a  boa  vontade  que 
tem  com  os  homossexuais)  advém  do  fato  de  que 
jamais  se  obtêm  bons  resultados,  mesmo  com 
ótimas  intenções,  quando  os  conceitos  partem  de 
prindeipios  errados.  Também  nesse  sentido 
temos  em  São  Paulo  um  caso  típico  de  enganador- 
enganado.  na  pessoa  do  atento  e  respeitado  es¬ 
tudioso  da  sexualidade,  o  Dr.  Flàvio  Gikovate: 
tratando  do  homossexualisma  ele  nega  o  fator 
oongênito  para  desandar  as  culpas  do  “proble¬ 
ma’’  sobre  fatores  de  formação  familiar  e  outros 
quantos.  Não  concordo  nem  discordo,  entenda-se 
bem,  apenas  me  recuso  a  aceitar  que  tratem  o 
homossexualismo  como  um"  problema*  ou  como 
um  desvio  da  sexualidade. 

Lendo  o  artigo- palestra  do  Dr.  Gauderer.  vejo 
logo  no  início  o  conceito  de  Freud  de  que  “o 
homossexualismo  é  encontrado  em  pessoas  que 
não  mostram  desvios  de  normalidade  e  cuja 
eficiência  de  funcionamento  é  completa  e( que  es¬ 
tes)  muitas  vezes,  são  indivíduos  privilegiados  no 
desenvolvimento  intelectual  e  cultural”.  Ora,  já 
dizia  a  minha  bisavó,  “nem  tanto  o  céu,  nem  tan¬ 
to  a  terra”!  E  logo  vem  o  bloqueio  para  qualquer 
discussão  quanto  se  flagra  que  ele  “Freud”,  in¬ 
conscientemente  (Freud.  inconsciente?),  ao  dizer 
isto.  estava  assumindo  uma  atitude  paternalista 
em  relação  aos  homossexuais,  portanto  protegen¬ 


do  os  seus  indefesos  e  frágeis  pacientes  das  intem¬ 
péries  da  sociedade  opressora.  Dá  pra  perceber  a 
trama?  Apesar  desta  ser  sutil  e  plena  de  boas  in¬ 
tenções.  não  se  pode  esquecer  que  Freud  era 
hetero.  e  é  bastante  sabido  que  os  heteros,  prin¬ 
cipalmente  os  inteligentes  e  cultos,  assumem 
frequentemente  essas  atitudes  paternalistas  a  fim 
de  se  penitenciar  pelo  que  a  humanidade  tem 
feito  contra  os  homossexuais. 

Ora,  contesto  eu  como  advogado  do  diabo,  è 
uma  besteira  enorme  achar  que  a  maioria  dos 
homossexuais  (ou  “muitas  vezes”,  como  diz 
Freud)  seja  de  “indivíduos  privilegiados  no  de¬ 
senvolvimento  intelectual  e  cultural".  O  que  tem 
a  ver  a  opção  sexual  oom  inteligência  e  cultura? 
Claro  que  existem  bichas  inteligentes  e  cultas, 
mas  nem  por  isso  elas  precisam  se  vangloriar  de 
ser  maioria  na  própria  classe  ou  em  relação  aos 
heteros:  já  conheci  muitas  e  muitas  que  não  têm 
jeito  nem  inteligência  para  enfiar  sequer  uma 
linha  numa  agulha!  - — 

Portanto,  o  paternalismo  é  um  prindpio 
igualmente  comprometido,  como  vários  outros, 
para  um  entendimento  da  homossexualidade, 
porque  prevê  em  si  um  sentimento  de  comise¬ 
ração.  camuflando  a  eterna  jogada  do  dominador 
sobre  o  dominado.  E  isto  a  nós,  homossexuais, 
absolutamente  não  interessa  mais!  É  preciso 
deixar  bem  claro  também,  que  a  análise  científica 
atual  feita  sobre  a  nossa  opção  sexual  não  nos 
perturba  nem  nos  acrescenta  nada,  a  nós  homos¬ 
sexuais  conscientizados,  porque  a  nossa  cabeça,  a 
partir  do  momento  da  conscientização,  já  superou 
traumas,  sentimentos  de  culpa,  auto-negações  e 
toda  aquela  baboseira  mental  de  que  os  psica¬ 
nalistas  insistem  em  nos  curar;  e  já  partiu  igual¬ 
mente  para  coisas  bem  mais  sérias  c  práticas, 
como  a  nossa  definição  pessoal  e  coletiva  como 
integrantes  de  uma  sociedade,  ou  a  conquista 
consequente  do  nosso  espaço  vi  vendai. 

Assim  sendo,  os  heteros  é  que  devem  final¬ 
mente  começar  a  conjugar  o  verbo  aasnmlr  (tão 
propalado,  atualmente)  e  não  nós,  que  há  séculos 
estamos  tentando  a  aproximação,  sem  resultados. 
Não  fomos  nós  que  inventamos  os  tais  prefixos 
hetero  e  homo  —  foram  eles  os  heteros  que  assim 
o  fizeram  para  defender  sabe-se  lã  quais  prin¬ 
cípios  de  sobrevivência  e  supremacia.  Se  eu  fosse 
uma  dessas  muitas  bichas  inteligentes  porém 
malditas  que  circulam  por  ai.  diria  que  dormimos 
no  ponto:  essa  imposição  de  um  sistema  heteros¬ 
sexual  foi  circunstancia],  uma  espéde  de  golpe 
poli  tico  de  tomada  de  poder,  o  jdto  foi  aceitá-lo 
inoondidonalmente  porque,  coroo  sempre  acon¬ 
tece  nesses  casos,  montou-se  paralelamente  um 
esquema  de  repressão  chamado  machismo,  para 
impor,  proteger  e  manter  o  poder  dominante.  A 
Bíblia  está  aí,  contando  tudo  em  detalhes. . . 

Entenda-se  que  não  è  minha  intenção  ser 
proselitista,  pregando  a  inversão  dos  papéis,  isto 
é.  segregando  os  heteros  para  impor  padrões 
homossexuais  no  mundo.  Desejo,  isto  sim.  e  bem 
menos  pretensiosamente,  fazer  válida  a  nossa 
normalidade  —  mas  que  ela  nos  venha  por  di¬ 
reito.  não  obsequiada  como  numa  abertura 
política,  na  forma  de  uma  concessão  piedosa  ou 
como  prêmio  de  bom  comportamento,  anteci¬ 
padamente  exigido  como  ocmdição  para  a  liber¬ 
dade.  Se  assim  for  cumprido,  estaremos  de  ambas 


as  partes  em  boa  paz  e  esquecidos  dos  tais  pre¬ 
fixos  estigmatizantes. 

Padrões  morais...  Mas  o  que  é  um  padrão, 
afinal  de  contas?  Em  termos  de  engenharia 
mecânica  ê  o  molde  dentro  do  qual  fundem-se  as 
peças,  todas  iguaizinhas.  e  previstas  para  deter 
minada  função  dentro  da  máquina.  Acontece  no 
entanto,  que  os  ditos  padrões,  além  de  se  desgas¬ 
tarem  pelo  uso  excessiva  precisam  ser  modifi¬ 
cados,  renovados  e  modernizados  em  benefício  da 
própria  máquina  e  sob  o  perigo  desta  tornar-se 
antifuncional.  antiquada  e  obsoleta. 

Já  fui  bonzinho  na  vida  procurando  ser  to¬ 
lerante  oom  a  intolerância  ea  burrice  alheias,  jul¬ 
gando  essa  incompreensão  como  falta  de  infor¬ 
mação.  Em  parte  é,  mas  cansei  de  "panos  quen¬ 
tes”  e  resolvi  partir  para  o  radicalismo  mais 
radical:  mesmo  tentando  ser  compreensivos,  os 
heteros  jamais  aceitarão  como  tal.  a  nossa  opção 
sexual  e  a  nossa  cultura  específica,  enquanto 
tomarem  a>mo  ponto  de  partida  a  sua  conoei- 
tuaçâo  de  valores.  Para  qualquer  tentativa  de  in¬ 
tegração  minoritária  é  necessário  o  abandono 
completo  dos  padrões  estabdeddos  pelo  sistona 
dominante,  tanto  de  uma  parte  como  da  outra. 

Daí  os  comentários  que  eu  poderia  e  pretendia 
fazer  sobre  a  palestra  do  Dr.  Gauderer  e  sobre  os 
vários  artigos  de  Dr.  Gikovate,  publicados  se¬ 
manalmente  na  "Folha  de  São  Paulo”,  ficarem  a 
priori  invalidados,  porque  mesmo  oom  a  serie¬ 
dade  e  possível  isenção  com  que  eles  tratem  o 
homossexualismo  io  que  de  certo  modo  é  relevan¬ 
te  porque  finalmente  os  dentistas  começam  a  nos 
ver  como  gente,  não  mais  coroo  coelhinhos  de 
laboratório),  suas  idéias  e  conceitos,  todos  ba¬ 
seados  em  estudos  atualizados,  etc.,  etc,  con¬ 
tinuam  naquela  do  de  (ora  para  dentro  e.  o  que  é 
pior,  subservientes  aos  padrões  do  sistema. 

A  nova  oontc&ncia  bomoascxual,  aquela  que 
não  está  plasmada  nos  padrões  convencionais,  r+ 
mesmo  em  países  mais  liberados  e  avançadas  cul¬ 
turalmente  que  o  nosso,  fez  recentemente  o  seu 
"début”?  Ela  está  surgindo  dos  grupos  de  cons- 
dentizaçào,  dos  ternários  discutidos  nos  Encon¬ 
tros  e  Congressos  e  dos  elementos  individuais  que 
superaram  as  imposições  do  sistema  tradidonal. 
Talvez  nem  sejamos  nós.  os  desta  geração  univer¬ 
sal  dos  anos  70.  ou  desta  geração  brasileira  do 
ano  80  que  participou  do  I  Encontro  Nadonal  de 
Grupos  Homossexuais,  os  que  estarão  liberados  e 
conscientizados  o  sufidente  para  escrever  a  nova 
Bíblica.  Talvez  só  mesmo  os  nossos  filhos  (filhos?) 
terão  o  distandamento  temporal  e  a  experiência 
necessárias.  Dos  resultados  dessa  vivência  os 
heteros  poderão  então,  finalmente,  retirar  as  in¬ 
formações  mais  verídicas.  “  dando  aos  bois  os  seus 
nomes  verdadeiros”  —  porque  até  agora  não  só 
estes  tiveram  os  nomes  trocados,  como  foram 
confundidos  com  cabras,  cavalos,  zebras  e  até 
rinocerontes. 

Nomes,  prefixos,  definições,  dassificações... 

Mas  será  isto  o  que  interessa?  O  que  influi  no  vòo 
de  uma  borboleta  azul  se  em  vez.  de  borboleta,  os 
estudiosos  a  chamarem  de“Lepidóptero  Morpho 
Anaxabia”?  ( D arcy  Penteado) 


pelos? 

Livre-se  dos  pêlos  e/ou 
penugens  do  seu  rosto, 
queixo,  buço  busto, 
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Página  12 


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Show  de  transformaçfio  com 
arte  e  cultura:  Andréa  Caspareliy 
—  Chintia  Levy  —  Laura  de 
Vison  —  Mabel  Luna  —  Ana 
Karina  Berg  —  Rhoddâ  — 
Samantha  e  as  Putotinhas. 
Apresentação  de  Fernando 
Moreno.  ProduçáoAdáo  Acosta. 

Bifào  —  Rua  Santa  Luzia, 
760  -  Tel.:  240-7259.  Aberto  a 
partir  das  22h30m.  Ingressos: 
Cr$  150,00,  mesas  a 
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associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


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GRUPODIGNIDADE 


I  FESTIM  \ 


Bixórdia  II  -  o  show 


Verushka,  a  do  Fusca 


Adão  Acosta,  Chqgsóstomo,  Elke,  Mário  Valle. 


Ficou  decidido  na  reunião  de 
pauta  que  eu  escreveria  a  matéria 
sobre  o  show  de  aniversário  do  jor¬ 
nal;  o  “Bixórdia  IP\  pelo  qual  os 
lampiônicos  esperaram  o  ano  inteiro. 
Mas  a  verdade  é  que  eu  perdi  o 
tesão,  depois  de  ver  as  ótimas  fotos 
dc  Cyntia  Martins,  a  quem  coube  a 
cobertura  fotográfica  do  evento 
(cruzes!).  Basta  dizer  que  o  Teatro 
Carlos  Gomes,  cheio  de  amigos  e 
amigas  do  jornal,  parecia  a  sala  de 
estar  de  uma  enorme  família:  todo  o 
mundo  numa  boa,  muitos  beijos  e 
abraços,  muita  gente  se  cruzando 
nos  banheiros  e  nos  desvãos  mais  es¬ 
curos  do  teatro,  e  muita  emoção  no 
palco,  dos  artistas  que  foram  lá,  na 
base  do  amor  e  da  amizade,  dar  uma 
palinha  em  homenagem  ao 
LAMPIÃO.  Vejam  as  fotos:  foi  O 
SHOW.  ( Aguinaldo  Silva) 


O  grupo  Amalá 


Bittencourt  e  Bubby  Montenegro 


Duardo  Dusek 


Emilinha  Borba 


Maria  Leopoldlna 


LAMPIÃO  d 


«II  JKJUU  UJ  Ullll  JIJHI  |  ■—  «7 . . . 

.cobarJíS  te  *000 j  1  *• - - -  ^  ^  1  Página  13 


ítf  Juooji  ob  OÀ^MAj 


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GRUPODIGNIDADE 


1  ESQUINA  \ 


Notícias  da  Bahia 


Para  o  turista  que  vem  ao  Brasil  para  passar  o 
Carnaval  c  curtir  o  verão  tropical,  Salvador  cos¬ 
tuma  ser  apontada  como  a  cidade  mais  gay  do 
Brasil.  De  fato,  durante  o  Gamava),  a  Bahia  se 
torna  a  capital  gay  não  aperias  do  Brasil,  mas  do 
mundo  inteiro.  Alguém  poderia  indicar  um  local 
da  terra  (o  céu  não  vale)  onde  se  concentram 
anualmcntc  maior  número  de  homossexuais  do 
que  a  cantada  em  prosa  e  verso  Praça  Castro  Al¬ 
ves  durante  os  quatro  dias  da  folia?  Quantos 
seriamos:  mil,  dois  mil,  quantos  mil?  Creio  que 
nem  mesmo  os  congressos  c  encontros  gays  na¬ 
tivos  ou  dalhures  contariam  com  tamanha  quan¬ 
tidade  de  homossexuais,  e  no  tocante  à  procedên¬ 
cia  geográfica  (pois  como  é  do  conhecimento 
geral,  à  “Praça  do  Povo”  convergem,  além  dos 
baianos  da  capital  e  do  interior,  inúmeras  ca¬ 
ravanas  de  homossexuais  sergipanos,  alagoanos, 
cariocas,  paulistas,  gaúchos,  etc.,  sem  falar  nos 
gringos,  notadamente  norte-americanos,  fran¬ 
ceses,  alemães,  ingleses,  and  so  on).  Passados  os 
quatro  dias  onde  a  CARNE -VALE,  dias  em  que 
as  bichas  tomam  conta  do  local  mais  animado  e 
desvairado  da  maior  festa  popular  baiana,  o  que 
resta  como  saldo  positivo  para  o  movimento  gay 
da  terra  de  Betânia,  Simone,  Gil,  Caetano?  As¬ 
sim  foi  a  quaresma  anos  seguidos  daquela  que 
durante  o  Carnaval  se  torna  a  “Bahia  de  todas  as 
Santas”.  Tudo  voltava  a  ser  como  antes. 

BICHA  TAMBÉM  PICHA 

Salvador,  aliás,  como  a  maior  parte  das  gran¬ 
des  cidades  do  Brasil  e  do  mundo,  foi  invadida 
nos  últimos  meses  por  uma  onda  de  pichaçôes  de 
rua,  assinadas  por  diferentes  autores:  Mancha, 
Tirana,  Min,  Dr.  Pénis,  ML,  Balde-Ação,  pan, 
etc.  O  conteúdo  das  mensagens  pintadas  nos 
muros  e  paredes  variando  da  anarquia  pura  e 
simples,  à  crítica  social,  política,  existencial, 
ecológica,  etc.  Destes,  o  que  se  assinava  “ML", 
foi  sem  sombra  de  dúvida,  o  mais  engajado 
politicamente,  o  mais  criativo,  libertárioe  crítico. 
(“ML"  para  alguns  significa  “Movimento  de 
libertação”,  para  outros  “Muito  louco",  para 
outros  ainda,  ‘Massas  Livres").  Entre  suas  men¬ 
sagens,  várias  vezes  pintou:  "viva  o  sexo".  Por 
volta  de  setcmbro/79,  um  novo  pichado  aparece 
no  cenário  soteropolitano  —  seu  nome:  GAY.  O 
palco  escolhido  para  o  seu  “début"  foi  nada 
menos  que  os  muros  amarelinhos  do  tradicional 
Instituto  Feminino  da  Bahia.  Seu  cartão  de  visita: 
“Cheguei:  Sou  GAY!"  Após  esta  mensagem, 
muitas  outras,  em  diversos  locais  bastante  visados 
da  cidade.  Eis  alguns  dizeres  assinados  por  GAY : 
Ê  legal  ser  homossexual!  Viva  o  Sexo!  Ser  viado 
nâoé  pecado.  Seja  Gilete;  aproveite  os  dois  lados. 

No  Teatro  Castro  Alves,  um  dos  pontos  mais 
badalados  de  encontro  da  população  gay  local, 
além  do  leitmotiv  “Cheguei":  Sou  Gay”,  picha 
um  discurso  mais  político:  'í  legal  ser  homos¬ 
sexual,  a  história  não  mente:  experimente!”  Na 
entrada  da  Concha  Acústica,  Gay  divulga  o 
célebre  versinho  de  Fernando  Pessoa:  “O  amor  é 
que  é  importante,  o  sexo,  acidente.  Pode  ser 
igual,  pode  ser  diferente..."  Na  Fazenda  garcia, 
bairro  de  grande  concentração  de  população 
negra,  Gay  assina  outra  pichaçãode  teor  político, 
unindo-se  à  luta  maior:  “Negros,  bichas,  índios, 
mulheres,  pobres:  estamos  na  mesma  luta!”  No 
porto  da  Barra,  praia  onde  se  concentram  se¬ 
manalmente  centenas  de  homossexuais,  de  todos 


os  sexos  (inclusive  o  sexo  dos  anjos),  num  local  de 
grande  visiilidade,  mais  duas  mensagens:  ‘Bichas 
de  todo  o  mundo,  uni-vos!"  ‘Território  homos¬ 
sexual!  Liberdade  total!" 

As  reações  não  tardaram  a  aparecer:  vários 
muros  onde  Gay  deixou  sua  mensagem  foram 
rapidamente  pintados  de  branco,  apagando-se  do 
dia  para  a  noite  propaganda  tão  inusitada.  A 
boca-pequena  comenta-se  que  um  pai -de -família 
mais  esquentado  chegou  a  atirar  de  revólver  em 
Gay  quando,  executava  num  muro  bem  alvinho, 
uma  das  aias.  Nalguns  lugares,  outros  pi  ah  adores 
encarregaram -se  de  alterar  ou  comentar  as  men¬ 
sagens  homossexuais.  No  Farol  da  Barra,  p.ex.: 
um  pichador  anónimo  (e  careta)  inverteu  a  men¬ 
sagem  original  acrescentando  simplesmente  um 
“i”  à  palavra  ‘legal”,  alterando  portanto  para  “Ê 
ilegal  ser  homossexual".  Com  um  pouco  de  mais 
imaginação,  porém  numa  atitude  ideológica  dis¬ 
cutível,  o  grupo  “punk"  Pan  alterou  várias  as¬ 
sinaturas  do  GAY  para  Fi-Gay-redo,  não  bulindo 
porém  no  texto  das  mensagens.  No  Instituto 
Feminino  da  Bahia,  o  Grupo  ML  pichou  ao  lado 
do  “Cheguei,  sou  Gay”,  os  seguintes  dizeres: 
“Dá-lhe  3?  sexo!"  No  muro  da  Qa.  de  Eletri¬ 
cidade,  o  mesmo  grupo  acrescentou  abaixo  dos 
dizeres  *£  legal  ser  homossexual",  o  comentário: 
“Chi...  que  pobreza”.  Mais  recentemente,  nas 
imediações  da  Barra,  surge  um  novo  pichador  in¬ 
titulado:  *T)r.  Ku"  que  além  de  pichar  nos  muros 
que  outros  pichadores  (como  o  mancha,  p.ex.) 
eram  gays.  numa  deslavada  falta  de  imaginação 
parafraseou  o  gay  original,  escrevendo:  “Cheguei, 
sou anti-gay,  ass.  Dr.  Ku”. 

A  onda  de  pichaçôes  parece  ter-se  amainado 
neste  últimos  meses.  Alguns  grafitis  foram 
apagados,  outros  cobertos  com  cartazes  e  pro¬ 
pagandas.  Vários,  entretanto,  continuam  in¬ 
deléveis,  resistindo  ao  tempo,  prestes  a  completar 
seu  primeiro  aniversário  de  fechação.  Chocando, 
forçando  as  pessoas  a  pensarem,  suscitando 
polémicas.  Aliás,  não  teria  sido  inspirado  exa¬ 
tamente  nas  pichaçôes  de  Salvador,  que  a  Gay- 
fieira  Palace  do  Gne  S.  José,  no  Rio,  deu  como 
titulo  de  seu  show  extamanete  “Cheguei.  Sou 
Gay"?!?!  Aproveito  para  enviar  um  recadinho 
para  o  publioirelatious  do  show  da  praça  Tiraden  • 
tes:  em  recente  entrevista  os  pichadores  GAY 
declararam  abrir  mão  de  cobrar  os  direitos  au-; 
torais  pelo  uso  de  seu  slogan,  cm  favor,  do  fondo 
de  greve  dos  trabalhadores  do  ABC.  Os  leitores 
que  forem  à  Gayfieira  Palace  não  deixem  de  lem-  * 
brar  à  “troupe"  que  eles  tém  um  compromisso 
com  o  ABC. . . 

BICHAS  BAIANAS  RODAM  O  MIMEÔ- 
C.RAFO 

Muitos  homossexuais  baianos  além  de  “rodar 
a  baiana"  tem-se  preocupado  ultimamente  em 
conscientizar  a  população  gay  local  para  que  en¬ 
trem  na  luta  contra  todas  as  formas  de  discri¬ 
minação  aos  homossexuais.  Recém-fundado,  o 
Grupo  Gay  da  Bahia  resolveu  sair  às  ruas,  con¬ 
clamando  todos  os  homossexuais  a  se  organi¬ 
zarem  em  grupos  que  lutem  em  defesa  de  nossos 
direitos  de  pessoas  humanas  que  não  tém  nem 
medo  nem  vergonha  de  amar  pessoas  do  mesmo  . 
sexo.  “I  uta  para  a  gente  poder  existir". 

Distribuímos  aproximadamente  mil  docu¬ 
mentos.  concentrando-nos  sobretudo  nos  locais 
de  maior  badalaçáo  homossexual  de  Salvador: 
Porta  do  Teatro  Castro  Alves,  Beco  dos  Artistas, 
Bar  Oásis,  Nildau,  Boites  Safar i  e  Holmes.  No 
domingo  de  manhã,  no  ensolarado  Porto  da 
Barra.  A  pan  fiei  agem,  felizmente,  transcreveu 
sem  incidentes  —  o  que  era  de  se  esperar,  dado  o 
teor  legal  do  manifesto,  e  a  proteção  de  legiões  de 
Orixás,  Santos  e  Santas  do  panteão  gay  do 
além...  Favoreceu -nos,  igualmente,  e  vivermos 
em  “tempo  de  abertura"...  O  depoimento  de 


mais  de  uma  dúzia  de  gays  que  participaram  da 
panfletagem  foi  unânime  em  revelar  três  aspec¬ 
tos:  —  No  geral  houve  excelente  receptividade  dos 
homossexuais  contactados  ao  documento.  Após 
rápidas  leituras  do  texto,  foram  diversos  os 
homossexuais,  homens  e  mulheres,  que  manifes¬ 
taram  de  imedjato  sua  vontade  de  fazer  parte  do 
grupo.  —  As  criticas  recaíram  sobretudo  no 
cabeçalho  do  texto,  onde  propositadamente, 
resolvemos  “dar  o  nome  aos  bois",  ou  melhor ,  aos 
viados,  enumerando  vários  “palavrões"  classi- 
ficatórios  dos  homossexuais:  ‘Bichas  ,  sapatões, 
gays,  viados.  lésbicas,  entendidos,  bonecas,  fran- 
chonas,  pederastas,  giletes,  enrustidos,  travestis, 
entendidas,  etc."  Quem  chiou  mais  forte  foram 
sobretudo  os  mais  enrustidos  e  as  bichas  mais 
chies.  Onde  já  se  viu  um  “entendido  ativo" 
(cruzes!)  ser  chamado  de  “viado",  estar  citado  áo 
lado  de  um  “travesti”  ou  de  uma  "franchona"?!? 
Teve  bicha  que  deu  revertério,  pichou  o  Grupo, 
escomungou  o  documento,  profetizou  a  chegada 
do  fim  dos  tempos.  Tudo  isto  apenas  pelo  choque 
de  ver  num  “documento",  lado  a  lado,  termos 
“científicos"  e  “palavrões"  vulgares.  O  objetivo 
do  grupo  foi  exatamente  este:  provocar  discus¬ 
sões.  Mostrar  para  quem  ainda  não  se  deu  conta, 
que  quanto  mais  usarmos  tais  “palavrões"  mais 
rapidamente  eles  envelheceriam,  deixando  de  ser 
tabu.  Além  do  mais  lembramos  aos  esquecidos  ou 
elitistas,  que  homossexual  é  todo  aquele  que  gosta 
do  mesmo  sexo,  seja  bicha  pobre  da  periferia,  o 
travesti  desdentado  do  Pelourinho,  a  boneca  Car- 
tier  do  Holmes,  o  entendido  rançoso  do  La 
Boheme  ou  o  ‘Bi -sexual"  (última  descoberta  da 
VEJA  para  pasmo  do  Dr.  Freudí)  do  Porto  da 
Barra.  Achamos  que  a  diferença  no  estilo  de  vida 
não  deve  implicar  desnecessariamente  em  dis¬ 
criminações,  em  desigualdade  de  direitos.  Afinal: 
somos  ou  não  somos  todos,  sem  exceção,  imagem 
e  semelhança  de  Deus,  templos  do  Espírito  Santo 
(aliás,  diga-se  de  passagem,  este  último  senhor 
tem  a  fama  de  ser  a  mais  quente  da  Santíssima 
Trindade  —  imaginem  que  já  apareceu  sob  a  for¬ 
ma  de  língua  de  fogo  —  tá  na  Bíblia).  —  A  última 
observação  é  de  caráter  pessoal,  existencial .  Veio 
como  se  fosse  um  prémio  a  sensação  de  liberdade 
e  segurança  advindas  do  fato  da  gente  se  iden¬ 
tificar  e  ser  identificado  como  homossexual  por 
aqueles  desconhecidos  que  receberam  o  docu¬ 
mento.  Foi  emocionante  ouvir.de  vários  homos¬ 
sexuais  palavras  de  apoio  e  estímulo  à  nossa  luta. 
A  gente  se  sente  —  modéstia  a  parte  —  fazendo 
história,  estimulando  homens  e  mulheres  a 
aceitarem  já,  numa  boa,  o  que  será  “normal”  e 
“geral"  sò  daqui  a  umas  decádas,  na  esperada 
sociedade  do  futuro.  (Luiz  Mott) 


S.O.S.  Argentina 


“Lampião”  foi  talvez  o  primeiro  órgão  da  im¬ 
prensa,  alternativa  ou  não,  a  lançar  o  grito  de 
alerta  sobre  a  trágica  situação  dos  homossexuais 
argentinos.  E  como  este  jornal  tem  grande  pe¬ 
netração  na  Argentina,  “por  el  camino  de  las  for- 
miguitas",  como  dizem  nossas  irmãos  do  prata.  Foi 
imensa  a  repercussão  das  nossas  matérias.  Por  es¬ 
se  motivo  os  homossexuais  argentinos  resolveram 
lançar  um  “S.O.S"  ao  mundo  através  de  Lam¬ 
pião  (anônimo,  naturalmente)  ,  na  espérança  de 
serem  ouvidos  e  de  que  se  faça  alguma  coisa  a  res¬ 
peito.  Eis  o  documento: 


Le  louar 


BOITE 

Shows  de  3*  a  Domingo 
Strip-tease  masculino 
Raul  Pompóia,  102  (Galeria) 

Organização  Contábil 
Vieira  Lima  Ltda. 

Contabilidade  em  geral 
Escritas  avulsas 
Arquitetura 
Despachante 
Ad.  de  Imóveis 
LILIANE  E  LIMA 

Estrada  dos  T rés  Rios,  90  —  8/318 
Tel.:  392-7324 


GAY  • 

GIRLS 


A  volta  da  revista  a  Copacabana 
MARIA  LEOPOLDINA  no  musical  de  travestis 
Com  Theo  Montenegro  —  Stella  Stevens 
Fugika  —  Marlsa  Jones  —  Cláudia  Celeste 
e  Veruska 

Atriz  convidada:  Nèlla  Paula 
Participação  dos  bailarinos  Edson  Farr  * 
e  Eduardo  Allende 

3? ,  4? ,  5 Melras  e  domingos  às  21h30mln 
Sexta  e  sábados  ás  22  h 
Teatro*  Alaska  —  Posto  6 


J 


*  1 
4  . 


“Este  é  talvez  o  primeiro  pedido  de  socorro 
anônimo  da  história,  que  não  utiliza  a  clássica 
garrafa,  mas  sim  o  meto  mais  moderno  do  cor¬ 
reio.  Ê  que  os  “náufragos"  são  tão,  tão  nume¬ 
rosos  que  seria  impossível  enumerar  um  por  um, 
mas  todos  estão  sob  um  denominador  comum: 
são  argentinos  e  homossexuais. 

“Nunca  debaixo  de  quaquer  tipo  de  governo 
d  vil  ou  militar  pudemos  nos  locomover  com  liber¬ 
dade,  mas  nunca  fomos  tão  perseguidos  como 
agora,  nunca  fomos  tão  vulneráveis:  nos  mar¬ 
ginalizam  e  encurralam  a  tal  ponto  que  sequer 
podemos  sair  de  nossas  casas.  Somos  vitimas  per¬ 
manentes  do  rigor  policial  (  sem  levar  em  conta 
hora  ou  local) ,  ou  em  sua  falta,  da  extorsão  que, 
dada  a  situação,  é  moeda  corrente. 

“Periga  nosso  lar,  nosso  trabalho,  nossas 
carreiras; nos  envolve  uma  neurose  permanente:  o 
medo. 

“Que  fazer?  Como  nos  defender?  Com  quem 
falar?  Com  que  armas  lutar?  E  nem  todos  são 
bailarinos,  figurinistas  ou  cabeleireiros,  profis¬ 
sões  que  por  elas  mesmas  determinam  uma  in¬ 
clinação  sexual  diferente,  mas  também  gente  que 
estudou  muito,  se  sacrificou,  trabalha  e  trabalhou 
duro  para  consolidar  uma  posição  e  que  agora 
não  merece  um  mínimo  de  respeito:  basta  uma 
simples  delação  para  que  uma  vida  seja  arrui¬ 
nada.  _ 

“Por  isso,  em  nome  de  todos  eles  lhes  pedimos 
que,  através  de  sua  publicação,  dê  a  conhecer 
nossa  situação  e  que  organismos  de  países  como 
Brasil,  Estados  Unidos.  Holanda,  Canadá,  Es¬ 
panha,  Inglaterra,  etc.  nos  prestem  seu  apoio 
solidário  para  que  pek)  menos  não  nos  pisoteiem, 
nos  respeitem  como  seres  humanos  que  desejam 
viver  tranquilos.  Nem  remotamente  sonhamos 
com  uma  liberdade  plena,  mas  sim  com  a  mínima 
indispensável  de  que  um  homem  necessita  para 
poder  subsistir. 

“Por  favor,  é  uma  súplica,  vocês  podem  e 
devem  nos  ajudar,  pois  dispõem  dos  meios  neces¬ 
sários.  Não  nos  abandonem.  Obrigado." 


Minorias  de  quê? 


“Frequentemente  a  questão  da  libertação  da 
mulher  é  apresentada  ao  lado  de  outra*,  como  a 
do  negro,  do  homossexual,  do  índio,  etc.,  aobrea 
classificação  geral  de  “queatáo  da*  mhiorias". 
Mesmo  nos  mdoa  dito*  esclarecidos  da  sociedade 
i  Intelectuais,  pesquisadores,  sodòlogos,  an¬ 
tropólogos,  etc.)  o  uso  desse  termo  aparece 
muitas  vezes  como  tácito,  legítimo,  on  melhor, 
não  tem  soa  legitimidade  questionada,  pois  as 
pessoas  nem  sequer  se  dão  conta  de  que  se  trata 
de  uma  denominação,  em  sl  mesma,  discrimi¬ 
natória. 

"Vendo  a  questão  sob  o  ponto  de  vista  das 
próprias  “minorias",  e  não  pelo  lado  dos  que  as¬ 
sim  as  denominam,  observa-se  que  esses  grupos 
podem  não  ser  maioria  em  termos  estritamente 
quantitativos,  mas  qualhatlvamcnte,  cm  termoa 
de  conteúdo,  sua  Importância  é  considerável.  São 
des  que.  ao  se  manifestarem,  reivindicando  um 
espaço  social  onde  possam  aluar,  exigem  da 
sociedade  abrangente  o  reconhecimento  de  sua 
legitimidade,  fazendo  com  que  esta  se  mostre,  em 
sua  essènda,  contraditória  e  repressiva. 

"A  denominação  de  “minorias”  aplicada  a  ca¬ 
sa  grupos  é,  portanto,  bastante  siglnlflcatlva,  e 
parece  esconder  o  seguinte  jogot  ao  enfatizar  a 
i -ar lavei  quantitativa  (são  minorias  apcsias,  não 
representam  o  povo  brasileiro,  o  que  interessa  é 
aquilo  que  a  maioria  pensa),  deixa-se  de  lado  a 
questão  essencial,  que  é  o  conteúdo  da  reivin¬ 
dicação  desses  grupos,  que  é  capaz  de  fazer  ver  às 
“maiorias"  (silenciosas  e  manipuláveis)  questões 
nunca  d 'anta  sus  d  ta  das.  Quatõea  que,  por  sua 
natureza,  ameaçam  o  comportamento  de  avestruz 

típico  dessa  maioria  _  e  é  esse  predsamente  o 

perigo. 


Belco’s  Bar 


Marias  Bonitas 

c  Lampiões 
11  horas 

terça  a  Domingo 
Visconde  de  Cairu,  26  C 


Página  14 


LAMPIÃO  da  Esquina 


★  ★ 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


★ 

★ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


|  ESQUINA  \ 


“Mdhor  c  mal»  Mg  ar  o  teria  maalcr  cases 
grupos  niiaovitáfioa  no  acu  devido  lugar,  feto  é,  à 
margem,  atua  oootam inação.  AUaal,  o  negro 
conhece  teu  lugar  oouio  ninguém;  os  homoaae- 
luala  só  aparecem  à  nohe  e  cm  locait  perfeita- 
mmlc  deUmltadoa;  oa  índios,  graçsa  a  Dona,  ca¬ 
tão  longe  e  bem  Ignorantes,  como  convim  ao  ver¬ 
dadeiro  ftilvicoU.  O  cato  daa  mulher  ca  parecer  ser 
o  mais  complicado,  pois  além  dc  catarem  em  todo 
lugar,  a  qualquer  hora  do  dU  c  da  noite,  aão 
multas.  Estio  In fU iradas  entre  nós,  penetrando 
aos  ossos  lares.  Impregnando  a  cabeça  dc  nossas 
filhas  de  Ideologias  exóticas  e  pregando  a  revi¬ 
ravolta  no  mundo.  Valha-me  Deas!  Sorte  qnc  aio 
minorias'*. 

Ê  isso  ai.  "Minoria”  é  termo  asado  pda 
maioria  para,  menosprezando-*  numericamente, 
ver  se  consegue  esvaziar  o  comendo  Ideológico  de 
seus  questionamentos.  Aliás,  Lampião  o  usava  no 
hi icio.  Quando  percebeu  ser  um  truque  do  poder, 
mudou  para  grupos  oprimidos,  •  que  é  muito 
mais  predso.  Inclusive  as  mulheres  nem  qnaa- 
tltallvnmcutc  aio  minorias.  Se  as  Jantarmos  aos 
negros  e  nos  homossexuais  antio...  Bom,  este 
befesshno  texto  loi  retirado  de  ESCRITOS” 
sobre  o  fcmlafamo  (m9  0)  e  Mo  por  um  grnpo 
diamndo  COSTELA  DE  ADÀO"i  Caixa  Poetai, 
10.d$é _ 90.800 _ Pferto  Alegre _ BS.  A  revista 


E  o  13  de  Maio? 


Ea  13  dc  mmk>  de  IMS  M  mMi  ■  W  qae 
aboliu  a  escravatura  no  Braeft. 

O  qnc  mta  data  represem  a  pura  a  oomuai* 

Estas  qnmtòss  foram  Irvants das  no  dacorrar 
do  Alo  Público  convocado  peio  Movfmoato  Negro 
Untficedo,  sm  SP,  nodfei  IS.oDfeNsdaoslia 
Denúnda  contra  o  Racismo. 

O  ato  público  loi  realizado  no  largo  do  Pafc- 
sandú,  diante  da  Imagem  dú  Mie  Preta,  mm  a 

riúüT! k  repiLentmMm  da  APEOESP, 
to  comra  a  Carestia,  Grnpo  Somes,  Atuação 
Fsmhifeta,  Grupo  Qullombola,  Grupo  Bologun 
de  Ribeirão  Prelo,  etc. 

dor  a  margkiallzação  sodal,  eooammla  e  pollllca 
do  negro  brasltfro,  onuseqiêuHai  de  discri¬ 
minação  recftal  ntllznda  como  meio  de  opressão. 

O  manifesto  do  Dta  Nacional  de  Denúncie 
contra  o  Racismo,  lido  ms  voa  afea  pdos  presen¬ 
te*,  denunciou  “a  violência  policial  como  mdo de 
manter  a  populaçao  sob  rigoroso  controle.  Im¬ 
pedindo  a  reação à  exploração". 

Denunciou  também  a  "flagrante  discrimi¬ 
nação  radal  na  admissão  de  empregos  coeso 
prática  racista  que  desmascara  a  tão  falada 
democracia  racial  pregada  pelo  governo  a  Hm  de 
enganar  a  população  negra  e  a  opkiiào  pública 
muadial".  “Esta  diserta Mação,  continua  o 
manifesto,  é  amparada  por  uma  Justiça  que  até 
boje  não  condenou  nmhum  racista  por  negar 
direito  ao  trabalho,  mas  leva  milhares  de  aegros 
ás  prbòcs  por  furtos  na  tentativa  de  sobrevfven- 
da”. 

Os  manifestos  saíram  cm  paseeate  cm  direção 
ao  Teatro  Mualdpal  com  palavras  de  ordem, 
como  "Abaixo  o  Racfemo",  "Abaixo  o  Subem¬ 
prego”  e  "  Mais  trabalhos  para  os  aegros"!. 

Em  Campinas,  o  Movimento  Negro  Unifi¬ 
cado  elaborou  nm  programa  especial  ao  Centro 
Cultural  Recreativo  de  Campinas. 

O  ponto  alto  fd  o  debate  "Reflexos  da 
Abolição  no  Negro  Brasfldro  ",  onde  ISO  pessoas 
discutiram  sobre  as  «mseqttcadas  da  falsa  li>ar- 
taçáo,  a  marglnallzação  do  negro,  a  questão  do 
preso  comum  e  a  exploração  da  muflicr  negra. 
(Lenny  deOUvdra,  MNU,  SP). 


A  arte  dos  negros 


Os  negros  militantes  do  Brasil  não  cultuam  a 
data  de  13  de  Maio.  dia  da  Abolição  da  Escra¬ 
vatura.  que  consideram  uma  dádiva  do  poder 
concedida  apenas  para  evitar  a  falènda  do  lm- 

LAMPIÃO  da  Esquina 


APPAD* 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


t 


0  PAPA  VISITA  FAVELADOS 

Deu  nos  jornais:  Governo  pede  que  favelados  nfto  corram  atrás  do  Papa 


peno.  Preferem  o  20  de  novembro,  morte  do 
Zumbi  dos  Palmares.  Acontece  que  mal  ou  bem. 
o  13  de  Maio  existe  e  nesta  data  as  entidades 
negras  costumam  manifestar-se.  No  racista  eger- 
manófilo  estado  de  Santa  Catarina,  piaram 
protestos  até  de  Blumenau  e  Itajaí.  Em  São 
Paulo,  o  Movimento  Negro  Unificado  contra  a 
Discriminação  Racial  fez  manifestação  pública 
no  largo  do  Paissandu,  que  foi  organizada  como 
um  anti-13  de  Maio.  um  protesto  oontra  a  hi¬ 
pocrisia". 

No  Rio  de  Janeiro,  o  Instituto  de  Pesquisas  de 
Culturas  Negras  (IPCN),  o  Movimento  Negro 
Unificado,  a  Sociedade  de  Intercâmbio  Brasil- 
África  (SINBA)  e  mais  a  Fundação  patrocinaram 
o  I  PAN  ( Panorama  da  Arte  Negra)  entre  os  dias  9 
e  17  de  maio.  Apesar  da  pouca  divulgação  nos 
meias  tradicionais  de  comunicação,  a  afluência 
foi  maciça  em  todas  as  atividades  que  compareci. 
Vamos  por. partes. 

Houve  uma  parte  musical,  nos  dois  primeiros 
e  no  último  dia.  Neste  último  (concerto  com  João 
de  Aqutno)  não  compareci.  Só  nos  outros,  que 
foram  ao  ar  livre  na  Cinelãndia.  No  primeiro, 
cantrtam  Aniccto  do  Império.  Clementina  de 
Jesue  e  A  Velha  Guarda  da  Portela  —  todos  im¬ 
pecáveis.  No  dia  seguinte  foi  a  vez,  entre  outros, 
de  Elza  Soares.  Led  Brandão,  Toninho  Café. 
Mas  quem  roubou  a  noite  foi  o  saxofonista, 
clarinetista,  cantor  e  compositor  Roberto  Gutma 
—  realmente  uma  grande  revelação  que  enlou¬ 
queceu  o  publico.  Ainda  é  um  pouco  influenciado 
demais  por  Paulo  Moura  e  Johny  Alí,  mas  o  seu 
talento  é  inegável.  Ainda  na  parte  amena,  exibiu- 
se  o  grupo  de  dança  Olorum  Baba  Min  e  também 
o  Ballet  de  Mercedes  Batista. 

Na  semana  seguinte,  foi  a  vez  das  anfofexáas 
e  debates  no  Museu  de  Belas  Artes.  Não  pude 
comparecer  nem  à  do  Rubem  Confete  sobre 
Música  Popular  nem  à  de  Lélia  Gonzalcs  sobre  a 
Mulher  Negra  —  mas  me  disseram  que  foram 
ótimas.  Fui  ver  Abdias  Nascimento  no  lançamen¬ 
to  do  seu  livro  Guiloa  bisão,  editado  pda  Vozes. 
Seu  discurso  foi  uma  obra-prima  da  objetividade 
política,  alertando  contra  divisionisroos  internos  e 
também  oontra  tentativas  de  apropriação  por 
partidos  políticos. 

Assisti  ainda  ao  debate  entre  Zózimo  Bulbul. 
Jorge  Coutinho.  Procópio  M ariano.  Jacira'  Silva. 
Paulo  Roberto.  Zaqueu,  José  Medeiros  e  Alex 
Viany  sobre  O  papd  do  negro  no  efeou  bra¬ 
sileiro.  que  transbordou  ainda  pelo  teatro  e  prin¬ 
cipalmente  pela  TV.  Até  professor  brazilianista 
americano  e  ex-doméstica  que  hoje  é  universitária 
manifestaram-se.  Malhou-se  muito  o  Sindicato 
dos  Artistas  do  Rio  de  Janeiro,  por  sempre  omitir- 
se  quando  personagens,  escritos  para  atores 
negros  terminam  interpretados  por  brancos, 
como  Terror  e  Êxtase  do  nosso  cineasta  amigo 
Antônio  Calmon.  Igualmente  criticada  foi  a  Em- 
brafilme.  cujo  Superintendente  de  Comerciali¬ 
zação  teria  afirmado  a  diversos  produtores  que 
“  filme  de  negro  não  vende" .  A  situação  quase  que 
destrambelhou  só  quando  Zózimo  Bulbul, 
presidente  da  mesa,  dado  à  insistência  da  platéia 
em  falar,  insinuou  que  "era  toda  reunião  da  gen¬ 
te  (leia-se:  negros)  sempre  que  o  microfone  vai 


para  platéia,  vira  bagunça  e  o  nível  cai”.  Zózimo 
é  um  antigo  militante,  embora  continue  elitista. 
Ao  ver  a  loucura  que  tinha  dito.  passou  o  mi¬ 
crofone  ao  povaréu.  Nem  virou  bagunça  nem  o 
nível  caiu.  Muito  pelo  contrário,  a  grande  re¬ 
velação  do  1  f  AN  foi  exatamente  o  alto  nível 
político  dos  espectadores.  (João  Caries  Rodri¬ 
gues» 


Madureira  surreal 

Um  poertuha  _ 

valgo  Muda  rafes  0,  ram 
de  hoaossexua 
banheiro  fumando  e 

_ de  Ki 

Fu.  Pois  asa  28.4.80,  dois  dos  t_ 

—  Lais  e  Pa  alo foram  aan 

papo  muito  surrealista  __  cks  dc  am  lado,  a 

repressão  do  outro _ mais  oa  assaos  isahat 

GERENTE  _”Oque  vocês  fazem  ao  hall  do 
banheiro?”  L/P  _  "Coavenamos  e  fmi 
mos”.  G _ “Voeis  são  homossexuais?”  L/P 

—  "Somos  e  assumimos”.  G  _ “Pois 

que  aqui  é  lagar  de  homens  e 
sexuais".  L/P _“Ts 
só  pode  ser  pr 
Depois  deem  o  gerente  expulsou -cs  e  tem 
barrado  qualquer  um  aa  bflhcterias  O  mais 
engraçado  c  que  eram  os  homossexuais  que 
mantinham  o  dnema  funcionando...  Mas  Isto 
não  vem  ao  caso.  Qu momos  é  i  ber  como  Uca 
a  Igualdade  de  todos  os  ckbdáos  perante  a 
Lei.  Será  que  a  Constituição  foi  rerogada? 
(AUÊ/RIO _ Lutzlnho). 


Na  Universidade 


Na  noite  de  23  de  abril,  a  Universidade  Fe¬ 
deral  Fluminense  promoveu  um  debate  sobre  a 
questão  homossexual  (úc...),  com  a  participação 
da  revista  R adice  de  psicologia,  do  jornal  Lam¬ 
pião.  e  dos  grupos  SOMOS/RJ  e  AUÊRJ,  de 
homossexuais  organizados;  a  sessão  decorreu  no 
auditório  do  Instituto  de  Ciências  Humanas  e 
Filosóficas,  em  Niterói. 

Apesar  de.  numa  sala  ao  lado,  por  coincidên¬ 
cia  em  que  ninguém  acreditou,  estar  se  realizando 
um  debate  sobre  o  proletariado  brasileiro  e  suas 
lutas  específicas,  tivemos  a  presença  de  cerca  de 
300  estudantes  e  professores,  em  animadíssima 
discussão...  e  com  abundantíssima  troca  de 
olhares  paqueradores;  não  foram  poucos,  os 
cariocas  que  passaram  aquela  noite  do  outro  lado 
da  baía.  Correu  tudo  numa  muito  boa.  Bicha  e 
lésbicas  saíram  ganhando.  Um  a  zero. 


Dia  20  de  maio.  das  10  às  duas  da  tarde, 
promovido  pelo  Centro  Acadêmico  dc  Sociologia 
e  no  âmbito  da  Semana  de  Sociologia,  na 
PUC/RJ.  outro  debate  Desta  vez.  o  SOMOS/RJ 
era  o  único  convidado.  Como  a  Reitoria  recusou 
ceder  um  auditório,  o  encontro  foi  num  sala  de 
aula.  pequena  para  receber  mais  de  centena  e 
meia  de  professores  c  alunos  (o  Departamento  de 
Sociologia  estava  em  greve,  repudiando  o  novo 
diretor  nomeado  à  sua  revelia).  Foram  quatro 
horas  de  diálogo  muito  intenso  e  riquíssimo.  E, 
como  na  Fluminense,  pintaram  milhares  mis, 
muitas  paqueras,  almoço  conjunto  e.  sobretudo, 
pintou  muito  etcsicra ...  Bichas  e  lésbicas  saíram 
ganhando.  Dois  a  zero. 

Da  carta-convite  do  C.A..  não  resisto  a  trans¬ 
crever  alguns  trechos  significativos:  (...)  A  ques- 
tão  homossexual  foi  considerada  prioritária. 


o  direito  de  livre 
>  qualquer  grupo  i 
não  têm  vo*  ou  as 
Indivíduo  dispoi 


de  seu  próprio 


corpo,  c  por  encararmos  o  homossexualismo  g__ 
como  uma  anormalidade,  mas  rim  como  uma  op¬ 
ção  ua  busca  do  prazo-,  achamos  Importante  a 
participação  do  grupo  Somos  ua  uoasa  S  raiana  dc 
Sociologia,  c  na  construção  de  uma  vida  melhor, 
benta  de  raprtmòcs.  Afetuossmcnte,  Crioy  Et  a. 
menino  bàoü! 

Neste  debate  puquiano.  além  da  certeza  de 
que  a  organização  homossexual  está  trilhando  o 
caminho  certo,  ficou  claro  o  interesse  crescente  do 
povo  universitário  pela  homossexualidade  e  sua 
discussão;  o  papo  teve  um  excelente  nível  e, 
graças  aos  nossos  orixás,  foram  impedidas  quais¬ 
quer  tentativas  de  falar  socioAogucs-  Mas,  por  que 
os  professores  tiveram  tanto  medo  de  falar,  ali? 

Dolores,  já  batizada  de  La  Parionárla.  pintou 
e  bordou,  se  afirmando  como  a  mulher- forte  que 
estava  faltando  ao  SOMOS/RJ;  beijào.  dona.  E, 
estamos  cobrando  tua  promessa;  queremos  você 
no  Lampião,  logo.  Todos  os  outros  sombtas  e 
sometes.  na  mesa  e  no  salão,  se  con portaram 
maravilhosamente,  deixando  uma  imagem  tão 
boa.  que  estão  chovendo  inscrições  de  novos 
membros. 

Para  junho  ou  julho,  está  pintando  um  oonvite 
da  Medicina  da  UFRJ,  lá  no  Fundão.  Novo 
debate.  Claro  que  as  bichas  organizadas  aceitarão 
e  não  vão  faltar.  Bichas  e  lésbicas  sairão  ganhan¬ 
do.  Três  a  zero. 

Finalmente,  a  universidade  se  vê  obrigada  a 
abrir  suas  portas  aos  homossexuais.  Não  se  trata 
de  uma  concessão,  de  um  terreno  cedido,  não.  Ao 
contrário,  é  um  espaço  conquistado  por  nós.  com 
muita  luta.  muita  briga,  algumas  lágrimas...  e 
muito  suor. 

Dedsivamente.  definitivamente,  a  viadagem  e 
a  sapataria  passam  ao  ataque  também  na  univer¬ 
sidade.  nesta  cidade  que  leva  o  nome  do  mais 
fresco  e  d  es  munheca  do  dos  santos  católicos.  Ou, 
como  um  certo  hetero  gritava  na  PUC.  infla¬ 
madíssimo:  o  cotio  anal  destrói  o  capital!?  ( J  C ). 


,T  I 
1  » 


Página  15 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


Bixórdicr 


Walmir  Ayala?  Viva! 


Parece  que  a  Academia  Brasi¬ 
leira  de  Letras  abandona,  pouco  a 
pouco,  a  sua  postura  conservadora: 
depois  da  admissão  de  mulheres, 
aceitou  agora  a  inscrição  do  poeta. 
Walmir  Ayala  Â  vaga  de  José; 
Américo  de  Almeida.  Em  que  pese  o 
forte  conteúdo  politico-liter&rio  dei 
outras  candidaturas  —  como  a  dei 
José  Samey  —  à  mesma  vaga,  LAM- 
PIÀO  fica  com  Walmir  Ayala,  pelo 
significado  de  sua  eventual  entrada 
na  ABL:  poeta  de  primeira  àgua  é 
autor,  dentre  outros  títulos,  de 
“Nosso  Filho  Vai  Ser  Mãe”,  “En¬ 
quanto  a  Pena  Não  Chega”,  “A 
Salamanca  do  Jarau”,  “A  Beira  do 
Corpo”,  além  de  dois  apetitosissimos 

Uma  das  coisas  mais  adoráveis 
do  I  EGHO  foi  o  Correio  Elegante 
que  acontecia  toda  vez  que  havia 
mais  de  20  pessoas  reunidas.  Os 
pombinhos  Reinaldo  e  Maestro 
quase  desmaiaram  com  o  impossivel 
movimento  de  bilhetinhos  de  amor 
com  telefones,  endereços,  galanteios 
e  cantadas  de  todos  os  géneros. 
Havia  troca-troca  assim:  “Quer  ir 
para  casa?  Tenho  até  KY.”  Respos¬ 
ta:  “Vocé  tem  KY  e  eu  tenho  o  al¬ 
fabeto  inteiro  à  sua  espera.  Beijos 
ansiosos.”  Ou  então:  “Tenho  um 
telefone  CVV,  Centro  de  Valorização 
de  Viado.  Valorize-se.  Toque  pra 
lá.”  Resposta:  “Vocé  tem  CVV  e  eu 
um  SL,  SEXO-LOUCO,  que  além  de 
safado  é  anarquista.”  Havia  bi¬ 
lhetinhos  mais  audaciosos:  "Topas 
escrever  um  poema  nas  entranhas  do 
meu  ser?”  Ou  modestamente  po¬ 
litizados:  "Vocé  è  um  doce.  Viva  a 
subversão.”  Ou  pudorosamente 
melodramáticos:  “Olho  para  você  e 
fico  com  as  calcinhas  molhadas.”  Ou 
francamente  descarados:  “Quero 
sofrer  ê  com  a  sensação  infinita  de 
ser  uma  garrafa  de  champanhe  fran¬ 
cesa  (safra  52)  sendo  arrolhada.” 


•  A  sexualidade  esti  na  ordem  do  dia.  Ela 
saiu  is  ruas  aomo  se  pode  ver  na  matéria  deste 
número  sobre  as  ptchaçòes  de  caráter  homos¬ 
sexual  nos  muros  de  Salvador.  Também  em 
Brasília  as  paredes  das  passagens  subter¬ 
râneas  dos  eixos  monumentais  estio  tomadas 
de  dizeres  em  spray  vermelho  falando  de  li¬ 
beração  sexual  e  Retch.  Foi  em  Porto  Alegre, 
porém,  que  pintou  a  coisa  mais  singela  e  con¬ 
cisa  que  se  pode  desejar  sobre  o  assunto.  Num 
muro  de  uma  demoliçio,  na  Av.  Oswaldo 
Aranha,  alguém  muito  inspirado  escreveu: 
"Joio  ama  Pedro.  Por  que  nio?" 


Atenção,  bichas  e  sapatões: 
vale  a  pena  ir  dar  uma  olhada  na 
peça  “Queridos  Monstrtnhos”, 
que  está  estrelando  neste  co¬ 
meço  de  junho  no  Teatro  Casa 
Grande,  aqui  no  Rio.  O  autor  è 
Paulo  César  Coutinho;  no  elen¬ 
co  tem  uma  amiga  nossa.  Már¬ 
cia  Vasconcelos;  e  os  figurinos 
são  do  lampiõnico  Mário  Valle. 


volumes  de  “Diário  Intimo”.  Se 
houvesse,  na  literatura  contem¬ 
porânea,  algum  autor  a  quem  o 
caudaloso  (literariamente)  Ayala 
pudesse  ser  comparado,  seria  cer¬ 
tamente  Roger  Peyrefitte,  o  francês 
que  escreveu  “As  Amizades  Par¬ 
ticulares”,  franco  elogio  ao  amor 
uranista.  Seria  a  glória  a  presença  de 
Walmir  Ayala  na  Casa  de  Machado 
de  Assis.  LAMPIÃO  já  colocou  a 
hermosa  Rafaela  Mambaba  em 
franca  cabala  eleitoral:  WALMIR 
NA  ACADEMIA!  MARCHARE¬ 
MOS  SOBRE  A  ABL,  SE  PRECISO 
FOR!  —  estes,  dois  dos  slogans 
bolados  pela  Mambaba  em  prol  do 
nosso  poetinha. 


•  De  393  candidatca,  o  Departamento  de 
Polida  sdedonou  nove  bichas  e  sete  sapatões, 
como  recrutas  da  Academia  de  Polida,  para 
integrarem  um  corpo  especial  destinado  a 
atuar  no  mundo  entendido,  com  a  finalidade 
de  defenderem  os  homossexuais  de  violènáas, 
chantagens  e  outras  coisas  do  tipo. 

O  projeto  tem  um  coordenador  espe¬ 
cífico,  que  cuida  do  recrutamento.  Na 
Academia,  as  boas-vindas  foram  dadas  por 
uma  mulher  major  que,  em  seu  nome  e  em 
nome  do  Chefe  da  Policia,  afirmou  que  o 
Departamepto  se  sentia  honrado  com  tal 
acontecimento,  esperando  ser  seguido  e 
imitado  por  todos  os  departamentos  policiais 
dopais.,. 

Acordem:  tudo  isto  aconteceu  em  Sio 
Francisco,  nos  Estados  Unidos  da  América. 
Que  é  que  vocês  estavam  pensando? 


•Arqueologia  gay _ Nosaa  colaboradora 

Mary  Inana  vinha  andando  pda  Cfarfâadfc, 
quando  ouvia  grítoa  a  atoa  «tu  fteutc  do 
dscaa  Odeou.  Aproximou-se  pautando  qu« 
«ra  Nevfle  de  Almeida  redamaado  da  renda 
da  Sete  Gatinhas,  mas  eram  duas  bonecas  en¬ 
galfinhadas.  O  mak  engraçado  é  que  a  briga 
uAo  era  por  causa  da  acabam  bomeas,  mas 
pdo  éltlmo  exemplar  de  mm  Hvrtnho  de  capa 
prateada  na  barraqufaaha  da  ivraria  Ler. 
Nome  do  livro?  Los  primeiros  movimentos  en 
favor  de  los  derechos  homosexualcs  (1864- 
1935),  de  John  LauHtxca  e  Davfd  Tborst, 
volume  78  da  colação  Cuadsmos  ínfimos  da 
Édftova  Tasqueis,  ds  Barcelona.  Mary,  que  Já 
tinha  IMk  garante  que  é  uma  obra-prima  e  da 
lácÜ  leitura,  anbora  ufto  muito  barato  (Crt 
308,00). 


•  Atenção,  pessoal:  dia  16  de  junho,  a  par¬ 
tir  de  20h30m,  na  Livraria  Muro,  o  lançamen¬ 
to  do  livro  "O  Cego  e  a  Dançarina",  de  Joio 
Gilberto  Noll.  O  autor,  pra  quem  nio  se  lem¬ 
bra.  publicou  no  LAMP1ÂO/23  um  canto  lin¬ 
díssimo:  "Domingo  sem  Néctar".  Assim,  em¬ 
bora  o  livro  nio  seja  da  Esquina  Editora,  a 
gente  convida  pro  lançamento  de  Joio  Gilber¬ 
to:  ele  é  dos  nossos. 


*  Ti  Boa,  Santa?  —  Ga  beba,  em  recente  en¬ 
trevista,  dedarou-se  precursor  no  Brasil  dos 
movimentos  gay,  negro  e  da  llberaçio  da 
maconha.  Que  é  iaao,  companheiro?  Quando 
você  ainda  era  careta,  uòs  aqui  fk  «atávamos 
pn  lá  de  Bagdá...  Isso  é  que  dá  dcsbuadhr 
aos  quarenta.  Mas  antes  tarde  do  que  nunca. 


Comentário  melífluo  de  Rafaela  Mambaba  após  ler  um  relatório  com¬ 
pleto  sobre  a  participação  brasileira  no  congresso  das  culturas  negras  no 
Panamá:  “Hum!  Tem  muita  nhâ-nhã  branca  falando  em  nome  do  movimen¬ 
to  negro...  Es  crioulas,  quando è que  vâose manifestar?” 


Página  16 


l**  Brandho:  agora,  eia  é  também  uma  intérprete  firme  e  apaixonada 


Emílio  e  Leci: 
Essas  Tais  Criaturas... 


Quem  curte  o  que  há  de  mais  puro  e  verda¬ 
deiro  no  nossa  MPB,  nflo  deve  ter  perdido,  neste 
més  de  maio,  dois  grandes  espetáculos:  O  de 
EmBio  Santiago,  na  Sala  Funarte,  e  o  de  Leci 
Brandão  no  Teatro  Opinião. 

Emilio  Santiago,  carioca  de  Botafogo,  sa- 
gitariano  e  formado  em  Direito,  é  sem  dúvida 
nenhuma  um  dos  melhores  cantores  surgidos  nos 
últimos  dois  anos,  senão  o  único.  Ele  se  propõe  a 
apenas  cantar  sem  dar  uma  de  instrumentista  ou 
de  compositor,  o  que  é  muito  raro  atualmente  na 
nossa  música.  Apesar  de  não  sair  bradando  pelos 
quatro  cantos  da  cidade  sua  homossexualidade, 
de  apresenta-se  como  sendo  uma  pessoa  bastante 
assumida,  inclusive  usando  e  abusando  de  sua 
sensualidade  em  suas  apresentações.  É  de  dar 
água  na  boca* 

No  Show,  Caato  Crescente,  que  teve  uma  cur¬ 
ta  temporada  na  Sala  Funarte,  Emilio  pode  mos¬ 
trar  seu  amadurecimento  e  sua  segurança,  além 
do  já  conhecido  talento;  que  vem  num  crescente 
desde  o  tempo  em  que  participava  de  programas 
de  calouros  e  que  cantava  em  bailes  como  crooner 
da  arquestra  do  Maestro  Formiga  e  do  Conjunto 
de  Ed  Lincoln. 

Dividido  em  três  partes  —  Noite,  Madrugada 
e  Dia  —  o  espetáculo,  que  teve  a  direção  de  Ar- 
thui  Laranjeira  e  Sérgio  Rocha,  mostrou  a  har¬ 
monia  natural  do  cotidiano,  como  se  fossem  trés 
histórias  acontecidas  em  trés  tempos  distintos. 
Histórias  que,  segundo  Arthur,  foram  vividas  e 
acumuladas  durante  muitas  noites,  muitas 
madrugadas  e  muitos  dias.  Coisas  comuns,  que 
estão  soltas  no  ar  e  que  só  marcam  a  todos 
aqueles  que  tenham  o  coração  aberto  para  as  ' 
barras  do  amor. 

Emilio  Santiago  mostra  seu  lado  romântico,  o 
lado  que  normalmente  não  é  divulgado  e  nem 
comercializado.  Sem  ser  sentimentalóide  e  com 
um  roteiro  bem  selecionado  de  autores,  .e  com¬ 
positores  transando  junto  com  Arthur,  onde 
podemos  destacar :  A  Noite  de  Ivan  Lins  e  Victor 
Martins;  Dama  da  Noite  de  João  Nogueira  e 
Maurício  Tapajós ;  Fim  de  Noite  de  Chico  Fritosa; 
Mentiras  de  João  Donato  e  L.  Enio;  Quase  Sem¬ 
pre  de  Edú  Lobo  e  Cacaso;  Noticia  de  Jornal  de 
Luiz  Reis  e  H.  Barbosa;  Nascente  de  Flávio  Ven- 
turíni  e  Murilo  Antunes,  Emilio  mostra  toda  sua 
garra. 

O  sucesso  do  Show  na  Sala  Funarte  foi  tão 
grande  que  a  turma  que  organiza  a  série  Noturno 
(que  acontece  de  quarta  à  sábado,  ás  21h,  na  rua 
Araújo  Porto  Alegre,  80  —  Centro),  resolveu 
fazer  uma  nova  temporada  que  irá  de  7  de  junho. 
Se  vocé  não  conseguir  ver  o  show,  o  que  vai  ser 
uma  pena,  não  deixe  de  escutar  o  último  LP  "O 
Canto  Oeacente  de  Emílio  Santiago",  onde  além 
de  incluir  autores  como  Cartola,  Chico  Buarque  e 
Aldir  Blanc,  ele  mostra  o  que  é  ser  realmente  um 
cantor,  e  de  forma  bem  natural. 

Como  não  podia  deixar  de  ser,  o  show  de  Leci 
Brandão  da  Silva,  no  Teatro  Opinião,  mais  uma 
\ez  fez  o  maior  sucesso.  Muito  mais  descontraída 
e  solta,  e  transando  o  espaço  e  o  corpo  harmo- 
nicamente,  Leci  mostra  sua  nova  fase. 

Desde  os  tempos  dos  Festivais  Ginasianos  e  do 
começo  de  sua  participação  na  ala  dos  compo¬ 
sitores  da  Mangueira,  nos  idos  de  70,  Leci  sempre 
deixou  patente  seu  talento,  que  a  cada  dia  que 
passa  aumenta  consideravelmente,  ampliando  as¬ 
sim  seu  público,  ainda  pequeno.  Mas  Leci  não  se 
importa  com  números  e  insiste  na  qualidade . 


Emilio:  afinal,  um  cantor 


Com  seu  show  ela  lança  o  terceiro  LP  “Ema 
Tal  Qriatara",  que  marca  uma  nova  fase  no  seu 
trabalho  e  onde  ela  acrescenta  ao  seu  repertório 
compositores  e  autores  como:  Zé  Ramalho,  Ivan 
Lins  e  Angela  RO  RO  (segundo  ela,  a  louca 
lúcida).  Gomo  nos  seus  dois  trabalhos  anterior eí, 
"Coisas  do  Meu  Ptmoal"  e  "Questio  de  Goato", 
a  abordagem  homossexual  se  faz  presente  em  seu 
novo  LP.  Leci  não  tem  medo  de  se  mostrar  como 
lésbica  e  faz  questão  de  afirmar  que  encara  seu 
trabalho  como  uma  militância,  através  do  qual 
procura  transmitir  uma  força,  uma  segurança, 
para  as  pessoas,  que  como  ela,  são  oprimidas  e 
marginalizadas  por  essa  sociedade  hipócrita,  que 
não  permitem  que  os  indivíduos  tenham  uma  op¬ 
ção  de  vida  e  cultivem  o  seu  jdto  de  ser. 

O  show  do  Teatro  Opinião,  que  também  teve 
uma  temporada  curtíssima,  foi  dirigido  pelo  in¬ 
crível  Otonid  Serra.  A  arena  do  Teatro  Transfor¬ 
mou-se  numa  verdadeira  "Vereda  Tropical",  com 
muitas  folhas  secas,  frutas  e  uma  pinga  dd idosa, 
daquelas  de  se  guardar  em  adega,  e  que  foi  dis¬ 
tribuída  entre  o  pessoal  presente.  Deu  para  fazer 
a  cabeça.  Na  platéia  se  encontrava  Emílio  San¬ 
tiago,  que  curte  muito  o  trabalho  de  Led,  por 
sinal  fazia-se  muito  bem  acompanhado  por  rinco 
gostosos  garotões,  um  dos  quais  merecia  parti¬ 
cular  atenção  do  cantor. 

Do  roteiro  constavam  músicas  como:  Margot 
de  Edil  Pacheco  e  Paulo  Dinis,  que  conta  a  his¬ 
tória  de  um  travesti;  Chantagem  de  Led  dirigida 
aos  mau  caráter  que  se  aproveitam  de  situações 
onde  assumir  a  homossexualidade  é  algo  danoso, 
para  assumir  o  papel  do  opressor;  Me  Acalmo 
Dmnaajlo  de  Angela  RO  RO  e  finalizando  Essa 
Tal  Qrfatura  de  Leci,  que  voca  a  busca  do  prazer, 
seja  como  for  e  qual  for,  pelos  seres  humanos  — 
Corra  no  campo /Leva  um  tombo/  Rala  o  joelho/ 
Mata  esta  sede/Durma  na  rede/sonha  com  a 
lua/Grita  na  Praça/Picha  as  paredes/Ama  na 
maior  liberdade... abra, /escancara  esse  pei¬ 
to 

Recentemente,  numa  homenagem  feita  pela 
produção  do  Show  do  Blffto  Cabaré.  Led  mais 
uma  vez  afirmou  que  seu  trabalho  tem  sido  feito 
com  muito  sacrifício,  eque  as  barras  e  as  batalhas 
ganhas  foram  estimuladas  não  só  pda  confiança 
em  seu  trabalho,  que  considera  consequente,  mas 
principalmcnte  por  acreditar  nas  pessoas  iguais  a 
da  e  para  as  quais  dedica  todo  seu  esforço,  os 
homossexuais,  essas  tais  criatuasí  (António 
Carlos  Moreira) 

LAMPIÃO  da  Esquina 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


★ 

★ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


iTENDÊNCIASl 


Bisso,  toujours  Bisso 


Neste  momento  em  que  todos  os  fazedores  de 
humor  se  condicionam  aos  padrões  de  baixo  as¬ 
tral  da  televisão,  ou  apelam  para  os  palavrões, 
cujo  baixo  astral  é  idêntico,  surge  em  oena  mais 
uma  ver  Patricio  Bisso.  Talvez  seja  um  benefício 
para  nos.  que  ainda  sabemos  diferenciar  e  exigir 
qualidade,  que  Patricio  Bisso  não  tenha  atingido 
aquela  popularidade  massificada  e  massificante 
dos  ídolos  da  tevê.  Porque  de  é  um  comediante 
muito  especial,  e  por  isso  unico.  Sua  'verve*’  se 
apoia  num  patético  que  dispõe  como  meio  básico 
de  exprcsào.  da  mascara  branca  e  impessoal  dos 
dássicos  da  mímica,  como  Barrault.  Maroeau.  ou 
um  tristonho  comediante  do  dnema  mudo.  cujo 
nome  não  me  ocorre  agora  Porem  de  não  fica  só 
nisso:  outro  dos  seus  elementos  de  cena  e  a  nos¬ 
talgia  das  antigas  divas  cinematográficas,  desde  a 
ingênua  Mary  Pickford  até  as  glamurosas  dos 
anos  50. 

Patrício  Bisso  nunca  fez  travesti  no  sentido 
ornium  —  e  ator  transformista,  o  que  ainda  é 
pouco  para  explicar  a  sua  incrivd  versatilidade  e 


seu  talento  incomum.  Seu  humor  é  criativo  e lim¬ 
po.  inteligente  e  erudito,  coisa  rara  nestes  dias  de 
apelação  imediatistas...  Sozinho  em  cena.  a  sua 
presença  estática  sob  um  refletor,  com  um  dos 
trajes  propositada  mente  ‘‘kitsch"  que  ele  mesmo 
constrói  (construir  e  bem  o  termo  para  definir  o 
ato  de  criar  tão  estranhas  vestimentas  com  tão  es¬ 
tranhos  acessórios»,  já  é  sufidente  para  que  de 
segure  o  publico  que  permanece  magnetizado  c  à 
sua  disposição. 

Este  show  "Caprichos  do  Coração’*  (Teatro 
Brigadeiro.  São  Paulo,  somente  às  quintas  e  sex¬ 
tas  à  meia-noite)  e  tão  perfeito  que  fica  difícil  des¬ 
tacar  o  que  se  considere  mdhor.  Cabe  porém  uma 
referência  especial  a  sua  magnifica  Gioconda.  a 
Mona  Lisa  do  enigmático  sorriso,  pela  excep¬ 
cional  criatividade  plástica. 

Patricio  Bisso  merece  uma  vinda  a  São  Paulo, 
dos  que  morem  em  outras  cidades  Para  os  daqui. 
Patricio  e  programa  obrigatório.  Mais  que  isso:  é 
vacina  contra  a  burrice  e  a  vulgaridade  vigentes, 
t  Darcy  Penteado*. 


Quem  tortura  quem? 


*‘E»te  ê  um  texto  sobre  o  escravo,  contado  do 
lado  do  chicote*'.  £  nesta  linha  de  idéias  que  te 
desenvolve  a  historia  de  tortura  dores  que  apelam 
a  uma  autoridade  mais  graduada  __  uma  mulher 
paradoxalmenle  chamada  Piedade  e  colocada  na 

peça  tomo  homossexual _  para  resolver  o  caso 

da  morte  de  um  torturado,  o  operário  btsuflador 
de  greves  na  FABRICA  DE  CHOCOLATE  * 
Interrompendo  sua  partida  de  tênis,  da  planeja 
um  golpe  duplo:  antes  do  prhlondro  se  "suici¬ 
dar*,  ek  primeiro  mataria  seu  carcereiros  o 
policial  mais  temeroso  de  todos,  portanto  o  menos 
preparado  para  suas  I unções. 

Os  destaques  vão  para  Ruth  Escobar  e  Joae 
Dumoni.  Também  multo  boa  atuação  de  Mllanl 

e  João  Jose  Pompeu.  Mario  Prata _  o  autor _ 

lem  o  bom-senso  de  não  cair  num  sentimentalis¬ 
mo  piegas;  ao  contrario,  coloca  o  tortura  dor  como 
uma  espede  de  profissional  competente,  com  goa- 
lo  e  vida  comuns,  falando  o  tempo  lodo  de  seu 
trabalho,  como  se  fosse  tão  gral  Iflcante  quanto  os 
demais. 

No  entanto,  ha  soluções  bastante  precárias. 
Por  exemplo:  a  morte  do  Jo vem  polldal  des¬ 
preparado.  Quem  qubesse  se  descartar  rapi¬ 
damente  de  um  colega  assustado  não  optaria  por 
aqudea  mclodos  Indiretos,  perigosos  e  de  êxito 
duvidoso. 

Também  papel  knsolHo  _  Igual  ao  do  tor- 

turador  louco  _  é  o  do  dono  da  fábrica,  patrão 
que  dedura  o  empregado,  o  morto.  Ek  aó  entra 
em  cena  para  ouvir  uxn  discurso  Ideológico,  onde 
a  burguesia  estaria  em  ligação  direta  com  o 
aparelho  polldal:  o  sustentaria  com  seu  dlnhdro, 
mas  a  polida  faria  para  de  o  serviço  dos  llxdros, 
arrecadando  os  marginais  que  sujassem  tuas  em¬ 
presas.  A  própria  referenda  á  mulher  da  tor- 
furadora,  corno  tendo  pertencente  á  alia  sode- 
dade.  c  mah  um  lance  que  confirmaria  a  tese  de 
que  a  burgacala,  em  rodos  os  aivds,  Indaslve 
através  da  cama,  conviveria  (e  estaria  compro¬ 
missada»  Intima  e  »l  cridos  amente  com  o  sistema 
represa or  e  torturante. 

Enquanto  a  falha  fka  sò  ao  nível  da  gratui¬ 
dade  dos  personagens,  tudo  bem.  Mas  no  caso  de 
Piedade,  o  problema  torna-se  mais  grave  por  con¬ 
ter  forte  dose  de  estereótipo:  na  concepção  do 


autor,  como  uma  mulher  feminina  nâo  se  en¬ 
caixaria  no  papel  de  torturadora  implacável,  o 
homossexualismo  justifica  o  autoritarismo  dela, 
bem  como  sua  forma  de  agir.  Portanto,  além  de 
ser  detalhe  prescindível,  ainda  é  preconceituoso, 
ao  tentar  "explicar"  o  comportamento  de  Piedade 
por  ser  ela  urr  "tremendo  sapatão**,  como  co¬ 
mentam  os  colegas  torturadores  na  sua  ausência. 

As  mulheres  autoritárias  nâo  precisam  neces¬ 
sariamente  ser  homossexuais  do  tipo  machas.  Por 
apresentar  capacidade  de  comando.,  de  plane¬ 
jamento.  inteligência,  decisão,  energia,  raciocínio 
lógico,  sangue-frio  na  execução  das  taiefas  ou 
seja,  qualidades  ditas  **masculinas**  ,  teve  de  ser 
masculinizada  para  poder  ser  igual  ou  mesmo 
superior  aos  seus  colegas . 

Numa  sociedade  patriarcal  é  o  homem  quem 
manda,  ordena,  brilha, executa,  decide,  delibera. 
Ê  nisso  'que  dá  a  reprodução  de  papéis:  uma 
mulher  bem  sucedida  na  vida  tem  de  ser  "como 
um  homem**;  mas,  paradoxal  mente,  já  que  isso 
nâo  pode  ser  conseguido  dentro  da  "normáli- 
dade"  (onde  ficam  a  sensibilidade  e  a  ternura 
femininas?)  foi  forçoso  igualá-la  sexulmente  a 
seus  parceiros  .£  mais  seguro  acreditar  em  pa¬ 
drões  estabelecidos  do  que  aceitar  que  ela  pode 
odiar  e  matar,  como  qualquer  outro  ser  humano. 
A  frase,  válida  para  o  torturador,  também  serve 
para  a  mulher :  ambos  são  resultados  e  não  pontos 
de  partidas. 

Enquanto  a  vida  dos  demais  personagens  é 
normalíssima  e  identificável  com  a  maioria  das 
pessoas  da  classe  média,  o  que  o  público  fixa  com 
relação  à  torturadora  é  que  ela  é  ‘lésbica**. 
Piedade  é  á  única  a  ter  duas  características  in- 
comuns:  *\t  homossexual"  (minoria)  e  ‘biacha’* 
(minoria  da  minoria).  Por  ser  ‘^ssirn**  é  que  ela 
age  "assim**.  Que  alivio:  estio  salvas  as  mulheres 
de  família. 

Se  nâo  fosse  por  estes  furos,  ‘TÁBR1CA  DE 
CHOCOLATE**  seria  excelente.  Mas  “urna 
análise  das  vísceras  do  torturador"  -  como  a  peça 
é  definida  -  deveria  penetrar  fundo  em  suas  en¬ 
tranhas,  não  através  de  julgamentos  precon¬ 
ceituosos,  mas  de  corajosa  percepção  da  própria 
realidade,  que  nâo  precisa  conter  nada  de  par¬ 
ticular  nem  de  estranha,  quando  se  trata  de 
mulher,  para  parecer  verdadeira. (Leila  Miccolis) 


Patrício  Bisso 

Teatro  europeu  no  Brasil 

T  razido  pelo  SNT.  esta  no  Brasil  o  Teatro  Ex¬ 
perimental  de  Cascalf.  sem  dúvida,  a  companhia 
vortuguesa  internadonalmente  mais  conhecida 
Posteriormente,  virão  A  Barraca,  também  por- 
uguersa,  e  o  CEDT4E  (Companhia  Francesa 
jriada  e  dirigida  pelo  brasileiro  Augusto  Boal» 

Lemos  que  louvar  o  trabalho  de  nosso  amigo 
Beto.  do  SNT.  a  cuja  ousadia  corajosa  se  deve 
muito  desta  reali/üçâo.  sabemos. 

O  Teatro  Experimental  de  C  ascais.  TEC.  é  o 
gijipo  experimental  mais  badalado  do  teatro 
luSitano.  com  constantes  excursões  pela  Europa. 

A|hca  t  Asia  Agora.  de<  estão  no  Brasil,  donde 
seguirão  para  a  Venezuda.  primeiro,  e  para  a 
Polónia,  depois.  Após  uma  exilosa  mas  aciden¬ 
tada  temporada  caruica.  acidentada  devido  à  es¬ 
colha  do  Teatro  Glauce  R<»cha.  de  dimensões  c 
condições  impróprias,  o  TEC  estara  em  São  Paulo 
1  Gil  Vicente»  e  Brasília  (Teatrodo  Parque). 

Dirigido  pelo  divino  Carlos  Avilez.  seu  fun¬ 
dador.  o  TEC  trouxe  ao  Brasil  sds  dos  mais  im¬ 
portantes  espetáulos  dos  seus  mais  de  15  anos  de 
vida:  Auto  da  Indla  e  Auto  da  Barca  do  Inferno, 
de  Gil  Vicente;  D.  Qulxote,  de  Cervantes,  em 
adaptação  de  Yves  Jamiaque  (Prêmio  Nacional  de 
Encenaçào/1%8,  Portugal  Oscar  da  Imprensa 
para  a  mdhor  encenação/  1%8.  Portugal; 

Prêmio  Internacional  de  Barcelona  para  a  mdhor 
realização  plástica/  1968.  Espanha».  Oração  e 
Dois  Verdagot.  de  Arrabal;  Fucntenefuna  de 
Lope  de  Vega;  Ivone,  Princesa  de  Borgonha.  de 
Gombrowicz  t  Prémio  para  o  mdho  espetáculo  do 
ano/  1972.  Portugal;  Prêmio  de  Crítica  pela 
mdhor  encenação  do  ano/  1972,  Portugal; 

Prêmio  de  Encenação  da  Secretaria  de  Estado/ 

1972.  Portugal);  e  A  Maluqulnha  de  Arroios,  de 
André  Brun  (Prêmio  Nacional  de  Encenação/ 

1967.  Portugal;  Oscar  da  Imprensa  para  o  mdhor 
encenador/  1967,  Portugal). 


São  espetáculos  belíssimos,  estes,  que  vi  em 
Portugal,  revi  em  Angola  e  estou  re-revendo  no 
Brasil.  Gente  finíssima,  muita  charme  e  bom  gas¬ 
to.  um  visual  chiquemmo.  excelente  escola, 
bdissima  expressão  vocal-corporal. 

Não  me  batam,  se  eu  disser  que  é  unia  lição  de 
I  cairo.  de  um  certo  tipo  de  Teatro,  assistir/  par 
tinpar  a  uma  exibição  do  TEC.  È  mesmo,  sim 
senhor. 

No  denco,  alguns  dos  nomes  mais  respei¬ 
tados.  respeitáveis  e  queridos  da  cena  lusitana, 
ooino  Antônio  Marques.  Cecília  Guimarães, 
Isabel  de  Castro  (para  mim.  a  melhor  atriz  do 
ementa  português).  João  Vasa».  Maria  Alber¬ 
garia,  Zita  Duarte  (a  favorita  das  marias-bonitas 
lusíadas).  Rogério  Paulo  (o  melhor  ator  da  ‘‘santa 
lerrinha  “? ».  Ruy  de  Matos.  Ivone  Silva  (a  pri¬ 
meira-dama  da  Revista  Alfacinha),  Dona  Fer¬ 
nanda  Coimbra  (quase  oitenta  anos  de  sedução  e 
i  alento),  c  essa  coisa  fofíssima  que  e  o  lindíssimo 
Nuno  Emanuel!!! 

Me  parece  que  uma  das  descobertas  mais  for¬ 
tes  desta  Companhia,  é  a  de  amseguir  transar  es¬ 
petáculos  de  agrado  geral.  Todos  gastam;  intelec¬ 
tuais  (sic.  sic.  SÍC...I.  gente  de  teatro,  classe  média 
e.  sobretudo,  bichas  e  sapatões,  que  ali  encon¬ 
tram  coisas  lindas  de  morrer,  com  potenciais 
paqueras  mis.  Ê  só  ter  coragem,  tentar,  insistir,  e 
garanto  que  ninguém  vai  se  dar  mal.  (loào  Car¬ 
neiro) 


Marco  Aafôak)  Chagas  Gmkmaiêm 
( Psleáiogo  —  CRP  05/2550) 

Coasoétòrioi  Praça  Sa«i  P«*a,  45/15*2, 
TI  Jaca.  TsMoasai  2*44714  -  Marcar  hora 
das  14  àa  17  horas. 


Quando  o  certo  é  o  avesso 


A  dublagem  —  ou  aalcagem,  como  é  chamada 
pdos  adeptos  desta  suposta  arte  —  alastrou-se 
como  uma  praga  entre  os  travestis  "artistas" 
nivelando-os  a  todos  —  talentosos  ou  não  — 
numa  mesma  faixa,  a  da  falta  de  imaginação. 
São  poucos  os  que  conseguem  transcender  os 
limites  da  micagem.  apresentando  nos  palcos  al¬ 
guma  coisa  de  realmente  inventiva  (é  o  caso.  por 
exemplo,  da  Andréia  Gasparelli,  a  ‘Gal  Costa": 
este  sim,  um  transformista  que.  quando  começar 
a  cantar,  terá  condições  de  se  transformar  na 
Rogéria  dos  anos  80). 

Por  causa  dessa  característica  —  ura  show  de 
dublagens  —  é  que  não  se  esperava  muito  do  novo 
espetáculo  do  Bifào  Cabaré,  que  Adão  Acosta, 
produtor  da  casa  e  lampiõnioo.  intitulou  de  Noite 
do  Avesso.  E  verdade  que.  no  show  anterior,  um 
detalhe  jà  havia  sido  notado  —  a  ausência  de  es- 
trelismo  do  elenco:  pela  primeira  vez.,  sentia-se 
que  um  grupo  de  travestis  fazia  um  ‘‘trabalho  de 

LAMPIÃO  da  Esquina 

•  u(i  ÔÀI^M4  1 

áâ  •  •  I  #  •  •  *  ó  s  V  I  I  ¥  I  ^  r 


equipe**  —  um  ajudando  o  outro,  o  que  já  era 
uma  novidade.  £  verdade  também  que.  no  show 
anterior  do  Bifào  Cabaré,  os  travestis  não  apenas 
dublavam  cantoras,  como  procuravam  parecer  o 
mais  possivd  cora  elas.  Além  da  própria  Andréia 
(que  é  Gal  Costa;  a  verdadeira  Gal  é  uma  imi¬ 
tação).  Adriano  (Maria  Alctna),  Rodà  (Zezé 
Mota).  Ana  Karina  Berg  (Lecy  Brandão)  eCynt ia 
Levy  (Shirley  Bassey)  eram  imitações  perfeitas. 

Na  Noke  do  Avesso  eles  continuam  a  dublar 
suas  artistas  preferidas  na  prímera  parte,  que 
conta,  ainda,  com  a  participação  de  Laura  de 
Vison  e  seus  seios  impossíveis,  e  de  Mabel  Luna. 
uma  argentina  que  dubla  Dalila.  Mas  é  na  segun¬ 
da  parte  que,  como  diz  o  apresentador  Fernando 
Moreno,  "tudo  se  transforma**,  e  os  artistas  do 
Bifào  Cabaré  parecem  citar  Brecht  ("o  que  è  certo 
não  é  certo;  as  coisas  não  ficam  como  estão"). 
Eles  vêm  ‘‘pelo  avesso”,  ou  seja.  mostrando  o 
outro  lado  de  sua  ambiguidade.  E  então.  Mabel 


»r*o- 


Luna  se  transforma  num  malandro  portenho  es¬ 
tonteante,  a  cantar  o  "tango  de  mi  vida";  Laura 
de  Vison  consegue  esconder  os  fartos  seios  para  se 
transformar  num  palhaço  angustiado;  Cynthia 
Levy  exacerba  a  dengosa  frescura  do  baiano  Gil¬ 
berto  Gil.  cantando  Rcalc*  Rodà  aparece  de 
Emílio  Santiago;  Aija  Karina  Berg  volta  às  suas 
origens  e  apresenta  um  genial  c  gingatissimo 
sambista  de  partido  alto;  Adriano  faz  as  bichit&s 
miarem  de  prazer  dublando  um  Malcom  Roberts 
tão  perfeito  que  tem  até  o  detalhe  da  volumosa  c 
apetitosa  mala  posta  de  lado;  e.  no  grande  final 
Andreia  Gasparelli  prova  definitivamente  que  o 
certo  é  o  avesso;  entra  vestida  de  Shirley  Bassey  e 
dublando  Thls  Is  m>  Uíe;  vai  tirando  maquila- 
gem.  adereços,  roupas  de  mulher,  fica  nu.  e  então 
se  transforma  em  Paul  Anka  dublando  My  Way. 
No  dia  em  que  eu  vi  o  show  tinha  até  bofe 
chorando  na  platéia  a  essa  altura:  é  uma 
coisa  emocionante  (Agulnaldo  Silva) 


DESTERRO 

Artesanato  Catarinense  —  peças  em  cerâmica, 
madeira,  plantas  desidratadas,  tapetes,  gaiolas, 
peças  folclóricas.  Rua  do  Catete,  228,  Loja  305, 
Rio. 


PRA  QUEM  ENTENDE  DE  SAUNA 

Sana/ vapor _ ■  ética  ambkatal _ bar _ TV 

pHvate  rooau 


TMERMAJ 


Dc9  da  biiU  ii  6  da  atikl  do  dia  M(ahM, 
Roa  Baarqac  de  Maçado,  51,  Flaa«i|o,  Rio 
T detono  265-4389 


Página  17 


.v,'c»s*í 


*  Centro  de  Documentação 

APPAD  ★  Prof.  Dr.  Luiz  Mott 

associação  paranaense 
v  da  parada  da  diversidade 


GRUPODIGNIDADE 


CARTAS  I 
NA  MESA  | 


Destroca-troca 


Caro  Redator:  O  motivo  pelo  qual  venho  es¬ 
crever  -lhe  é  o  de  prestar  esclarecimento  e  retificar 
o  que  foi  publicado  na  seção  Troca -Troca  do  n? 
23.  Onde  alguém  mais  exaltado  usou  e  abusou  de 
meu  nome  e  caixa  postal;  dizendo  que  senhor  de 
40  anos  desejaria  conhecer  jovens  bem  dotados 
com  fins  amorosos  e  turístico.  Isso  porque,  \T 
tenho  1 8  c  não  42  anos .  2? ,  vou  à  Europa  mas  nlo 
consta  dos  meus  planos  levar  "alguém  na  baga¬ 
gem,  nas  costas  e  muito  menos  às  minhas  custas. 
E  como  há  males  que  vêm  pro  bem,  aos  menos 
avisados  que  por  acaso  vierem  a  escrever  sò  me 
resta  guardar  os  selos  c  começar  a  colecionar  fotos 
de  garotos  bem  dotados.  Ficaria  muito  grato  se 
esta  carta  fosse  publicada.  Sem  mais,  meu  cordial 
muito  obrigado. 

Robe  no  —  Sào  Paulo 

R  —  Você  é  um  homem  civilizado,  Roberto, 
que  coisa  rara!  Coleciona  selas!  Se  soubesse  o  que 
ai  coleciono,  certamente  cairia  pura  trás.  Nio  te 
digo  por  ser  ImpuMkávei.  Mus  a  vida  é  assim, 
nio  é  mesmo?  Cada  im  coleciona  o  que  pode,  o 
que  quer,  o  que  lhe  dá  prazer.  A  malandragem 
que  flaeram  cora  você  no  Troe  a -Troca  deve  ter 
sido  brincadeira  de  amigo  sea.  A  gente  nfto  tem 
como  se  preservar  dessas  coisas.  Em  todo  o  caso, 
obrigado  pela  maneira  (mais  uma  vez)  dvflizada 
de  sua  reação.  Que  pelo  menos  possa  fazer  um 
belo  álbum  de  seios  e  de  garotôes  ‘bem  dotados**. 


Todos  Sexuais 


Caros  Lampiônicos.  Acompanho  LampiAo 
desde  sua  tenra  infância  e  tenho  o  maior  carinho 
pelo  jornal  e  pelo  pessoal  que  trabalha  nde. 
Além  de  estar  do  lado  da  causa  que  defendem  (a 
defesa  de  todos  os  oprimidos  e  marginalizados 
pelos  Sistemas),  me  entusiasma  a  linguagem 
apaixonada  de  vocês  e  a  briga  constante  pelo 
direito  ao  prazer  amplo  e  integral  que  todo  o  ser 
humano  tem,  constantemente  mascarado,  nlo 
apenas  pela  direita,  como  é  óbvio  e  sua  função, 
como  também  pela  esquerda  (sò  brasileira?). 
Acho  especialmente  importante  essa  luta  na 
medida  em  que,  no  Brasil,  tudo  está  por  ser  feito 
e  acredito  que  possamos  encontrar  um  moddode 
sociedade,  tenha  que  nome  tiver,  em  que  os 
preconceitos  de  toda  espécie  possam  ser  banidos, 
sem  que  isso  implique  em  traição  À  causa  do 


^•ar^  amam.  «a  ara  mmm  rara  mmm 

Memória  guei 

I 

De  alguns  anos  para  cà,  a 
t  Imprensa  brasileira  tem  dado 
f  um  destaque  a  Questão  Homos¬ 
sexual.  Noticias,  ensaios,  en¬ 
trevistas,  matérias  e  contos, 
tem  sido  publicados  em  jornais 
e  revistas  de  norte  a  sul  do  país. 
I  Para  que  todo  esse  material  não 
4  se  perca  no  tempo  e  no  espaço, 
Ç  o  Jornal  Lampiio  resolveu  oc- 
r  ganizar  uma  Memória  de  tudo 
‘  que  tenha  sido  ou  venha  ser 
*  publicado  sobre  homosse- 
£  xualismo.  Para  isto,  pedimos  a 
I  colaboração  dos  leitores,  que 
f  enviem-nos  o  original  ou  xerox 
|  desse  material. 

f  *  *  *  *  * 

Lampião  da  Esquina:  Caixa 
Postal  41 .031 ,  Rio  de  Janeiro  — 
RJ  —  CEP  20.400 

****** 


Página  18 


proletariado.  Dito  isso,  vamos  ao  que  interessa: 
umas  das  minhas  preocupações  é  que  Lampião 
venha  a  se  tornar  um  Pasquim  da  vida,  de  triste 
memória.  Olha  que  eu  também  acompanhei  e 
saudei  com  entusiasmo  o  nascimento  do  Pasquim 
e  vejo  o  jornalzinho  agora  tomar  posições  imbecis 
frente  a  problemas  sérios  (vide  lesbianismo,  etc.). 
Nada  mais  irritante  do  que  o  liberalismo  de  es¬ 
querda:  não  fode  nem  sai  de  cima.  Isso  porque 
venho  notando,  aqui  e  ali,  certos  sectarismos  que 
não  sei  onde  vão  levar.  E  eu  não  discordo  da 
posição  de  João  Carneiro  em  relação  à  inserção 
dos  homossexuais  na  luta  mais  ampla.  Acho  mes¬ 
mo  que  a  tendência  agora  é  a  manipulação  e  os 
homo  têm  que  tomar  o  maior  cuidado  (Obs. : 
também  não  achei  machismo  em  sua  matéria...). 
Só  acho  também  que  o  caráter  manipulatório,  a 
despeito  da  especificidade  em  relação  ás  "mi¬ 
norias",  é  geral  na  politicagem  brasileira.  Por¬ 
tanto,  são  dois  engodos:  um  que  visa  es  pedal 
mente  a  aliciar  um  segmento  maiiinalizado  e  o 
outro  que  acena  com  uma  sociedade  justa, 
igualitária,  etc...  etc...  —  desmascarados,  am¬ 
bos,  pela  prática  e  por  toda  a  história  dos  mo¬ 
vimentos  de  esquerda,  no  Brasil  (só?)  discri¬ 
cionários,  autoritários  e  preconceituosos...  Outra 
coisa:  Peter  Fry  fez  uma  matéria  no  último  Lam¬ 
pião  (Novocabulário  Guei)  e  lá  pelas  tantas  de 
define  'bissexual**:  algo  que  não  existe;  quem  se 
diz  bissexual  é  apenas  uma  bicha  não  assumida" 
etc.  Aproveitando,  vou  dtar  também  o  artigo  de 
James  Lindsay  (Heterossexualidade :  perversão  ou 
doença?)  Feral.  Peter  e  James:  eu  acho  que  todos 
têm  direito  de  usar  sua  sexualidade  da  forma  que 
lhe  dê  mais  prazer  (oh  coisa  batida,  meu  Deus!). 
Eu  concordo  mesmo  em  que  a  organização  fa¬ 
miliar,  da  forma  como  está  estabelecida,  foi  e  é 
determinada  por  relações  de  poder,  como  toda  a 
organização  social  de  Leste  a  Oeste.  Até  ai  tudo 
bem.  Agora,  me  parece  é  que  negar  que  o  prazer 
possa  ser  encontrado  com  parceiros  tanto  fe¬ 
mininos  quanto  masculinos;  é  sectarizar  e  usar  o 
mesmo  discurso  autoritário  vigente:  só  é  pleno  o 
sexo  feito  com  parceiros  do  mesmo  sexo!  James 
me  vem  com  o  mesmo  discurso  que  a  sociedade 
hetero  usa  pra  discriminar  o  homo:  o  heteros- 
sexualismo  é  uma  "perversão**,  etc...  Parece  que 
.  já  ouvimos  isso  cm  algum  lugar...  De  rasto, 
apesar  de  todo  o  entusiasmo  com  que  foi  sau¬ 
dado,  não  se  atentou  muito  às  sábias  palavras 
daquele  travesti  do  1?  EBHO:  "nós  somos  todos 
sexuais!*'.  Dá  para  sacar?  Sexuais,  ampla,  geral 
e  irrestritamente! 

Beijocas. 

Vera  Maria  de  Queiroz  —  Rio 

R  —  Olha  Vera  Maria,  o  nosso  maior  cuidado 
tem  sido  sempre  não  cair  nas  afirmações  dog¬ 
máticas  nem  noa  fanatismos,  sejam  sexuais  ou 
políticos .  Estamos  sempre  em  estado  de  auto¬ 
crítica  dentro  do  jornal  e  achamos,  como  você, 
que  muitos  projetos  que  foram  saudados  em  seu 
Inicio  como  libertários  estào  boje  a  serviço  da 
opressão  das  "minorias".  Acreditamos  que  não 
vamos  cair  nessa  esparrela:  o  Lampião  continua 
sendo  feito  por  pessoas  que  estão  atentas  para  as 
armadilhas  colocadas  ao  meio  do  caminho,  à 
direita  e  à  esquerda.  Nio  serviremos  de  bucha  de 
canhão  e  massa  de  manobra  de  nenhum  partido 
ou  grupo  político.  Somos,  como  diz  um  lam- 
plônlco,  da  "divergência  socialista”  e  estamos 
aqui  para  subverter  as  regras  do  jogo  tanto  das 
que  estio  no  poder  como  dos  que  aspiram  a  de. 
Parece  que  você  nio  sacou  bem,  mas  o  artigo  de 
Jámes  Lindsay  é  apenas  uma  tremenda  gozação,  o 
ponto  de  vista  irônico  de  uma  bkha  inteligentís¬ 
sima  do  mundo  hetero.  O  glossário  do  Peter  Fry, 
é  um  dos  momentos  mais  brilhantes  do  Lampião 
n.°  24;  de  também  está  gozando  tudo  e  todos,  in¬ 
clusive  as  bkhas  'Hérlas”  do  1?  EBHO.  Quanto 
ao  prazer  de  cada  um,  de  deve  ser  livre,  geral  e 
irrestrito.  Beijos. 


Encontre  um  amigo.  Visite 

THERMAS 

DANNY 

SAUNA  E 
MASSAGEM 

Rua  Jaguarlbe,  n?  484 

Fone66-7101 

Sio  Paulo 


Terceiro  Ato 


Caros  Amigos.  Por  meio  desta  comunicamos  a 
formação  de  mais  um  grupo  Homo,  situado  cm 
Bdo  Horizonte— M.G.  Após  um  longo  período  de 
opressão,  de  cativeiro  —  neo-fascista  —  a  so¬ 
ciedade  brasileira  está  vivendo  o  momento  de 
"redemocratização",  não  vamos  discutir  o  sig¬ 
nificado  ou  realidade  desse  fato;  vamos  sim 
aproveitar  o  momento,  o  espaço  conquistado, 
para  contestar  a  ideologia  vigente,  independente 
de  suas  origens  e  bases  sobre  as  quais  se  assen¬ 
tam.  O  sistema  é  anti-humano,  antinatural  e 
queremos  contribuir  para  a  mudança.  Reivin¬ 
dicamos  o  direito  dr critica  sobre  toda  a  estrutura 
sodal  vigente,  seja  sobre  a  problemática  eco¬ 
nômica  relacionada  ás  formas  de  produção  —  ex¬ 
ploradores  x  explorados  — ,  seja  ao  nosso  con¬ 
dicionamento  comportamental .  Nos  organizamos 
para  lutar  contra  todo  o  tipo  de  segregação,  em 
particular  pelo  nosso  direito  de  **er”,  nós  que 
somos  chamados  de  homossexuais,  "doentes**, 
‘bichas”,  ‘Sapatões",  etc.,  vitimas  das  ditaduras 
da  direita  ou  da  esquerda.  Nio  nos  colocamos 
contra  as  "idooionas  progrtssitas**,  nosso  mo¬ 
vimento  faz  parte  delas,  mas  contestamos  a  moral 
burguesa  das  esquerdas,  assunto  que  discuti¬ 
remos  posteriormente.  Nosso  grupo  é  o  TER¬ 
CEIRO  ATO.  Está  relacionado  ao  ato  do  ques¬ 
tionamento,  enquanto  o  primeiro  ato  está  re¬ 
lacionado  ao  ato  instintivo  e  o  segundo  ao  ato 
condicionado.  Somos  o  Terceiro  Aio  e  é  o  ques¬ 
tionamento  dos  valores  que  nos  levou  a  apoiar  os 
movimentos  r  ei  vindicai  órk»  dos  direitos  hu¬ 
manos  das  mulheres,  negros,  pessoas  com 
problemas  fisicos,  Índios,  a  massa  de  traba¬ 
lhadores  e  outros  explorados  e  marginalizados 
deste  nosso  pais.  Acreditamos  que  a  verdadeira 
democracia  está  relacionada  com  a  melhoria  das 
condições  de  vida  do  trabalhador,  garantindo-lhe 
o  fim  da  marginalidade  Nos  posicionamos  contra 
qualquer  forma  de  machismo,  chamamos  a  aten¬ 
ção  dos  trabalhadores,  sindicatos,  intelectuais, 
estudantes  e  todos  os  militantes  progressistas 
para  os  preconceitos  que  fazem  com  que  mu¬ 
lheres,  negros,  homossexuais,  índios,  etc.  fiquem 
alijados  ou  vistos  de  forma  paternalista  pelos 
"Homens  Brancos”.  Não  basta  modificar  a  or¬ 
dem  econômica  de  uma  sociedade  se  não  é 
realizado  paralelamente  um  trabalho  de  ques¬ 
tionamento  da  ordem  moral  vigente.  Se  até  o 
momento  o  homem  foi  levado  a  se  adaptar  a 
"normas  c  leis”  preestabelecidas  e  a  situação  não 
melhorou  nada,  acreditamos  que  estas  "normas  e 
leis”  podem  ser  mudadas  e  adaptadas  ás  reali¬ 
dades  eman entes  do  homem.  Nos  posicionamos 
contra  a  separação  entre  homossexuais  mas¬ 
culinos  e  femininos.  Acreditamos  que  este  an¬ 
tagonismo  é  o  resultado  de  uma  sociedade  onde 
predomina  o  individualismo  e.  que  por  sua  vez 
serve  para  garantir  a  desunião  e  o  enfraqueci¬ 
mento  dos  grupos  marginais.  Somos  uma  força, 
devemos  estar  unidos  e  conscientes.  Alertas  con¬ 
tra  o  falso  liberalismo  que  nos  mantém  como 
doentes  ou  segregados  em  guetos.  Em  Belo 
Horizonte  é  grande  o  número  de  homo  conscien¬ 
tes,  é  grande  o  número  de  heteros  que  nos  estão 
apoiando  e  sabemos  que  os  Hitlers  ou  Stalins 
terão  mais  trabalho  para  nos  destruir.  Aos  nossos 
amigos  do  Lampião  comunicamos  que  nossa 


HÉ1JO  J.  DALEFI  —  médico  homeopata 

_ clinico  geral.  Rua  José  das  Neves,  89.  Fone 

521-0999  _  planalto  MarxJoars  (pela  Avenida 
Interlagos,  até  frente  Café  Solúvel  Domlnlum), 
São  Paulo  _  Capital. 


Depilação  definitiva 

STELA 

Rosto  e  variadas  parles  do  corpo 
Tratamento.  Método:  ale- 
trocoagulaçáo,  com  aparelhos 
importados,  os  mais  modernos 
dos  Estados  Unidos.  Nlo  deixa 
manchas  nem  cicatrizes.  Ambos 
os  sexos. 

Rio:  Largo  do  Machado, 
29/808  _  Fone  265-0130  _  Sio 
Paulo:  Alameda  Franca,  616,  s/01 
_ Fone  288-5163 


Caixa  Postal  é  nf  1720.  Gostaríamos  que  o  Jor¬ 
nal  transasse  uma  coluna  onde  os  vários  grupos 
de  todo  o  Brasil  pudessem  manter  uma  corres¬ 
pondência.  Ainda  estamos  nos  organizando,  mas 
para  o  futuro  pretendemos  garantir  a  represen¬ 
tação  do  'Lampa"  em  B.H.,  por  aqui  temos 
muito  trabalho,  mas  também  muita  gente  dispos¬ 
ta. 

Grupo  Terceiro  Alo  —  BH 

R  —  Nono  Jornal  é  de  vocês,  amigos  c  amigas 
do  Terceko  Alo.  Façam  ddc  a  tribuna  de  coa- 
g  raça  meu  to  cora  os  demais  grupos  oprimidos  que 
estão  surgindo  em  todo  o  Brasil.  Lampião  precisa 
da  cooperação  de  vocês  todos,  da  crttka  constante 
e  do  auxRlo  também,  como  leitores  stentos  e, 
principal  mea  te,  como  ASSINANTES.  E  aio 
teaham  dúvidas:  nós.  Jantas,  é  que  estamos 
fbarado  a  HUtúrta.  (Batucávamos  tranquilamen¬ 
te  estas  babas  quando  La  Mambaba  surge  na 
redação.  Na  sua  curiosidade  animal,  velo  direto 
aa  minha  direção,  leu  o  que  eu  escrevia  e  apos¬ 
trofou:  "Apanhado  outra  vez  pecando  contra  a 
modéstia!  A  grandüoqtténda  é  ura  vkk>  essen¬ 
cial  mente  fascista.  Pfte  Isso  aa  tua  cachola,  bicha 
obtasa:  quem  se  diz  oprimido  aio  pode  falar 
como  os  donos  do  poder.”) 


Venham  Todos! ! ! 


Turma  do  Lampa,  Rafaeltnha,  minhas  se¬ 
nhoras,  meus  senhores,  ui!!!,  acho  que  entrei  em 
discurso  errado.  Culpada  é  a  emoção  que  eu  sinto 
em  escrever,  desta  vez  como  leitora  (troquei  de 
papéis,  viu?).  Afinal,  colaboradora  também  tem 
seu  dia  de  mingau...  Então,  atrevo-me  a  dar  um 
"ultimai  um"  ao  pessoal  assíduo  que  lê  o  jornal.  A 
Yone  (aló  alô  Luca  do  n?  24,  ela  existe  sim,  não  é 
jogada  comercial  não)  falou  e  eu  abono:  os  grupos 
organizados  do  Rio  estão  precisando  de  homens, 
mulheres,  de  todos  que  estejam  numa  de  agir  e 
não  de  esperar  cair  do  céu.  E  não  é  por  falta  de 
caixas  postais  que  vocês  vão  deixar  de  escrever 
pra  gente.  O  AUÉ  tem  três,  anotem:  16218, 
25029  e  65022.  Nosso  grupo  está  crescendo  e  o 
pessoal  da  ala  das  mulheres  é  animadíssimo...  (é 
só  se  chegar  pra  comprovar...)  Vamos  dar  até 
brindes  especiais  —  Tchan  tchan  tchan  tchan...) 
pras  cento  e  cinqüenta  primeiras  cartas  que 
recebermos  —  viu  como  somos  dadivosas?...  Por¬ 
tanto,  aproveitem  a  oportunidade:  ao  lado  da 
campanha  do  Lampião  pra  conseguir  mil  assi¬ 
naturas  até  agosto,  a  gente  está  lançando  a  nossa, 
pra  conseguir,  até  lá,  mais  mil  membros  pro  nos¬ 
so  grupo,  heim,  heim?...  Afinal  AUÉ  predsa  de 
VOCÊ.  Venham... 

LcilaMíccolis  —  Rio 

R  —  É  Isso  ai  LeUa,  vamos  batalhar  pra  que  o 
Lampa,  o  Aué  e  os  outros  grupas  alcancem  os 
mil.  cem  mil,  um  milhão  de  homossexuais. 
Vamos  transformar  a  quantidade  em  quaUdade. 
A  nossa  chamada  deu  certo,  e  o  pessoal  já  co¬ 
meçou  a  fazer  as  assinaturas,  mas  ainda  não 
chegamos  lá.  Milhões  de  beijos  lampiônicos  pra 
vocé! 


SALVEMOS  A 

AMAZÓNIA 


Pslcoterapla  Eilslenclal  —  Terspla  cog- 
fiHlvoaetual 

Ari.stóie!e\  Ritdriyues  —  Piicologo  CRP. 
05.2512 

Fone*  286-9561  e  226-7147 


Rus  Barão  de  l  ucena  28  e  28-A  —  Botafogo 


Praça  Saeat  Pena,  45,1o.  204 


LAMPIÀO  da  Esquina 


★★ 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  diversidade 


★ 

★ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE 


CARTAS 
NA  MESA 


“Bobos  da  Corte” 


Acompanho  vocês  desde  o  primeiro  n®. 
Parabéns  pelo  excelente  jornal  que  vocês  fazem. 
Quero  parabenizar,  aplaudir  mesmo  o  Sr.  An¬ 
tônio  Carlos  Moreira,  por  sua  matéria  “Bichices 
na  TV!  Plim,  Püm!”  (lampião  23).  Em  um  bate 
papo  com  amigos  homossexuais  a  discussão  se 
tornou  um  tanto  “quente"  quando  um  deles  disse 
que  nflo  via  nada  de  mais  nessa  bichice  toda,  e 
que  chega  a  ser  até  tonitinho"  ver  no  video,  nos 
anúncios,  out-doors  e  tudo  mais,  aquela  des- 
munhecaçflo  toda.  E  que  tudo  isso  é  resultado  de 
uma  “abertura"  que  estamos  tendo  agora,  pois 
há  pouco  tempo  atrás  isto  seria  um  escândalo, 
blá,  blá,  blá...  Pôü!  Disse  eu.  Que  abertura  é  es¬ 
sa?  S6  se  for  uma  certa  abertura  que  permitiu 
teatrôlogos.  escritores,  publicitários,  etc...,  que 
com  medo  ou  incapacidade  para  assumirem  seu 
homossexualismo,  descarregam  no  seu  trabalho  a 
imagem  daquilo  que  gostariam  de  ser.  Mas  é  uma 
imagem  distorcida  do  homossexual.  É  o  ‘toboda 
corte"  realmente.  O  que  é  mais  incaível:  virou 
moda.  É  até  chique  dizer  que  se  tem  um  ‘'amigo” 
homossexual.  É  lamentável  saber  que  *tores, 
como  os  citados  na  matéria  e  outros  tantos  (as¬ 
sumidos  ou  nflo)  se  prestam  a  tais  coisas.  Mas  é 
ainda  a  nossa  realidade.  Nflo  pensem  que  sou  con¬ 
tra  a  desmunhecaçâo,  a  bichice,  o  4tfrescor”,  sou 
contra  o  uso  que  fazem  disso,  que  distorce  cada 
vez  mais  a  imagem  do  homossexual.  Concordo 
com  o  autor  quando  se  refere  ao  episódio  “O 
Qime  do  Castiçal”  como  sendo  um  marco  no 
sentido  de  mostrar  o  homossexualismo  com 
pureza  e  realismo,  sem  toda  essa  “fantasia”  que 
todos  os  textos  para  teatro  mostram,  exploram.  É 
sempre  a  mesma  coi$a:  uma  ou  várias  bichinhas 
fazendo  palhaçadas  no  grande  circo.  É  isso  ai. 
Parabéns  mais  uma  vez  e  espero  que  essa,  assim 
como  outras  tantas  matérias  do  nosso  Lampa 
possa  "abrir"  um  pouco  a  mentalidade  dos  nosso6 
companheiros.  Um  abraçflo  a  todos  pelo  2? 
aniversário  e  continuem  assim,  firmes,  iluminan¬ 
do-nos. 

César  Roberto  Tank  —  Sâo  Paulo. 

R  —  Em  primeiro  lugar  César,  ficamos 
emocionado*,  com  o  carinhoso  abraçflo  de  aniver¬ 
sário,  vamos  brigar  paia  chegar  aos  48  com  a 
mesma  garra  de  sempre.  Quanto  as  bichinhas  que 
entram  numa  de  achar  que  é  multo  bonitlnho  ver 
os  vtadoa  desmunhecarem  na  TV,  frito  ‘bobo*  da 
Corte"  e  idiotas,  baixe  o  pau  nelas,  pois  é  isso  que 
elas  merecem.  O  Lamplônico  que  escreveu  a 
matéria  se  encheu  todo,  ficou  todo  bobo  com  seus 
elogios  e  agradece  fazendo  uma  ressalva,  pois  se 
considera  muito  jovem,  ainda,  para  ser  chamado 
dc  Sr.  Senhorita  lhe  cabe  melhor. 


Pezinho  Bonito 


Oi  gente  nova,  dizer  que  eu  curto  o  “Lam- 
piflo”  até  excede,  né  •;  (senão  eu  nflo  estaria  aqui 
nessa  carta  querendo  papo).  Pra  botar  uns  refor¬ 
ços  ai  nas  afetividades  de  vocês  lá  vai:  o  jornal  e 
vocês  sflo  um  barato,  uma  luz  (nflo  fosse  Lam¬ 
pião).  O  que  vocês  já  devem  ter  feito  de  bem  pela 
cuca  de  um  bando  de  gente  como  a  gente  e  outras 
gentes  nflo  dever  dar  p'ra  contabilizar.  E  ir  p*ra 
frente,  de  cabeça  erguida  e  muita  força  p’ra  es¬ 
pantar  os  medos;  estar  unidos  ajuda  pacas. 
Graças  a  Deus  (deus?)  que  estamos  perto  do  ano 
2.000,  perto  de  2.001  (A  Odisséia  do  Corpo).  Pas¬ 
semos  ao  papo.  Eu  ja  notei  que  um  assunto  que  o 
pessoal  parece  evitar  por  ai  é  o  da  família  do 
homo.  Qual  é?  Vocês  acham  que  ainda  nflo 
chegou  o  dia  de  rnfrentar  as  nossas  casas,  de  en¬ 
trar  no  sacrosanto  recinto  dos  lares  heteros?  (!?) 
onde  nascemos,  somos  criados  e  colocad  >s  p‘ra 
vida?  De  vez  em  quando  vocês  falam  de  heteros, 
(ai  que  eu  disse  a  palavra  no  lugar  errado)  quero 
dizer  homos,  que  sflo  arrastados  a  tratamentos 
psiquiátricos  “Corretivos”;  vocês  falam  em  que 
somos  pessoas  afetivas  que  procuram  dar  uns  aos 
outros  o  carinho  que  nflo  tivemos  em  nossos 
lares...  Tudo  bem.  Evidente  que  a  gente  lê  o 
revide  a  sociedade  machista.  Mas  que  tal  uma 
palavrinha  sobre  as  peças  que  arrastam  nossos 
ir m Aos  p’ros  tratamentos  p*ra  filho  de  peixe 


deixar  de  ser  peixinho?  Que  tal  falar  das  peças 
que  nos  tornam  tflo  carentes  e  na  maioria  das 
vezes  cometem  a  abominaçflo  dc  nos  rejeitar  por¬ 
que  somos  o  reflexo  de  uma  das  facetas  do  casal 
hetero  que  nos  gera,  faceta  que  o  dito  casal  aves¬ 
truzmente  rejeita,  só  p’ra  ficar  bem  com  parentes 
e  vizinhos.  É...  A  discriminação  parece  que 
começa  em  casa,  né?  Eu  acho  que  seria  uma  boa 
a  gente  lembrar  a  esse  pessoal  que  a  gente  nflo  é 
filho  dc  chocadeira.  Nflo,  mesmo!  Somos  filhos  de 
casais  Macho  vs.  Fêmea,  como  é  inevitável  só  que 
esses  machos  e  fémeas  que  discriminam  a  gente 
parecem  querer  ignorar  isso,  enquanto  trocam 
beijinhos  e  respeito  com  os  pobrezitos  de  nuestros 
papás  (é,  na  casa  da  gente  parece  que  tende  a 
pintai*  dois  papás,  ou  duas  mamãs,  apesar  do 
sexo  dos  integrantes  da  parceria  ser  diferente  um 
do  outro),  pobrezitos  que  por  alguma  hipocrisia 
que  hteros  caretas  devem  saber  explicar  direi- 
tinho,.  aceitam  esses  beijinhos  e  respeitos  junto 
com  a  intolerância  com  que  seus  rebentos  sflo 
tratados.  Isso  é  assunto,  Ou  nflo  é?  Ou  será  que 
tamos  numa  de  'Youpa  suja  se  lava  em  casa”.  Es¬ 
se  ditadinho  é  da  laia  do  ‘Nego  quando  nflo 
borra  na  entrada,  borra  na  saída”,  ou  seja:  é 
ditadinho  pra  encurralar  mesmo.  Eta  avestruzada 
braba.  Qual  é?  O  pessoal  nflo  gosta  de  ver  no  es¬ 
pelho  o  reflexo  de  seus  lados  ocultos?  Esse  pessoal 
tá  precisando  é  de  coragem  e  humildade  pYa  se 
deparar  com  outras  possibilidades  de  ser  do  bicho 
humano  e  transar  elas  respeitosamente  que  nem  a 
gente  andou  fazendo  com  “cr  outros”  por  esses 
séculos  afora  de  discriminação.  Como  é  que  é? 
Será  que  a  gente  nflo  pode  dar  uma  transada 
crítica  nesses  heteros  que  geram,  educam  e  fazem 
a  gente  p’ra  depois  ficar  emburrado  porque  deu 
viado  na  cabeça?  Nflo  queria,  nflo  jogasse  no  24. 
O  problema  da  gente  nflo  é  de  ser.  O  problema  da 
gente  é  güentar  esses  chatos  que  ficam  a  se  mas¬ 
turbar  mentalmente  acreditando  que  a  gente  é  al¬ 


gum  fenômeno  da  natureza  ou  entfto  uma  vitima 
das  más  companhias.  Favor  ler  essa  última  frase 
com  a  dose  de  ironia  que  ela  merece.  Abraços  e 
beijos  fraternos  pYa  vocês  todos,  especialmcnte 
p’ra  quem  tiver  pezinho  bonito,  beijoca  sensual 
no  dedflo  do  pê  direito.  Isso  pYa  nflo  dizer  que  eu 
nflo  falei  de  flores .  À  da  gente .  Tim !  Tim ! 

G.  de  Castro  — Rio 

R  —  Sua  carta  tocou  fundo  no  problema  mais 
sério  das  bonecas  e  que  mais  gera  neuras  na 
praça:  o  sentimento  de  rejeição  pela  famflia. 
Olha,  boneco,  sflo  poucas  as  bichas  que  conse¬ 
guem  se  libertar  dessa  terrtvel  sensaçáo  de  solidão 
e  sofrimento  resultante  da  rejeição  familiar,  e  são 
poucos,  os  que,  como  você,  conseguem  vrncer  es¬ 
se  sentimento  a  ponto  de  poder  falar  tão  clara  e 
debochadamente  sobre  ele.  É  isso  ai.  O  movimen¬ 
to  de  desopressão  do  homossexual  deve  ter  esse 
tema  como  um  dos  primeiros  para  os  debates 
futuros.  Temos  que  limpar  a  nossa  cuca  da  mal¬ 
dita  sensação  de  doença  Imposta  pela  sociedade 
früorática  judako-crístá.  Não  nos  aceitam  como 
somos?  Pior  para  eles,  pois  terão  de  engolir  um 
nabo  gigantesco.  E  agora  passemos  ao  que  é  bom : 
Você  faz  género  gatão  ou  gatinho?  Porque  tem 
gente  aqui  que  para  todos  as  tipos...  E  esse  ne¬ 
gócio  de  pé  bonito  botou  em  rebordosa  a  redação, 
podes  crer.  A  gente  curte  adoidado  todos  os 
prazeres  requintados. 


Cacá  Sumiu 


Oi  Lampião.  Tudo  bem?  Nflo  sei  se  essa  é  a 
melhor  maneira  de  tantar  encontrar  alguém,  mas 
é  a  única  que  me  restou.  Talvez  nem  todos,  ou 


melhor,  quase  ninguém  vai  lembrar,  mas  no 
Lampiflo  n?  14  havia  uma  carta  intitulada  “O 
drama  do  Cacá",  eu  li,  me  emocionei  e  entrei  em 
contato  com  essa  pessoa.  Dai  passei  a  me  corres¬ 
ponder  com  Cacá,  desde  aquele  mês  de  Julho, 
minha  vida  se  transformou.  Cacá  é  a  pessoa  mais 
maravilhosa  desse  mundo,  ela  conseguiu  me 
devolver  toda  esperança  de  viver,  sim,  porque  a 
vida  ia  me  levando  e  aprontando  coisas  que  eu 
nflo  conseguia  entender  porque  era  tudo  ruim 
mas  pintou  essa  pessoinha  linda  que  me  ergueu, 
só  que  agora  estou  novamente  no  chflo,  no  mais 
baixo  chflo  possível,  tudo  porque  Cacá  sumiu  faz 
um  més  e  alguns  dias.  Nunca  pensei  que  eu  fosse 
amar  alguém  de  longe  (S.P.),  nflo  imaginei  ser 
possível,  porque  nós  nflo  nos  conhecemos  pessoal¬ 
mente  o  que  nflo  foi  barreira  para  o  amor  tomar 
conta  de  mim,  eu  me  dei  ao  máximo  possível 
numa  relaçflo  entre  pessoas  distantes  e  ela  tam¬ 
bém,  digo  isso  por  causa  das  cartas  que  trocamos 
e  nflo  me  deixa  pensar  que  foi  um  sonho.  Hoje 
restam  cartas,  dois  retratos,  um  cachorrinho  de 
pelúda,  a  lembrança  de  alguns  telefonemas  e 
uma  angústia  imensa.  Nflo  sei  o  que  as  pessoas 
irflo  pensar  mas  gostaria  de  ter  essa  carta  pu¬ 
blicada  como  uma  esperança  de  saber  alguma 
coisa  sobre  ela,  uma  garota  de  uma  força  incrivel¬ 
mente  estranha  e  imensa,  me  fez  renascer  de  um 
passado  triste,  me  devolveu  a  vontade  de  amar  e 
me  entregar  a  esse  amor.  Agora  nesse  momento 
sinto  que  nada  mais  é  importante,  tudo  perdeu  a 
lógica,  estou  completamente  sem  açflo,  atônita  e  o 
coraçflo  está  todo  machucado.  Eu  ficaria  grata 
por  qualquer  notída  recebida  porque  isso  ia  me 
fazer  muito  bem. 

Beth  —  Rio 

R  —  Beth  querida,  não  se  desespera  que  Cacá 
vai  reaparecer.  Nós,  daqui,  fazemos  um  apeio  a 
Cacá  para  que  lhe  telefone  ou  escreva  imedia¬ 
tamente. 


Não  use  a  fantasia 


nal»  lhe  impõem 


Lampião  não  faz  de  você  um  palhaço 


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v.rivy«$ 


eágina  19 


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da  parada  da  diversidade  ^ 


Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


®5 

GRUPODIGNIDADE 


ILITERATURÃI 


Ao  primei  ro  chofer ,  Jorge  indaga : 

—  Vocé  sabe  um  randevu  aqui  por  perto? 

—  Sei .  Tem  a  Luiza,  se  querem  gastar . 

—  Nio,  coisa  barata. 

—  Só  mais  longe,  Pode-se  ver.  Hoje,  sábado, 
está  tudo  cheio,  vocês  sabem. 

—  Está  bem  entáo. 

Embarcaram  os  dois  atrás.  Afoito,  Jòrge  cir¬ 
cunda  o  pescoço  de  Eli  e  o  beija  com  ruído.  O 
chofer  vira-se  e  seus  olhinhos  lampejam  no  es¬ 
curo: 

-Ué?.... -rí. 

Aceitando  a  malícia  do  chofer,  Eli  ri  também, 
a  demonstrar  que  era  o  ativo  e  se  distraia.  Jorge 
fica  a  ponto  de  cair  em  pranto  de  ressentimento. 
Mas  apenas  retira  o  braço,  olhando  á  frente.  Com 
a  mflo  nas  coxas  de  Eli ,  excita-o.  O  outro  permite 
e  só  o  aplaca  quando  as  carícias  se  intensificam, 
machucando-o. 

—  Aqui  tem  um  —  avisa }  o  chofer. 

Descem.  Jorge  fala:  vimos  ver  se  tem  lugar, 
fique  esperando. 

Na  casa  custam  a  abrir.  Vem  a  madame. 

—  O  que  é?  Não  têm  mais  meninas.  Todas 
ocupadas . 

—  Queríamos  um  quarto. 

—  Só  tem  um,  um  se  arranja.  O  outro  vai  ter 
que  procurar  noutra  pensão. 

—  Um.  Um  chega. 

—  Mas  as  meninas  cj'»e  vocês  trazem  são  de 
st.híím  idade?  Nada  tír  vrçem  |ku  i. 

Não  trazemos. 

—  Então  pra  que  o  quarto? 

—  Quanto  é? 

—  Mas  não  tem,  filho. 

—  Quanto é?  Vocé  disse  que  tinha  um. 

—  Não  tem.  Já  foi  tudo  embora.  Vou  fechar 
—  e  ia  mesmo,  se  Jorge  não  entrasse. 

—  Me  arranje,  por  favor,  me  arranje. 


Internato 


PAULO  HECKER  FOLHO 

“Internato”  é  a  história  de  um  grande  amor  homossexual  adolescente.  A 
novela,  publicada  em  1951,  é  pioneira  no  tema,  no  Brasil,  só  tendo  atrás  de  si  “O 
Bom  Crioulo” de  Adolfo  Caminha,  escrita  no  século  passado.  Paulo  Hecker  Filhoé 
um  escritor  gaúcho  que  estreou  na  literatura  aos  22  anos  com  um  “Diário”  que 
abismou  a  critica  brasileira  e  portuguesa  por  sua  enorme  cultura  literária  e  hu- 
manística.  “Internato”  é  a  terceira  obra  do  Autor  e  desta  vez  serviu  para  escan¬ 
dalizar  de  vez  a  pacata  “Intelligentsia”  nacional.  Hoje,  “Lampiáo”  entrega  outra 
vez  ao  público  brasileiro  essa  pequena  obra-prima  de  delicadeza  e  de  confiança  na 
vida  tanto  tempo  escamoteada  das  prateleiras  das  livrarias. 


—  Pra  dois  homens,  não,  não. 

—  Eu  lhe  pago  da  mesma  maneira. 

—  Na  minha  casa  não.  Aqui  não. 

—  Vá,  me  arranje. 

Mas  negando-se  sempre,  a  mulher  empurra 
Jorge  para  fora,  até  conseguir  trancar  a  porta. 

Ele  põe  o  dedo  na  campainha,  sem  trégua, 
ela  desliga  o  registro  Algum  tempo  ainda 
_çjtama.  seanwndo  a  rn^deira  inuiríinegtte..!  r/*- 
penfe*.  Lü  sugere  que  temem  noa  tia  o*i«e,  e* 
consegue  trazê-lo  ao  carro,  dando  ordem  pa.  a 
seguir.  , 

O  chofer  divertia-se.  Ouvia  a  discussão  com 
a  mulher,  pois  descera  do  carro  por  curiosidade, 
c  divertia-se.  Nâo  suportando,  Jorge  interpcla-o: 

—  Do  que  é  que  está  rindo?  Para  com  isto! 

Sem  responder,  ele  continua.  Jorge  vai  lhe  dar 
um  sopapo  na  nuca,  quando  a  presença  de  Eli 


capacita-o  de  que  pode  estragar  tudo,  perdendo 
aquela  oportunidade.  Deixa-se  cair  para  trás, 
vencido,  esforçando-se  para  dominar  o  pranto 
que  quer  lavâr  aquela  ira  impotente.  E  o  chofer 
ria. 

No  terceiro  randevu.  havia  um  quarto,  mas  a 
_  dona,  pelo  mooo  já  suplicante  com  que  Jorge  o 
Ipede,  resolve  cobrar  cem  entzeiros  pela  noite,  cu» 
Vcrdos  ‘.gpIarwti.^Tia. 

Aucutciosarncntc  Jorge  'oncorda  e  vai  o 
'carro,  enquanto  Eli  entra,  sob  a  inspecção  cu¬ 
riosa,  mas  não  reprovadora  da  madame. 

—  Gnqüenta?! 

—  Ê.  —  E  pelos  olhos,  com  a  crueldade  dos 
que  se  julgam  normais,  continuava:  —  Sei  bem 
quem  tu  és,  não  me  enganas. 

Jorge  lhe  espatifaria  com  gosto  a  cara.  Tal  é, 
porém,  o  seu  desprezo  que  não  pronuncia  uma 
palavra.  Teria  cortado  de  si  um  pedaço  para  se 


ver  livre  daquele  sujeito.  Mete  a  mão  no  bolso  e 
entrega-lhe  a  sua  única  nota. 

O  chofer  examina-a,  não  crendo  na  facilidade 
com  que  o  golpe  pegara.  Mas  como  são  sem 
dúvida  çiqqüenta,  alegre- sc 

—  Precisafido,  já  sabe.... 

Ao  voltar,  a  mulher  conduz  os  dois  ao  quarto, 
abrindo  as  janelas.  E  já  se  retirava,  com  grande 
alivio  de  Jcáge  por  nada  ter  exigido  adiantado, 
quando  o  chama  discretamente:  —  O  senhor 
pode  vir  aqui  um  momento? 

Jorge  vai,  sabendo  do  que  se  trata,  na  aflição 
de  que  tudo  se  desfaça. 

—  Se  não  se  incomoda,  pode  me  pagar  agora. 

—  Depois,  não  é?  —  atreve-se  a  contestar* 
dada  a  delicadeza  com  que  o  pedido  fora  feito. 
Mas  uma  negativa  seca  corta-lhe  a  respiração. 

—  Depois... 

—  Não,  agora. 

—  A  verdade....  é  que  não  tenho  os  cem 
cruzeiros.  Dei  o  que  tinha  ao  chofer.  Mas  se  a 
senhora... 

—  Não  pode  ser,  meu  caro. 

—  ...quiser  aceitar  este  relógio  de  garantia,  — 
desatando-o  do  pulso  —  tome,  tome.  Vale  se¬ 
tecentos,  e  a  senhora  pode  ficar  com  ele  se 
amanhã,  amanhã  mesmo,  eu  nâo  vier  trazer  o 
dinheiro. 

—  Não.  Não  e*tou  habituada  a  esses  itegódos, 
?  «  #  de»**»  o  quarto  ?  vacfe  foi  por  concessão 

—  Fique,  fique  com  ele  —  quase  a  obriga  a 
pegá-lo.  Lhe  peço  que  nos  deixe  aqui  esta  noite, 
esta  noite,  por  amor  de  Deus . 

Sem  poder  se  contrapor  àquela  urgência,  ig¬ 
norando  porque  cedia,  a  mulher  resolve  ir-se, 
ainda  a  reclamar  e  levando  o  relógio. 

Jorge  volta  ao  quarto.  Enfim,  livre  do  mundo! 
do  mundo  contra  o  qual  lutara  tanto  aquela 
noite,  que  de  certo  modo  era  o  resumo  de  sua 
vida,  livre,  livre  de  amar!  (excerto) 


Um  Caso  de  Amor 


MARIA  LÜCIA  DE  BARROS  MOTT 

Recebemos  de  Mana  Lúcia  este  conto  inédito  e  o  publicamos  sem  mais  demora 
porque  achamos  que  esta  é  a  hora  da  mulher  falar.  Nascida  em  1948,  escrevendo 
desde  adolescente,  Maria  Lúcia  é  hoje,  além  de  escritora,  pesquisadora  em  his¬ 
tória.  Diz  da  que  seu  principal  projeto  de  vida  é  resgastar  a  história  do  oprimido 
— -  as  minorias  raciais,  sexuais,  mulheres  e  homossexuais.  Foi  também  ceramista  e 
pintora,  mas  por  este  bdo  conto  temos  certeza  de  que  é  como  escritora  que  da  se 
exprime  melhor. 


Tinha  acabado  de  me  levantar.  Sal  correndo, 
meio  sonada  com  a  cara  amassada  e  o  olho  em- 
papuçado.  O  cheiro  dela  me  envolvia  toda  que 
resolvi  nâo  tomar  banho  e  guardá-lo  mais  um 
pouquinho.  Meu  cheiro,  o  cheiro  dela,  a  pre¬ 
guiça,  o  calor...  foi  difícil  sair  do  aconchego  dos 
abraços  na  cama  mas  sal,  tomei  café  na  padaria 
e,  acordei. 

Coloco  anúncio  no  jornal,  vou  á  imobiliária, 
pago  o  aluguel,  falo  com  o  proprietário,  faço 
outra  proposta  e  dal,  não  mudo.  Outra  casa, 
outro  bairro*. .  e  se  fosse  outra  cidade? 

O  corpo  esguio  e  o  andar  desenvolto  das  per¬ 
nas  que  atravessavam  a  rua  fizeram  que  eu 
acelerasse  o  passo  c  olhasse  de  frente.  Olhos  ten¬ 
sos  traços  duros  c  marcados.  Corpo  leve,  ágil . 

Ela  me  olhou,  riu  (achei  que  do  meu  espanto. 
Mais  tarde  contou  que  foi  do  meu  jdto  de  andar, 
de  equilibrista)  e  disse  para  eu  ter  cuidado  com  o 
ônibus  na  contramão.  Do  outro  lado  da  calçada 
falou  da  greve  dos  motoristas,  da  liquidação  do 
Mappin .  Em  frente  à  Light  reclamou  da  conta  de 
luz. 

Corpo  e  rosto  passaram  a  não  me  intrigar 
mais.  O  riso  tinha  um  ar  maroto,  as  frases  eram 
irônicas  e  o  olhar  curioso.  Faziam  um  todo  har¬ 
mônico  com  os  cabelos  vigorosos,  os  dentes 
bonitos,  os  seios  pouco  marcados  e  o  perfume 
gosto  (que  não  consegui  identi  ficar). 

Quantos  anos  teria?  Perto  de  dnqüenta. 

Na  esquina,  parou  no  ponto  de  ônibus,  ia  para 
as  Perdizes.  Achei  que  poderia  começar  pro¬ 
curando  uma  casa  por  lá. 


E  o  bairro,  como  é  o  bairro? 

Soube  dos  dias  de  feira,  das  ruas  de  comércio 
e  dos  estudantes  da  PUC.  Contei  que  era  bai¬ 
larina  e  que  procurava  uma  casa  para  abrir  uma 
escola  de  dança.  Foi  como  uma  senha,  o  nosso 
abracadabra: 

BAILARINA! 

Foisé,  bailarina. 

Falou-me  então  do  marido  que  tinha  proibido 
seguir  dançando.  Proibiu  dançar,  fumar,  se  pin¬ 
tar.  Reclamava  dos  joelhos  que  apareciam  por 
debaixo  da  saia  ou  no  divã  da  sala.  Não  gostava 

da  mania  que  tinha,  que  dizia  que  da  tinha,  de 
conversar  com  qualquer  um  na  rua,  na  fdra,  na 
padaria.  Não  queria  Que  fosse  ao  cinema  sozinha. 


Lia  tudo  que  via,  pois,  isso  ele  não  se  importava, 
por  que  não  sabia,  nâo  conhecia,  o  valor  das 
palavras.  Nâo  entendia  nem  os  gest06.  Resolveu 
escrever  poesias,  mas  só  quando  ele  nâo  estava  em 
casa  por  que  se  estivesse,  achava  que  aquilo  era 

bobagem,  pedia  torta  de  chocolate,  um  copo' 
d’água  ou  pra  comprar  cigarros.  Nunca  teve 
filhos.  Aprendeu  com  a  mãe  a  aceitar  o  pai,  o  ir¬ 
mão,  depois  o  marido  e  foi  o  que  fez,  achando  que 
nâo  podia  ser  de  outra  forma.  , 

Ela  desceu  do  ônibus  prometendo  me  procurar, 
um  desses  dias,  quem  sabe  até  voltar  a  dançar, 
afinal  o  marido  andava  um  pouco  mais  calmo  ul¬ 
timamente. 

Fui  eu  quem  buscou  seu  olhar.  Não  havia  es¬ 
quecido  do  corpo,  nem  do  rosto.  Sua  imagem  es-. 


tava  muito  presente,  tinha  me  visitado  duas  vezes 
em  sonho.  No  primeiro  oferecia-me  a  boca,  o  seio 
e  o  sexo  em  troca  do  prazer  que  nâo  conhecia.  No 
outro,  chamava-me  para  que  juntasse  meu  corpo 
ao  dela  e  sentisse  as  pulsações  do  seu  coração  e  as 
vibrações  do  seu  corpo. 

Lembrou-se  de  mim  como  bailarina,  havia  es¬ 
quecido  meu  nome.  Eu  estava  de  aiaa  nova  e  ela, 
de  marido  mono.  Trocamos  endereços  (dessa  vez 
ela  me  deu  o  dela),  tomamos  um  suco,  e  na  des¬ 
pedida,  fizemos  promessas  de  um  novo  encontro. 

Na  segunda-feira,  apareceu  na  escola, 
querendo  se  matricular,  começar  a  dançar, 
naquela  hora  mesmo,  já  tinha  comprado  a  malha, 
era  só  mudar  a  roupa.  Pediu  p&ra  escolher  a 
música,  mexeu  nos  discos,  remexeu  as  fitas, 
aflita.  Queria  todas,  mas  não  encontrava  aquela. 

Qual?  Tchaikovsky,  Ravd? 

Não,  não.  Alguma  coisa  persa,  do  oriente. 

Dança  do  ventre? 

Não,  música  guerreira,  de  libenaçáo. 

Capoeira? 

Dançou  para  Xangó,  Ogum  e  Iansã.  Quando 
tocou  para  lemanjá,  parecia  que  tinha  saldo  do 
transe,  perdeu  o  ritmo,  me  chamou  para  mostrar 
o  passo.  Coloquei-me  na  frente  dela,  tentou 
seguir  minha  cadência,  segurou  minha  cintura  e 
nossos  movimentos  se  harmonizaram.  Segurou- 
me  mais  forte,  seus  seios  roçaram  minhas  costas, 
as  pulsações  de  seu  corpo  lembraram -me  o  sonho, 
estimularam  meu  desejo  (ou  o  nosso?)  e  frente  a 
frente  nos  beijamos.  PYimeiro  beijo  de  amor  em 
boca  de  mulher. 


APPAD 

associação  paranaense 
da  parada  da  divcr?>idadr 


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Centro  de  Documentação 
Prof.  Dr.  Luiz  Mott 


GRUPODIGNIDADE